“Gertrude” – TECA, Foto de João Tuna

“Gertrude”

Há uma providência especial até na queda de um pardal

A partir de Hamlet, Simão do Vale adapta a obra de William Shakespeare (sem nunca a ferir) e cria um espectáculo onde o foco é Gertrude, a mãe do príncipe da Dinamarca.

Tudo nesta peça é orgânico; os figurinos (Bernardo Monteiro) – fraques e casacos forrados a penas de pássaro pretas – fascinam, amedrontam e, quando movimentados pelos actores, fazem sons de animal furtivo. Corvos?

A cenografia (Bernardo Monteiro) é hipnotizante. O cenário, composto por uma teia de patchwork de tecidos ricos, veludos, damascos, é o fundo do palco e também o chão. Dá-nos a sensação de uma ostentação decadente, aquilo que já foi e já não é. Um reino de trapos e farrapos. É neste clima de despojos que Hamlet (Simão do Vale) e a sua mãe, Gertrude (Fiammetta Bellone) se movem. Caminham sobre os restos, os restos de uma tragédia cujos estilhaços todos atingiu, e que antecipam algo de muito pior.

O desenho de luz (Rui Simão), de uma simplicidade aparente, é sangue, é luxúria, é medo. É tantas vezes morte.

A sonoplastia do espectáculo (Francisco Pessanha de Meneses) acompanha a narrativa como algo endógeno, que faz parte.

O jogo teatral é usado com mestria e engenho, permitindo que os dois únicos actores em palco se desmultipliquem em diferentes personagens, e que o público compreenda o que está a acontecer.

Ainda sobre o carácter orgânico, Fiammetta Bellone, que encarna Gertrude, (este personagem que na obra original deixa tanto espaço em aberto) prende-nos não só pelas suas escolhas de interpretação, mas também pela sua postura em palco – a precisão dos seus gestos é notável.

A interpretação de Simão do Vale está repleta de vida. Quando o ouvimos, para além das palavras, sentimos as intenções e as dores do seu Hamlet.

O que resulta da comunhão de todos estes factores é um espectáculo repleto de simbolismo e imagens, tornando-o muito generoso para o espectador – a peça vai directa ao coração. Faz-nos reapaixonar pelo teatro.

Entrevista com Simão do Vale, actor e encenador de “Gertrude”

O actor e encenador, natural de Viseu, formou-se em psicologia pela Universidade do Porto e estudou representação na Scuola di Recitazione del Teatro Stabile di Genova, em Itália, País onde vive actualmente. Já encenou vários projectos, do qual destaca “3 IN 1”, espectáculo composto por três peças de um acto, de Luigi Pirandello – “O homem da flor na boca”; “La patente” e “Cecè”.

Foi no seu camarim, no Teatro Carlos Alberto, que conversámos com ele.

Em “Gertrude”, para Simão do Vale, que tem vindo a trabalhar neste projecto desde há dois anos e meio, a curiosidade por este personagem prende-se com o facto de ser um personagem “muito pequeno, do qual se sabe muito pouca coisa”. Assim nasceu a vontade de “pegar no texto (Hamlet) e enriquecer o personagem (Gertrude) aos olhos do espectador”. Considera que os dois factores estruturais para a adaptação de “Hamlet” de William Shakespeare foram “manter a linha narrativa do texto original e dar prioridade ao personagem da mãe”, uma mulher que vive um dilema irresolúvel. “Esta mulher está completamente dividida; dividida entre amor pelo marido, amor pelo filho, e pela memória do falecido rei”, para além de querer proteger os interesses políticos do seu Estado. Para acentuar esta condição de divisa, Simão que quis explorar a ideia de destino – “ela deixa-se levar pelo destino”, incapaz de lidar com estes dilemas incompatíveis entre si, conduzindo à “inevitabilidade da tragédia”. “Há uma providência especial até na queda de um pardal”, sublinha, citando uma frase que em “Gertrude” é proferida pela própria.

Acrescenta que contou com uma equipa “generosa” que ofereceu “outros planos de leitura à peça”, realçando-se, assim, não só o “plano textual” mas também o “plano simbólico” dos acontecimentos.

“Este é um espetáculo sobre a condição feminina”, diz-nos o autor, que considera que “Gertrude” “tem este lado actual” da mulher que desempenha uma série de papéis diferentes, em conflito entre si, conduzindo por vezes à “cisão da pessoa em face dos seus vários papéis”.

Sobre o facto de serem apenas dois actores em palco, Simão diz-nos que, se por um lado se está num momento “em que há muito poucos recursos”, por outro era um “desafio adaptar o texto para só dois actores”. A escolha da actriz italiana Fiammetta Bellon, que o actor considera “uma intérprete extraordinária”, surge do facto de ambos já terem trabalhado juntos, e de se terem deparado com inúmeras questões relativas ao personagem de Gertrude. Questões a que queriam dar resposta. Assim surge Gertrude – “Uma rainha estrangeira numa corte portuguesa”.

O italiano aparece naturalmente, uma vez que Simão está habituado a representar nesta língua, pela qual se apaixonou desde que foi estudar para Itália. Tinha sobretudo curiosidade em perceber “se era viável ter as duas línguas juntas” e também criar uma ponte entre o seu trabalho em Itália e o seu trabalho em Portugal.

O actor revela que foi uma “escolha do Nuno Carinhas apadrinhar este projecto”. Quando questionado em relação ao futuro desta peça, mostra interesse em levá-la, não só pelo País, na próxima temporada, mas também a Itália.

No Teatro Carlos Alberto, de 5 a 14 de Abril

Dramaturgia e encenação: Simão do Vale
Interpretação: Simão do Vale e Fiammetta Bellone
Cenografia e figurinos: Bernardo Monteiro
Sonoplastia: Francisco Pessanha de Menezes
Desenho de luz: Rui Simão
Coreografia: Né barros



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