“Granta Portugal | 1”

“Granta Portugal | 1”

Granta começo!

Era difícil começar melhor. No seu primeiro número, dedicado a falar, imaginar, inventar e perceber o que é afinal essa coisa do “Eu”, a Granta portuguesa (ler mais aqui) oferece o melhor de vários mundos: textos de arquivo da Granta internacional de autores consagrados, um ensaio fotográfico de Daniel Blaufuks que nos convida à figuração, e um leque composto por muitos dos bons escritores que escrevem, pensam e sonham na língua de Pessoa. E, já que falamos em Pessoa – Fernando Pessoa para os mais distraídos -, há também neste número a publicação de cinco sonetos inéditos da sua autoria.

No editorial, o director Carlos Vaz Marques fala na descoberta da primeira pessoa do singular que fez através das leituras da Granta, justificando dessa forma a escolha do “Eu” como o elo de escrita agregador do número 1 da Granta Portugal, “o mais elementar dos pronomes pessoais, aquele a partir do qual tudo se constrói”.

Dulce Maria Cardoso radiografa o “eu” como o músculo-motor do corpo – o vizinho que vive ao lado do coração -, mas também da finitude da escrita, de livros que voltarão também eles ao pó; Valério Romão mostra-nos uma vida dupla no seio de uma família esquizofrénica, que prolongou o luto e viu a morte em perspectiva; Hélia Correia fala da recusa do envelhecimento – uma doença que até os pacatos ingleses parecem ter apanhado – e do mundo do papel como consoladoramente virtual; Ricardo Felner senta-nos à mesa do Restaurante Contigo e serve-nos um Mar Negro, um prato feito com choco que abriu as portas da fama a um chef moribundo; Afonso Cruz faz-nos apertar a mão a um homem sem “eu” – pois acredita ser possível tê-los todos ou nenhum – e que, pela música, tentará fazer ruir a União Soviética; Rui Cardoso Martins leva-nos a bordo de um cacilheiro para dissecar as vidas dos seus tripulantes, enquanto esperam a chegada da polícia marítima para recolher um corpo que descansa numa cama feita de água; Valter Hugo Mãe despe-se de preconceitos, confessa uma aversão a falar da sua poesia e aponta o poema como um receptáculo de mortes várias.

No plano internacional há um conto recuperado para tempos de austeridade (Saul Bellow), um encontro com a morte no Congo (Ryszard Kapuscinski), um guia de benefícios para sexagenários (Simon Gray) onde se fala de férias, cancro e embrulhos, o colapso de uma relação familiar pelos olhos de um rapaz que colecciona figuras de gente famosa que saem com pastilhas elásticas (Orhan Pamuk), o rescaldo de uma relação e a liberdade pessoal olhada como um quarto escuro pelos outros (Rachel Cusk). Virada a última página deste primeiro número só apetece dizer: Granta começo!

Subscrição da Granta



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