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Gonçalo Amorim – Centro de Dia

Fazer da nossa vida um acontecimento.

Dar conta de um espectáculo um mês depois de ele ter sido apresentado é deixar o pó pousar depois da turbulência que um acontecimento teatral consegue ser. Quando telefonei ao Gonçalo Amorim já se tinha passado uma semana depois da última apresentação de Centro de Dia. Ele e a sua equipa ainda continuavam a ir ao Centro Social da Sé, na Rua de São Mamede ao Caldas, para desmontarem interiormente, peça a peça, esta experiência de muitos meses de trabalho e de relação.

Centro de Dia, pela Dona Vlassova e seus convidados

Centro de Dia, o décimo quarto espectáculo do festival alkantara 2010 passou-se em dois momentos distintos: entre as 10h e as 17h, nos dias marcados, qualquer pessoa podia entrar e sair do Centro, para, na condição de futuro utente, vir conhecer a sua actividade. A partir das 19h Dona Vlassova e seus convidados levavam-nos por uma viagem encenada pelo Centro de Dia.

Atravessávamos corredores, subíamos escadas, descobríamos espaços que pareciam ser de um outro tempo. Durante algum tempo, para além dos cicerones, não encontrávamos quase ninguém. Apenas sons, os sons que iam ficando. De uma televisão, da rádio que estava sempre ligada. Até que de repente entrávamos dentro de uma sala com uma faixa onde se lia “Bem-vindo Futuro Utente” e onde um pequeno grupo coral de idosos começava a desfiar canções que tinham feito história nos seus tempos de mocidade. Depois um pequeno bailarico, envolvendo os espectadores e os idosos. Depois, separavam-se grupos e iríamos começar um novo percurso pela casa. O meu grupo seguiu com Raquel Castro que nos levou a uma pequena biblioteca, onde nos falou de uma mulher que não tinha vindo porque tinha medo de sair à noite. A certa altura, numa despensa iriam surgir as memórias da guerra com a história daquela mulher do movimento nacional feminino que distribuía abre-latas aos soldados para que o barulho não os denunciasse diante do inimigo, quando eles tentavam abrir as latas de conserva com pedras e G3. A visita aproximava-se do fim quando entrávamos na fábrica dos sons que ligavam toda a casa: a Rádio Moxico, em frequência 87.9. Por esta altura já começara a perder-se a luz do dia, tinha vindo a noite. Quando entrei no estúdio de rádio apanhei a história de Maria Baptista. Foi locutora da Rádio Moxico nos anos sessenta em Angola, onde passava música que os soldados pediam nas cartas que lhe escreviam. Contou a Romeu Costa, o animador do programa de rádio, as memórias da sua África colonial, principalmente o inigualável cheiro do café em flor: “Basta-me fechar os olhos, em meditação, e vem-me tudo à memória. Se eu tivesse 57 anos ia lá começar a vida outra vez!”, disse. Depois nós seguimos para o pátio onde tudo terminou com um jogo de bingo que envolveu todos, actores e espectadores.

Gonçalo Amorim, filho de Tito Agra Amorim, animador teatral ligado aos movimentos de teatro na Escola,  começou por explicar como é que ele e Ana Bigotte Vieira tinham tido a ideia do projecto:

“A partir de uma notícia do Público, uma notícia de há quase dois anos, que falava das instituições de acolhimento como lares, o artigo era à volta da sexualidade e da afectividade nesses sítios. E nós ficámos interessados neste tema e fomos à procura de um lar e ao mesmo tempo que fizemos o projecto também o levámos ao ALKANTARA. Encontrámos aquela casa, que é um sítio incrível, é um centro de dia, as pessoas passam lá o tempo.”

Já nessa altura estavas a pensar trabalhar com as pessoas dali?

“Desde o princípio que a minha ideia era trabalhar com não profissionais. Em colaboração com eles, a partir de uma reflexão em conjunto, sobre um conjunto de temas como a sexualidade e a afectividade. Começámos com entrevistas, com sessões em dois campos: sessões muito sensoriais, muito ligadas ao movimento, com coisas muito suaves, toque, e por outro lado muita conversa, muitas conversas, em grupo, em privado, uma espécie de reunião de histórias de vida. E a partir daí surgiram outros temas: a guerra colonial, os últimos quarenta anos. Aquele lugar. Alfama é um centro muito vazio, as ruas são muito íngremes, a noite é muito escura, há uma data de coisas que não lhes é favorável. Nós passámos por lá quase um ano, cheguei lá a primeira vez a 15 de Julho.”

Gonçalo explica que o horário do fim do dia tem a ver com o facto de o espectáculo ser todo ele construído a partir do tempo daquelas pessoas:

“Chega a certa hora e é hora de ir e as pessoas levantam-se e vão embora e nós tentámos integrar isso no espectáculo, eu tenho alguma dificuldade em chamar a isto espectáculo, é um acontecimento, tem várias componentes de espectáculo mas é a convocação para um acontecimento. Nós trabalhámos muito para esta relação do espectador com o tempo real daquele espaço. Falávamos muito disso, como é que em duas horas iríamos passar tudo aquilo que vivemos durante meses? E também, como é que fazemos para que isto não pareça um jardim zoológico. Como é que tornamos isto numa experiência real e intensa, sensorial, de cheiros. Essa ideia de não haver palmas, da diluição das palmas no bingo é uma ideia que gosto imenso, por isso as mesas são mistas, os espectadores e os actores estão misturados nas mesas. Nós ao princípio pensámos que deveríamos acabar com uma festa, mas depois decidimos contrariar isso. Primeiro apresentamo-nos nós, os colonizadores, depois fomos dilatar o tempo de expectativa dos espectadores. Passámos primeiro pelos sons da casa, os cheiros, a casa vazia e depois a festa surpresa, onde nós estamos a aplaudir quem chega. Nós queríamos levar a coisa para uma dimensão mais poética, que transcendesse isso. E por isso o percurso, o perdermo-nos no tempo daquela casa, o horário é crepuscular, passa do dia para a noite, o que baralha a percepção da duração. Embora já tenha feito muitas outras coisas na comunidade, aqui tentei fazer de maneira diferente. ”

Vocês são todos muito novos, à volta dos trinta e estiveram ali com uma população com problemas de mobilidade grandes…

“Muitos deles têm quase noventa anos, a quarta idade, andámos a pensar Portugal nestes últimos anos, aprendemos muito com eles, muito.”

