Granta Portugal 2 – Poder

Granta Portugal 2 – Poder

Querer é poder?

«Não me lembro de alguma vez alguém, lá em casa, ter comentado aquela máxima ou de ter sequer referido a existência do pequeno quadro. Aquilo não era mais do que um elemento adicional da paisagem doméstica, como os bibelôs sobre os naperons.» Com esta frase, retirada do editorial do segundo número da Granta, Carlos Vaz Marques (CVM) refere-se a um quadro que tinha na casa onde cresceu e onde se lia “Querer é poder”, e que se tornou, para ele, numa obsessão que implicava revirar frases simples do avesso em busca de uma chave que abrisse as portas à sua decifração.

Mais tarde, com a chegada de outras leituras, percebeu de onde vinha a frase que se havia transformado, noutra fase, em lugar-comum. “Se quiseres, podes”, avança o Evangelho Segundo São Mateus entre o sentimento de fé e o prenúncio de um livro de auto-ajuda. O Padre António Vieria, num dos seus desconcertantes sermões – e não o serão todos? -, traça uma linha ténue entre o querer e o poder: «O querer sem o poder é fraco, o poder sem o querer é ocioso, e deste modo divididos são nada. Pelo contrário o querer com o poder é eficaz, o poder com o querer é activo, e deste modo juntos, e unidos são tudo.»

Depois do número inaugural dedicado ao “Eu”, o segundo volume da Granta portuguesa é centrado na ideia de “Poder“, a partir de ângulos distintos, onde se inclui, também, o choque com o querer, como no ensaio fotográfico de João de Pina sobre o que aconteceu em algumas cidades brasileiras durante o ano de 2013.

Neste imenso parlamento literário, muitos são os decretos-lei propostos que merecem uma leitura atenta antes do seu envio para o Tribunal Constitucional: José Eduardo Agualusa faz, em “O Bom Déspota”, o retrato pertinente de uma ditadura política – antes ainda de a cimeira luso-angolana ter ficado em suspenso -, num país distribuído às fatias pela família de quem governa: «Não se deve dar às massas nem os meios, ou seja, a educação, nem o tempo, para que apurem e soltem a fantasia. O ideal é que as massas estejam inteiramente ocupadas em sobreviver»; «Cresci a beijar livros e pão», conta-nos Salman Rushdie em “Mas já nada é sagrado?”, introduzindo uma posição ateísta perante o sagrado – pelo menos sem o questionar. O autor propõe a literatura como a arte, entre todas, que melhor pode desafiar todo o tipo de absolutos, apontando a arte como o moderador entre os mundos material e espiritual; “Híma”, de Luísa Costa Gomes, é a história de uma embarcação que parece não conseguir ter poder para escapar a uma terrível maldição; “Várias versões de uma catástrofe”, de José Gardeazabal, revela o nascimento do poder de uma mulher desde a chegada do primeiro sangue, e que se entretém a ver, em loop, o video de um homem a afogar-se; em “Servindo o chá”, Hélia Correia retrata o desejo da vida eterna, o mundo das cirurgias plásticas e do corpo como espartilho, destruidor das relações humanas, chegando a uma conclusão: «A volúpia do mundo não se achava no sexo, mas no poder»; as regras da ditadura mudam de um dia para o outro, lê-se em “É perigoso ser feliz duas vezes” – de Raquel Ribeiro -, onde alguém repete um mantra para tentar esquecer o que se passa fora de si: «Repete: a minha cena é a literatura, os livros, a cultura, os filmes, a poesia. Não faço política. Sorri e repete»; “A revolução instantânea”, de James Fenton, acompanha um golpe de estado nas Filipinas, onde já não basta um político para servir de timoneiro da nação: «Já ninguém queria um político. As pessoas queriam heroísmo»; “O Verão depois da guerra” – Kazuo Ishiguro – traz-nos, a partir de um tufão e de um jardim desordenado, a clássica história do mestre e do discípulo, e de quando este último ultrapassa, ou pode também, salvar o primeiro. Ou, se quisermos – e ainda -, da reencarnação em vida; em “Do branco ao preto”, Martha Gellhorn – ou a sua personagem – vai contra toda a literatura de viagens e assume este conto como «uma história exemplar, que demosntra como viajar nos torna mais pobres de espírito»; «Velhos filmes a preto e branco que só existem durante a noite», é o ponto de partida para Ana Teresa Pereira escrever, em “Had a heart”, sobre o poder do cinema; Miguel Esteves Cardoso diverte-se a escrever sobre o mundo editorial em “O Senhor Veloso”, onde há quem tenha escrito um livro chamado “É a Tua Vez de Lavar a Louça”.

Temos ainda a ilustração do poder da amizade, transmitida pela correspondência trocada entre Jorge de Sena e Carlos Drummond de Andrade, e o encerrar, com chave de ouro esta visita aos corredores dos centros de decisão, com “Breves notas sobre o poder», de Gonçalo M. Tavares. Entre elas, o poder da culpa: «Precisamos de culpados e felizmente para isso existe o mundo. Nós somos a vítima; o mundo, o culpado. E parece sensata esta decisão, vinda de quem vem (de nós, é evidente.»

Poderíamos nós, leitores, viver sem a Granta? Tentar seria uma hipótese, mas certamente – e tristemente – não seria a mesma coisa.



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