Gotan Project & Sam The Kid @ Coliseu

Público português continua com “Revancha del Tango” na sua memória.

Apenas 3 meses depois de terem esgotado o Coliseu dos Recreios, nova casa cheia para acolher estes “pontas-de-lança” na divulgação dos novos caminhos do tango argentino.

Para falarmos um bocado deste concerto teremos, obrigatoriamente, de fazer uma pequena comparação aos concertos realizados na tournée anterior, baseada no aclamado “Revancha del Tango”. As diferenças são abismais. Se antes os Gotan Project se escondiam, na maioria do espectáculo, atrás de uma enorme cortina branca onde eram projectados vídeos, com o palco a ser ocasionalmente invadido por dois dançarinos de tango puro, agora, talvez devido às grandes andanças que essa mesma tournée lhes proporcionou, o trio aparece desinibido e bem mais à vista do público.

Vestindo cores brancas, no passado o preto era a cor dominante, o espectáculo é composto por nove (sim, nove) elementos em palco. Para além do “núcleo duro”, formado por o guitarrista de rock argentino Eduardo Makaroff, o parisiense Philippe Cohen-Solal (fundador da etiqueta discográfica Ya Basta!) e o suíço Christoph Müller, somos brindados por mais três esbeltas violinistas, um acordeonista absolutamente fabuloso, a quase sempre presente Cristina Vilallonga, cuja voz foi bastante (e bem) explorada neste último “Lunático” e o pianista dos Calexico, Gustavo Beytelmann, sempre pronto a lançar toadas melódicas para o meio do “cibertango” produzido em palco. Todos estes nove elementos tornam os Gotan uma banda bem mais interactiva e versátil do que outrora.

O concerto começou com a apresentação de alguns dos novos temas do seu último álbum. «Celos» foi a primeira música a sair da cartola e a primeira oportunidade de Cristina Vilallonga mostrar a potencialidade da sua voz. «Lunático», tema que dá nome ao álbum e «Notas» foram os dois seguintes. A apatia do público nesta altura do espectáculo era notória e foi necessário sair algo de “Revancha del Tango” para que a audiência reagisse. «El Capitalismo Foraneo» teve a responsabilidade de conseguir fixar todos os olhares da plateia às melodias debitadas em palco.

Seguiram-se mais alguns temas de “Lunático” que, surpreendentemente, continuaram a transmitir uma apatia geral, apesar de a sua interpretação roçar o perfeito e serem sempre acompanhados por projecções brutais, ora de corridas de cavalos (o nome lunático é uma homenagem ao cavalo de corrida de Carlos Gardel), ora de viagens alucinantes sobre o mar e paisagens tipicamente argentinas. Nem a fantástica performance da voz de Cristina em «Amor Portendo» foi capaz de combater esta apatia inicial.

«Mi Confessión», a “desculpa” para a aparição de Gotan Project pelos dois Coliseus, foi como que o virar da página deste concerto, com os ritmos de Hip-Hop a serem aliados aos de Tango e, como pano de fundo, uma projecção gigante dos rapers Cáceres e Jimi Santos a cantarem por cima da música construída em palco.

Seguiram-se temas, já imortais, do seu álbum primogénito como «Una Musica Brutal» e «Santa Maria» mesmo antes do grande momento da noite. Philippe Cohen-Solal anuncia um tema inédito, de seu nome «el Norte», com o qual podemos ter um “cheirinho” do potencial que estes três artistas podem ter, ao contrário do que muitos afirmam. Guitarras desconcertantes em ritmos espanhóis com batidas a la disco, transmitidas por dois sintetizadores e acordeão alucinado, aliado a um piano verdadeiramente endiabrado é pouco para descrever este novo tema.

Seguiu-se «La Vinguela», que, uma vez mais, não surtiu qualquer efeito no público e originou a primeira saída do palco. O primeiro encore foi então uma cópia daquele realizado na tournée anterior, acabando com um tema mais virados para as pistas de dança, «Tripico», em que todos os membros da bandas tiveram o direito de ser aplaudidos. Este será, eventualmente, aquele tema que ficará eternamente nos ouvidos daqueles que um dia ouviram este trio franco-argentino. Seria, sem dúvida, mais uma boa saída de palco, apesar de, também ela repetida… mas os Gotan não pareciam contentes e voltaram para uma terceira aparição e, ao ritmo do acordeão embalado pela voz de Cristina Vilallonga, o público voltou a vaguear por terras argentinas com «Diferente».

Para sair em beleza foi reservada uma surpresa especial. Philippe Cohen-Solal perguntou “do you like surprises??” ao que, à resposta óbvia do publico, apareceu… Sam the Kid que, directamente de Chelas, como o próprio afirmou, entoou, de novo, o single «Mi Confessión», desta feita em português, e, embora a sincronização não fosse, claro está, tão perfeita como com o duo dos Komoz, revelou-se um momento bastante agradável e único. Ouviu-se pela primeira vez ritmos deste cibertango com uma voz portuguesa de fundo. “Guardem este momento para sempre, gravem no telemóvel, ponham na net, que isto jamais será feito de novo”, disse Sam the Kid para um público do Coliseu dos Recreios, completamente estupefacto.

Em jeito de crítica, existe pouco a apontar aos Gotan. Melhoraram deveras a sua apresentação, técnica e simpatia. A assistência, essa, continua bem mais familiarizada com os temas de “Revancha del Tango”, e “Lunático” parece ser um álbum que passou ao lado de quase todos. Este é um fardo do qual este trio dificilmente se conseguirá “livrar” na sua carreira. Quando se faz uma obra prima à primeira, aliada ao facto de ser produzida em ritmos diferentes de tudo o que foi feito até a data, torna-se difícil, por muita que seja a qualidade das sua produções, de conseguir uma adesão a novo trabalhos como o primeiro. Mas a música é mesmo assim e, das duas uma, ou se mantêm nestas linhas e vão ser sempre os criadores de “Revancha del Tango” ou mudam, adicionam, somam e criam um conceito novo…



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