Falámos da Rádio, cuja ideia surgiu por causa do contacto deles com a história de Maria Baptista. Diz o Gonçalo:

“E de repente começámos a entrar neste imaginário colonial, e de como a rádio unia as pessoas, e também aqui fizemos da rádio um ponto de união no nosso projecto. Uma coisa que reparámos é que eles tinham sempre a rádio ligada. O bibliotecário, a mulher da entrada. E assim com a Rádio Moxico ouvia-se a ementa do centro, as informações, os programas.”

Falaram-me de que à Rádio também lá tinham ido dois casais falar da forma como se conheceram ali no Centro:

“O Germano e a Bete, o Porfirio e a Tomásia, são dois casais muito carinhosos lá no centro, que se conheceram lá. O Porfirio e a Tomásia casaram-se há um ano, foram de lua de mel para Sesimbra. O Germano e a Bete são namorados há uns bons anos. Aqui há uma questão engraçada, que é como na altura da guerra, que é o facto de haver poucos homens em condições e os poucos que existem são muito cobiçados.”

Gonçalo Amorim explica-me que tentaram criar “uma bolsa de dignidade em relação ao Centro”. Fala das discussões que tiveram sobre o Orientalismo de Edward W. Said, sobre a relação colonizador/ colonizado, do fascínio que tem pela forma como Pedro Costa se relaciona com a realidade:

“Acabámos por tocar nesta zona de não sensacionalismo,  da criação de um lastro que fica na obra que tem a ver com a relação séria, continuada, calma, profundamente comprometida da actividade artística com o real. É qualquer coisa que eu me apercebo depois, agora. É qualquer coisa que eu repetiria, que eu repetirei. A questão da residência artística, do lastro que tu consegues construir dentro de um processo é fundamental para tu poderes fazer depois o espectador presenciar um momento único, e não apenas um momento de repetição de formas. Acho que esta reflexão sobre o tempo é o que estes velhotes nos ensinaram. Um fim de vida muito desapoiado, dramático, mas com grande sabedoria. Este corpo que leva muito tempo a sentar, a levantar.”

Que idade é que tens?

33.

Estava agora a olhar para ti, estava a ver o teu percurso, em que ponto é que tu estás?

“Estou tranquilo, a tentar encontrar uma relação com o tempo, a reflectir sobre uma arte, há nisto quase que uma impossibilidade, não é? Reflectir sobre uma arte que não seja de consumo. Que não seja uma arte imediata. Que estimule o espectador a ter experiências que alterem o ver espectáculos como se se picasse o ponto. A sobrevalorização das sinopses. As pessoas precisam de ter sinopses. As pessoas precisam de ter sinopses para depois dizerem o que foram ver. Portanto fica-se aqui numa zona onde as experiências não são únicas. Não me interessa a radicalidade do desconstruir das formas. Mas interessa-me forçar um pouco, forçar um pouco a inteligência, conseguir encontrar um ponto certo entre a comunicação e a capacidade de forçar o outro a compreender algo que ainda não viu, a que não está habituado. “

A teatralidade pura, o aspecto mais formal do teatro, o que é que isso te diz?

“Ligo-me mais a uma ideia de uma relação energética, de energia, de pulsão, de poesia. Que a teatralidade venha de um património que os próprios actores, ou não actores neste caso, transportam. É quase que um momento energético, ou de comunhão, barra espectáculo, que é fruto de um património, de uma pesquisa comum. Que às vezes é arte pura, outras é só energia.”

Para acabar perguntei-lhe se, criativamente, ele sentia a necessidade de estar integrado num grupo. Gonçalo Amorim que já trabalhou num grupo com uma dinâmica muito forte, como o Bando, que surge ocasionalmente  associado aos Primeiros Sintomas enquanto estrutura de produção, e que tem agora esta enigmática Dona Vlassova, com quem se liga a um conjunto de pessoas com as quais vem colaborando como Ana Bigotte Vieira, Frederico Lobo, Rita Abreu, respondeu-me:

“Como eu já venho de grupos não tenho nenhuma obsessão nisso. O grupo é algo que se constrói relacionado com o tempo e não relacionado com a ideia de grupo. Isso acaba por ser uma experiência totalitária. Cria-se uma entidade abstracta que já não funciona no tempo das pessoas, no tempo que as pessoas precisam para criar. É por isso que eu neste momento procuro o tempo que eu preciso para mim.”

Coordenação: Gonçalo Amorim
Co-autor: Ana Bigotte Vieira , Ana Pereira , Hugo Dunkel , Iris Cayatte , Frederico Lobo, Pedro Gil , Raquel Castro , Romeu Costa , Rosa Baptista , Susana Cecílio
Com a colaboração: de Idosos do Centro Social da Sé da SCML
Gestão da produção: Ana Pereira
Co -produção: Dona Vlassova , AnaPereira.PedroGil , alkantara festival



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