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Gares Marítimas

Viradas para o rio Tejo, as Gares Marítimas de Alcântara e da Rocha do Conde de Óbidos, construídas na década de quarenta do século XX, contam-nos hoje bastante da história do século português a que pertencem.

Primeiro, porque foram palco de partidas e chegadas numa época em cujo o transporte marítimo era a principal forma de ligação de Portugal com os seus territórios ultramarinos e demais nações estrangeiras. Depois, porque são marca, por um lado, do regime ditatorial de direita de então e cuja vontade as edificou e, por outro, do arquitecto Pardal Monteiro que as desenhou. Por último, porque nelas podemos encontrar os frescos com que José de Almada Negreiros, a convite do desenhador das gares, animou as suas paredes.

São estes os tesouros que o porto de Lisboa, por estes dias, põe à disposição, através de visitas comentadas, de todos aqueles que queiram conhecer melhor estes espaços da capital portuguesa. No entanto, apesar de toda a história que estas gares encerram, o que as torna tão interessantes e valiosas são, sobretudo, os painéis da autoria de Almada Negreiros. Estes tomaram ao artista, para cada uma das gares, dois anos e meio de estudos e setenta dias de execução. Daqui sairiam, primeiro em 1945, na Gare Marítima de Alcântara, oito pinturas, que se distribuem por dois trípticos e duas composições isoladas, e, já em 1949, na Gare Marítima da Rocha do Conde de Óbidos, seis pinturas distribuídas por dois trípticos.

No primeiro caso, de Alcântara, o pintor inscreve-se num registo anteriormente revelado, por exemplo, nos frescos do edifício Diário de Notícias. Essa maneira de pintar já caracteristica de Almada é visível tanto nos dois trípticos, representando, num, a Nau Catrineta, poema popular português, e, noutro, a vida de Lisboa junto ao rio, com as embarcações atracadas e mulheres, retratadas de forma vigorosa, acartando a mercadoria para terra. Nas duas composições isoladas que podemos também encontrar na Gare Marítima de Alcântara, Almada optou por retratar, num dos casos, um domingo tipicamente português e, no outro, a lenda de D. Fuas Roupinho.

Já terminados os trabalhos da gare de Alcântara, que suscitaram agradabilidade pelo trabalho ali desempenhado, Almada é novamente convocado para enriquecer as paredes da Gare Marítima da Rocha do Conde de Óbidos, que entretanto se construira. Contudo, o Almada Negreiros que aqui encontramos pouco se assemelha, além das temáticas relacionadas com os espaços em questão e do recurso a elementos típicos do seu imaginário pessoal, ao pintor que se encarregou da gare de Alcântara. Onde antes fora tradicional, aqui Almada renova a sua abordagem estilísitca. Desta forma, servindo-se dum um cubismo que nunca abandona a linguagem pictórica, o pintor oferece aos visitantes da Gare Marítima da Rocha do Conde Óbidos, por um lado, o retrato do drama que é o embarque e, por outro, novamente vida junto com Tejo.

Sem prejuízo para qualquer uma das duas gares marítimas, Almada Negreiros, comprovando o seu génio e as suas capacidades de se renovar e reinventar, dá um gigantesco salto estilístico dos painéis da primeira para os da segunda gare que pinta. A este propósito Almada comentaria, anos mais tarde, “creio não haver antes cumprido melhor, nem feito obra que fosse mais minha”. De facto, as questões relativamente ao cubismo, que surgiam um pouco por todo o mundo nos anos seguintes ao segundo conflito mundial, foram, em Portugal, tratadas de forma singular por Almada na segunda gare que pintou. Aspecto esse que permitiu às gerações que se seguiram considerar o cubismo como uma questão “resolvida” e focarem-se em novas correntes emergentes.

Começando na Gare Marítima de Alcântara e terminado na Gare Marítima da Rocha do Conde de Óbidos há uma vastidão de elementos e questões que são suficientes para, por um lado, consagrarem o nome de José de Almada Negreiros enquanto artista singular e, por outro, inscrever os painéis das gares marítimas do porto de Lisboa nas páginas da história da arte portuguesa. Trata-se, sim, artisticamente, de um dos momentos mais altos de toda a arte portuguesa, ou seja, motivo mais que suficiente para aproveitar esta oportunidade de visitar as gares marítimas.



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