gianfranco angelucci

“Fellini conta o incontável”

Entrevista com Gianfranco Angelucci, guionista, escritor, jornalista e Professor Universitário, um especialista em Frederico Fellini, membro da Academia de Cinema Italiana, Diretor da Fundação Frederico Fellini entre 1997 e 2000, que trabalhou com Fellini e conheceu-o bem, assinando o guião do filme  “Entrevista” de 1987 do cineasta italiano, e que nos falou de aspectos menos conhecidos do genial cineasta.

Que génio é Fellini?

Fellini é o artista mais importante do Séc.XX e não só cinematográfico.Na América é dito que o Charlie Chaplin é o mais importante da primeira metade do Séc.XX e Frederico Fellini o mais importante da segunda metade.Mas é um artista não apenas do cinema, é um artista importantíssimo que se expressou no cinema porque foi a arte que encontrou no seu tempo.Pintava, desenhava e escrevia muito bem.

Era um génio, era um mago, uma figura superior à média.Tinha uma capacidade de ver o mundo de um modo diferente.Revelava algo secreto das coisas que não se vê. A realidade que via era diferente da dos olhos dos outros.Tinha uma capacidade de entreter sempre com estórias.Tenho a impressão que era um mago.

Criar com Fellini era como estar dentro de uma astronave que partia para o espaço.Era o quotidiano.

Conheci-o quando ele tinha 50 anos em 1969-70, mas era um imperador.

Era um imperador do Sonho, da Magia, de Metacinema?

Sim, mas também da realidade.Estar junto a ele era como estar junto a um Papa.Fellini era alguém admirado por todos, um fenómeno, alguém que se amava, se respeitava.

Criar com Fellini era como estar dentro de uma astronave que partia para o espaço.Era o quotidiano.

O que explica esta majestade de Fellini?

Fellini tinha uma condição muito particular, preservava o ponto de vista de uma criança, completamente inocente, numa cabeça de um génio na sua capacidade de pensar e ser criativo.Para ele a mais alta função do pensamento não era racionalidade mas a imaginação, a fantasia.E esta qualidade nele era intensa porque o cinema também permitia esta possibilidade.

Com Fellini 8 ½ passou de um vertente mais neo realista para uma mais de Sonho, de um cinema que aborda questões como o paranormal.Há algo mais obscuro com o estudo da psicologia de Jung.O que se pode dizer de Frederico Fellini que ainda não foi dito?

É importante ter presente que Nino Rota, o seu músico, era o maior colecionador de textos esotéricos em Itália, porventura na Europa.Quando Fellini convidava a ver a primeira cópia com a montagem pronta do filme, Nino Rota adormecia, não via o filme, e depois andava em casa e escrevia a música.Fellini dizia que a música o levava a entender o filme que tinha realizado.Repare na estranha combinação deste músico e deste realizador que se encontram no primeiro filme colaborando até 1979.

Era um génio, era um mago, uma figura superior à média

Em Fellini 8 ½, dá duas visões que não são totalmente evidentes.No final do Fellini 8 ½ há um menino que na cena do carrocel em que todas as personagens vão fazer uma dança de roda, menino com um uniforme de colegial branco.Este menino chamava-se Marco Gemini.Fellini conheceu-o quando já rodava o filme 8 ½ , em casa da sua família, uma familia muito rica em Roma, pensou em colocá-lo na cena final do filme.Esta cena, não era a cena final do filme, era antes para ser utilizado como trailer.Meses depois do filme estar concluído, o rapaz adoece com leucemia fulminante e morre em pouco tempo.Passam 30 anos exactamente, e Frederico Fellini faz uma operação cirúrgica muito importante. Fellini afirma nessa altura que um menino o salvou foi um menino.Explicou que se sentiu mal, caiu na cama, pressentiu alguém que alguém pressionava a porta e era um menino, descreveu como estava vestido, que tinha 8, 9 anos.Fellini disse ao menino para o ajudar, para ir chamar o porteiro do Hotel. Quando deixa o Grand Hotel de Rimini onde tinha tudo acontecido pergunta ao funcinonário do Hotel pelo rapaz para lhe agradecer.O funcionário disse que não se encontrava nenhuma criança no Hotel.Mas a descrição correspondia a Marco Gemini.Digo-te isto porque no Fellini 8 ½ fala-se Asa Nisi Masa um modo camuflado de dizer Anima, ou seja, Alma.No mecanismo das coisas maiores que nós, na magia, era aí que vivia Fellini.

O mecanismo da verdade passa pelo sonho?

Sim, do subconsciente.Ele elaborou o livro dos sonhos, da sua vida onírica, a sua vida nocturna.

Os filmes de Fellini contam o incontável.



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