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“Glória ou como Penélope morreu de tédio”

Peça de Cláudia Lucas Chéu na Sala Estúdio do Teatro D. Maria II até dia 30 de Janeiro.

ESPERA e DESEJO são as duas palavras temáticas que mais se evocam e misturam ao longo deste espectáculo contemporâneo de regresso ao passado e ao clássico “Odisseia” de Homero. Como desejar sem esperar e como esperar sem se desejar? O que é da espera sem o desejo e do desejo sem a espera? Elas não vivem uma sem a outra. Assim também Telémaco ou aqui, Pathos não viveu sem a sua mãe, Penélope e ambos não conseguiram viver sem a GLORIOSA espera do seu herói Ulisses e sem o desejo que, um dia, esse dia chegasse.

“Glória” é uma viagem parada mas agitada, ao lado do mar, onde se “mastiga a espera” da chegada de quem nunca chega. Será possível viajar esperando, será possível uma viagem sem movimento e sem destino? O que poderá acontecer quando se está perdido, quando se procura um rumo ou um porquê, quando se teima em não seguir caminho, quando se vive o que já não existe, quando se alimentam medos, saudades e ilusões, quando se vive fantasmas do passado ou se mergulha no fundo do mar sem oxigénio? Assim nada se vive, nada avança, nada acontece. Aí, nessas ondas, só existe vazio, abandono, “solidão azul”, desespero, medos e dor.

Este espectáculo é um monólogo louco e recheado de pedidos de socorro, interpretado excepcionalmente por Albano Jerónimo, que empresta a sua voz, corpo e alma à personagem Pathos, um filho órfão de pai mas amado por 13 mulheres que choram a saudade e vivem na espera do regresso desse homem. São vinte anos de vazio, preenchidos com dor, amargura, rugas e especulações. Pathos cresce num ambiente viciado, cem por cento feminino e absorve essas referências, angústias e forma de viver, atrapalhando assim a construção da sua identidade como homem e como ser humano equilibrado, é esse o seu fado. Pathos faz tricot como sua mãe, canta, chora e ri, sonha, amaldiçoa e castiga, ele luta, perde, espera e desespera… como a sua mãe.

Cláudia Chéu escreveu e encenou um espectáculo que permite muitas viagens e interpretações, que nos obriga a reflectir e a responder ao seu desafio de saber “porquê cada vez mais não nos inscrevemos na sociedade e de como isso se espelha no discurso e no corpo de quem vive aqui e agora”. Ela inspirou-se e subscreve as palavras de José Gil quando este diz que “os portugueses não fazem o luto e com isto prolongam a espera, como se as coisas não estivessem realmente inscritas no presente, mas se inscrevessem em alguma coisa que ainda está para vir.” Será verdade?

Eis um espectáculo onde o mar e a saudade são rei e rainha, onde o feminino abunda e exagera, onde as ondas são redes e tricot, onde o tricot é tela de multimédia, onde a tela é a vela de um barco que balança, onde um homem chora como criança, faz de macaco e grita “ terra à vista”.

Tem a participação de um coro único, peculiar e precioso de “carpideiras à portuguesa”, o Grupo de Teatro Comunitário As Avozinhas de Palmela e de um menino lindo (Samuel Branco/Martim Barbeiro) que representa Pathos (e que também come chapéus de chocolate Regina) e a Esperança que tudo pode recomeçar e seguir um novo rumo, diferente da história de Pathos contada até aí.

De notar os graciosos vídeos do mar de Sérgio Graciano, a sonoplastia pertinente e aguçada de Vitor Rua, a luz mágica e colorida de Nuno Meira e a cenografia simples, inteligente, criativa, multifacetada e original de Ana Limpinho, entre outros.

“Glória”, um espectáculo a não perder, até domingo, no Teatro D. Maria II.



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