Gouveia Art Rock 2006

Os sons progressivos regressam a Gouveia em Abril.

Depois de três edições em claro crescimento, a edição deste ano do gouveia artrock, que se realiza no fim-de-semana de 7 e 8 de Abril, apresenta mais um excelente cartaz, promovendo um género que continua bastante afastado do mainstream: a música progressiva. Fiquem a conhecer o cartaz da edição deste ano bem como uma pequena conversa com Luís Loureiro, um dos responsáveis pelo festival.

A edição deste ano do festival terá mais uma vez lugar no Teatro-Cine de Gouveia, uma sala com capacidade para 340 lugares sentados e com todas as condições acústicas e logísticas para excelentes espectaculos. A organização espera repetir o sucesso dos anos anteriores, especialmente do ano passado, a primeira que esgotou a capacidade da sala, e que teve espectadores oriundos de todo o mundo (Israel, Suécia, Brasil, Espanha …).

Fiquem com o alinhamento do Gouveia Art Rock 2006

Sábado, dia 8 de Abril

O festival arranca com a actuação dos franceses Taal, agendada para o princípio da tarde de Sábado (15:15). Composto por seis ecléticos músicos, este projecto francês caracteriza-se por uma estrutura sinfónica, à qual são colados elementos recolhidos em géneros tão diversos como o barroco, o prog-metal, o clássico pré-romantico, a folk ou o jazz.

A segunda actuação da tarde irá de certeza marcar a edição deste ano do festival. O projecto Beduínos a Gasóleo, liderado pelo compositor e jornalista da RTP José Carlos Fialho, apresenta o seu álbum de estreia, que conta com um convidado cujos créditos e prestígio nacional e internacional quase dispensam apresentações: Janita Salomé.

Com um percurso iniciado no rock “clássico” dominado pelo formato canção, os Beduínos a Gasóleo praticam hoje um progressivo diversificado, de longos “épicos sinfónicos”, aos quais juntam o humor e a música tradicional portuguesa. Para a actuação em Gouveia, a banda convidou Janita Salomé, uma das maiores referências da música portuguesa, tanto pela enorme expressividade da sua voz, como pela procura incessante das raízes do canto nacional. Sem dúvida que este será um “encontro” a não perder.

Para o final de tarde/início da noite (19 horas), está agendada a actuação do projecto belga, Present , o primeiro nome a confirmar a sua presença na edição deste ano do festival. Com uma carreira de quase trinta anos, a banda liderada pelo compositor Roger Trigaux é adepta das sonoridades mais negras, ambientes mais densos, que vão proporcionar um excelente espectáculo audiovisual. Os Present apresentam-se em Gouveia em septeto que contará com a participação do lendário percussionista avant-garde Dave Kerman.

Para fechar o primeiro dia de festival, a organização do festival escolheu um nome histórico da música mundial. Com mais de trinta anos de carreira e uma discografia invejável, Peter Hammill, vem a Portugal apresentar-se a solo (ao longo destes trinta anos sempre teve uma carreira paralela nos Van der Graaf Generator), num espectáculo capaz de agradar a gregos e troianos. Acompanhado apenas pela guitarra e pelo piano, Hammill apresenta em Gouveia o seu estilo muito próprio de interpretação, caracterizado por longas e expressivas baladas, centradas nas paixões e angustias do homem contemporâneo. A não perder.

Domingo, dia 9 de Abril

A tarde de Domingo arranca com as “histórias” de Matthew Parmenter, ex-membro dos Discipline, um dos projectos de referência rock sinfónico contemporâneo. O concerto de Gouveia marca o regresso do norte-americano à Europa, 10 anos após a sua última visita ao velho continente.

O segundo projecto de Domingo vem do frio finlandês mas promete muita animação e festividade. A música dos Alamaailman Vasarat sintetiza sons étnicos das mais variadas proveniências (nórdica, judaica, árabe, centro-europeia, africana e latino-americana, entre outras) e a mistura-os com jazz, música clássica e rock, resultando daí instrumentais contagiantes. Interessante?

A fechar o fim de semana e mais uma edição do Gouveia Art Rock, nada melhor que um dos mais importantes projectos do “rock alemão”. A música dos Amon Düül II, “fundados” em 1968 numa comuna de Munique, marcou dezenas de projectos durante os últimos trinta anos. O experimentalismo instrumental e vocal associado a um certo psicadelismo e influências étnicas, fizeram deste projecto uma instituição no panorama europeu e principalmente no krautrock germânico. Um final histórico para um festival que vai também ficar na memória de quem por lá passar.

ENTREVISTA com Luís Loureiro

Pequena conversa com Luís Loureiro, um dos organizadores do festival. Entrevista pedagógica e informal.

RDB: Consegues definir o que é “rock progressivo” ?

Luís Loureiro: É muito difícil definir um género que… por definição é… indefinível.

Passo a (tentar) explicar: “rock progressivo” ou, na designação que  considero mais ajustada “música progressiva” é antes de mais uma  abordagem artística que pressupõe a inexistência de barreiras: não  existem formatos musicais pré-estabelecidos, coexistindo a canção pop com a sonata clássica, ou a mais elaborada estrutura sinfónica,  podendo a composição abranger a construção harmónica mais simples, o  contraponto a várias vozes ou a experimentação sónica pura baseada no  improviso.

Música progressiva é então o cruzamento de tudo isto, no fundo, uma  atitude artística de total abertura perante a própria arte, que  pretende renovar-se a si mesma. Será, portanto, um género evolutivo, de pesquisa, aventureiro, mas também capaz de rever o passado, produzindo novas sínteses a partir da influência de obras  predecessoras.

