#AGC GISELA JOAO 051

Gisela João @ Teatro Tivoli BBVA (25.04.2024)

Um Abril que em cravos floresceu, e que na voz de Gisela João se quis e engrandeceu.

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Texto por Patrícia Santos e fotografia por Andreia Carvalho.

O “dia inicial inteiro e limpo” culminaria com um concerto de Gisela João, envolvido pela presença urgente e permanente de centenas de pessoas que, simbioticamente, lotaram a sala de espectáculos do Tivoli. Por entre conversas, silêncios e contemplações, o entusiasmo era total.

A segunda noite deste “Sons da Liberdade” foi semente e, ao mesmo tempo, raíz, na medida em que revelou sensações de pertença e de profundo saber. Por sua vez, a mesma fez da vulnerabilidade uma casa-mãe, porquanto elevou múltiplas emoções. Gisela João gerou sentidos e criou caminhos, num embalo que foi colo durante quase uma hora e meia.

O pano abriu e, desde logo, no palco, pudemos observar algo quase incorpóreo. Vários lençóis brancos compunham este quadro quimérico, nos quais estavam dispostos cravos. Muitos cravos. O sonho ficaria completo com um baloiço.

Palmas inevitáveis surgiram quase em simultâneo com o instrumental que daria início a este balançar. Um «Acordai» que nos manteve despertos e atentos, numa ânsia de ser em constante crescimento. No fim da música, Gisela partilhou o porquê da escolha da mesma, dizendo “sinto que há muita gente que está dormente”.

O nosso coração ganharia espaço, batendo fortemente, numa simbiose melódica. Seguiu-se a canção «A Morte Saiu À Rua». E, naquela quinta-feira, antes do concerto, milhares de pessoas também saíram à rua, numa celebração plena de Abril.

No cenário onírico, Gisela João e a sua voz de veludo, os dois músicos (Carles Rodenas Martinez e Luís “Twins” Pereira) e os seus instrumentos eram a força que nos impelia. O tempo e a escuta, reflectidos num espaço comum, foram sendo permeados por jogos de luzes que, por sua vez, iam reorientando e reafirmando o que ali estávamos a viver.

Ouviu-se «Traz Outro Amigo Também». E, Gisela João, de seguida, conversou connosco. Conversou connosco sobre como a letra dessa cantiga é actual e efectiva.

Perante um corpo irrequieto que se sedimenta numa voz incessante, Gisela apareceu-nos quase como um anjo. O ritual prosseguiu na «Inquietação», com a cantora a afirmar que “se não fosse tão inquieta a minha vida era mais fácil, mas mais morna e mais triste. A inquietação mantém-nos acordados”.

As palavras e a importância das palavras. As palavras e o significado delas. As palavras e a Liberdade. Quem defende a Liberdade? De quem é essa Liberdade? Que peso tem a Liberdade? E que peso têm as palavras? No fundo, Gisela João quis fazer da Liberdade a sua morada, fazendo-a ouvir-se; fazendo-a, até, eternizar-se.

Cantou, também, Capicua, interpretando «Que Força É Essa Amiga» (uma versão da rapper da canção original de Sérgio Godinho).

As múltiplas camadas sonoras, marcadas e gritantes, que foram sendo geradas, aconchegaram, por um lado, o público; e, por outro lado, desconfortaram o âmago do mesmo. Por ora, estávamos felizes por estar ali.

Contou-nos que, desde miúda, ouvia música portuguesa e de intervenção, tendo cantado, ainda, «Que Amor Não Me Engana», «Eu Vim de Longe», «E Depois do Adeus», «Os Bravos», «Canção de Embalar», «Vejam Bem», «Os Vampiros» (com a qual se despediu) e «Balada de Outono». Zeca e mais Zeca. Zeca interminável.

Através do gesto cantado e criativo, Gisela João mostrou-nos que sentir (e sonhar) é preciso. Este espectáculo remete-nos para a solidão e para o diálogo, despe-nos e veste-nos. Acima de tudo, e como disse a artista, “as coisas são simples”.

O povo unido aplaudiu de pé. Entoou-se a «Grândola, Vila Morena». Nas mãos, os cravos elevaram-se. Por entre sorrisos que se lançaram, acreditou-se na premissa de um 25 de Abril que se mantenha e fortaleça.

Obrigada, Gisela. Obrigada. Façamo-nos sempre escutar.



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