Qual a importância deste evento numa cidade como Gouveia?

O Gouveia Art Rock é um  evento que atrai muita gente vinda de fora, cujo poder de compra já  se situa numa faixa relativamente confortável, isso permite desde  logo uma movimentação económica interessante. O festival é  único a nível nacional, raro à escala mundial, logo, isso associa uma  imagem de originalidade e coragem na abertura a novas propostas  culturais a quem patrocina um evento deste tipo, isto é, no caso, a  autarquia, que desde o início não olhou para trás e decidiu  apoiar-nos na construção sustentada do evento.

Como é que uma vila do interior recebe um festival de “rock progressivo”?

Como “visitante” posso dizer que somos extremamente bem acolhidos.  Gouveia e a sua região são um local fantástico para aproveitar e gozar o tempo. Os ares da serra são retemperadores e, por isso, o ambiente que tem rodeado o Gouveia Art Rock tem sido absolutamente  excepcional. Muita gente aproveita o fim-de-semana para ir passear, apenas. Os restantes vão ocupar capacidade hoteleira, comer em  restaurantes, passear na serra, etc. E isso tem um impacto  fantástico, ampliando bastante o impacto do próprio festival.

O impacto do festival no estrangeiro é notório bem como o crescimento de ano para ano. Não existe a necessidade de encontrarem um espaço maior?

Já se pensou nisso. Mas penso que cada passo deve ter o seu tempo certo. Para já estamos muito bem nas excelentes condições de  acústica, logística e de comodidade do Teatro-Cine de Gouveia. Melhor local para um festival deste género é difícil de imaginar. Ali, tudo concorre para a descontracção e para a ausência de stress. O hotel onde os artistas ficam é ali ao lado, o restaurante também, enfim…  só temos mesmo que nos preocupar com a qualidade do evento em si, porque o resto está à partida facilitado.

Qual o objectivo da organização para esta edição?

Trazer mais gente a Gouveia, mostrar a mais pessoas a magia de um  festival que é único em todos os aspectos: na sua proposta cultural, no espírito de permanente interacção que o festival permite entre  todos os seus agentes, do público aos artistas, passando pela  organização. Trata-se de uma verdadeira comunhão, como se da reunião de uma tribo se tratasse. E todos o percebem.

Até agora, nunca perdemos público. Quem foi nos anos anteriores faz  tudo por não faltar nos seguintes. E este ano acredito que não será  excepção.

A edição dos DVD’s vai ser para continuar?

A edição dos DVDs do festival teve o seu tempo. Os DVDs serviram  também a estratégia de divulgação nacional e, especialmente, internacional do Gouveia Art Rock. Foram distribuídos em todo o  mundo, e hoje já deve haver poucos entusiastas de música progressiva  que não conheçam o que se faz aqui em Portugal.

Mas, como disse, tudo tem o seu tempo. Não podemos excluir a hipótese de no futuro próximo haver novidades relativas à captação áudio e vídeo do festival mas é cedo para dizer, concretamente, do que se  trata. Temos de conversar bem com as bandas que nos visitaram em 2005, e com as que nos vão visitar em 2006. A questão aqui é que tocar em Gouveia já é extremamente prestigiante no meio progressivo.

Portanto, a edição de material “live in Gouveia” começa a ser extremamente aliciante. Antes era o nome do festival que queriamos potenciar. Agora, já o nome do festival é uma “marca” que pode ser perfeitamente aproveitada para fazer evoluir a filosofia desta nossa faceta de captação dos momentos do festival, no que fomos pioneiros a nível mundial sendo agora “copiados” por vários festivais de progressivo.

Como vês o panorama nacional neste género?

Está já muito melhor agora do que quando o festival começou em 2003, em que só havia os Forgotten Suns a tocar ao vivo com alguma (pouca) regularidade.

Neste momento, temos já um conjunto, ainda que muito restrito, de algumas bandas/artistas que poderiamos ter a tocar no palco principal. Isso nunca teria acontecido em 2003!

Não tenho dúvidas de que este despontar de interesse pela produção de música progressiva em Portugal tem muito a ver com a existência anual do Gouveia Art Rock, onde já vários álbuns foram lançados, showcases, etc. O que só pode ser motivo de grande orgulho mas também uma razão para procurar alargar ainda mais este “movimento” a algo mais consistente, que nos dê de facto dores de cabeça ao elaborar o cartaz de cada nova edição. Gostaríamos de poder ter sempre um projecto nacional no festival. Apenas precisa de cumprir os cada vez mais apertados critérios de exigência qualitativa do festival. Este ano, depois da marcante presença do projecto de fusão Trape-Zape em 2005, teremos a estreia de um novo projecto nacional que resulta de uma longa maturação de quase uma década!

Os Beduínos a Gasóleo trazem consigo uma das vozes de referência da música portuguesa das últimas décadas, Janita Salomé. São estes os passos que consideramos essenciais para o desenvolvimento de um verdadeiro nicho de produção de música progressiva em Portugal: a capacidade de colaboração, a abertura e a atracção de novos protagonistas para esta linguagem musical única.

Aproveitem os ares da serra, a comida e a bebida e deixem-se levar por novas sonoridades e conceitos.

O bilhete para os dois dias custa 35 euros enquanto que para apenas um dia custa 25 e 20 euros (Sábado e Domingo respectivamente).



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