Entrevista Gregorio Duvivier

Gregório Duvivier | Entrevista

"O que me faz criar, mais do que a indignação, porque a indignação às vezes ela é inócua, acho que é a dúvida"

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O humorista e poeta brasileiro Gregório Duvivier está a fazer uma tournée com o monólogo “Uma Noite na Lua” que de 18 a 22 de Maio estará em Lisboa no Teatro Tivoli BBVA e no dia 26 Maio no Coliseu do Porto. Percorrerá várias outras cidades do País até 5 de Junho. Estivemos à conversa com ele em Lisboa.

Como interpreta a situação política actual no Brasil?

Vejo como os ratos tomando conta do navio. Quem está hoje no poder é o pior do poder. O PMDB é um partido que nem sequer tem rótulo, nem sequer legitimidade democrática. Quem votou na Dilma votou apesar de Michel Temer. Nunca os eleitores da Dilma teriam votado num projecto tão neo-liberal, que cortasse no Ministério da Cultura e na Segurança Social. Isso nunca teria aval nas urnas.

Isso também se passa no mundo, acha que o mundo está-se a bipolarizar?

Sim, vemos o Trump nos Estados Unidos e o Bernie Sanders, vemos que talvez seja mais claro hoje. Mais claro do que nunca.

Como vê toda esta conjuntura sabendo que é roteirista, humorista, poeta, comediante, actor e cronista?

A democracia no Brasil é muito recente, assim como o Ministério da Cultura que foi criado em 1985. Agora temos esta tomada de poder sem que haja crime, sem que haja nada, um golpe branco e é sintomático que a primeira medida seja a de extinguir o Ministério da Cultura. Sem Cultura não há democracia e vice-versa. O que temos agora é a extinção desses dois valores que pensámos que estavam ganhos no Brasil. Julgávamos que o nosso voto não ia ser mais mandado ao lixo. Dois enganos.

o que me faz criar é a dúvida

Entrevistei Anna Mulayert a propósito do filme “A que horas ela volta?”. Falámos sobre a questão da educação no Brasil, que mais pessoas estão a chegar à Universidade. Acha que essa é uma questão fundamental para o Brasil?

Fundamental, que tinha caminhado muito, mesmo no tempo do Fernando Henrique Cardoso e com o PT tinha bolsas de estudo para famílias muito pobres. O homem que assumiu o Ministério da Educação, Mendonça e Filho, votou contra todos esses projectos.

Entrevista Gregorio Duvivier

Fotografia de Marisol González

É o problema estrutural no Brasil, do modo como foi estruturada a sociedade brasileira desde o início que está em causa nessa bipolarização?

Claro, no Brasil nunca se conseguiu fazer a distribuição de renda impunemente. É muito óbvio que o que está em causa é o desmantelamento das estruturas que foram montadas não só pelo PT como também pelo Fernando Henrique Cardoso, das instituições da educação pública, da saúde pública.

O que mais o preocupa no acto criativo?

O que me faz criar, mais do que a indignação, porque a indignação às vezes ela é inócua, acho que é a dúvida. O que movimenta o mundo? É uma interrogação tão boa para a poesia como para o humor. São coisas muito parecidas. São ambas formas de espanto em relação ao mundo. A boa poesia e o bom humor puxam o tapete das certezas, são o maior inimigo das certezas. Passamos o dia inteiro a ouvir ideias pré-concebidas, clichés, fica o círculo vicioso de ideias que vão piorando e à medida que o tempo passa vão envelhecendo, não se sabe mais porquê mas existe repetição. O humor vai contra essas ideias, o humor é necessariamente novo, fresco. Na Porta dos Fundos não temos nenhuma linha editorial a não ser a originalidade, nada de piada que já foi feita.

Existem temas tabu no humor?

Nós não fugimos do tabu, gostamos de explorar. Religião e sexo são tabu, mas nós não fugimos. O nosso único tabu é a “piada velha”. O Brasil tem uma tradição de anedotas velhas, sobre portugueses; isso é uma coisa dos nosso avós, nós somos contra piada velha. É humor geriátrico, dinossáurico.

Em que pensa quando está no palco?

Quando o actor não pensa é que dá certo. Passamos o dia inteiro a pensar. O palco permite só ser. Acho que é bonito quando o actor fica invisível. Como diz o actor Yoshi Oida, “o bom actor desaparece, só vê a personagem, só vê a estória”.

No Brasil existe uma elite muito agarrada aos privilégios e os governos caem

Só conseguimos sobreviver na arte e na vida com um pouco de loucura?

Acho a loucura fundamental, há que relativizar, por exemplo os índios não têm esquizofrenia. Não é que não exista mas eles são abençoados, talvez sejam pajés. Quem tem visões está mais alto na hierarquia da tribo.

Brasil e Felicidade são duas noções que podem ser a mesma?

Acho que o Brasil é um País com vocação para a felicidade. Mas, ao mesmo tempo é muito problemático. É um País sem passado. Estamos condenados a repetir o nosso passado quando não o estudamos; então o que está a acontecer agora é fruto disso: não tem Museu, não tem História.

Tivemos uma ditadura militar sangrenta. Falou-se muito pouco dessa ditadura. Muita gente relativiza isso.Vladimir Safattle, um filósofo brasileiro, diz que o Brasil é um País em que a ditadura não é chamada de ditadura, o racismo não é chamado de racismo, um golpe não é chamado de golpe. Tivemos a escravidão que é fundadora do País e que define até hoje as relações sociais. Não há um Museu do negro, da escravidão. Não se quer falar dessas coisas. E assim a História se repete. A História vai-se repetindo para cada vez pior. É a grande diferença entre Portugal e Brasil. Brasil é uma nação esclavagista e todas as relações pessoais são definidas por isso. O abismo social no Brasil está directamente ligado a isso. Metade da população era escrava e a outra metade era senhor. Nos Estados Unidos o processo de libertação dos escravos teve uma compensação, como uma bolsa família que era pouco mas dava para começar a vida. A maioria dos escravos no Brasil era mais “se vira aí…” sem saber ler ou escrever e depois preferiu voltar a ser escravo.

Em Portugal, houve reforma agrária, é um estado laico, não tem como no Brasil pastor deputado. Essa separação do Estado e da Igreja que é a Modernidade que veio com a Revolução Francesa não aconteceu no Brasil. No Brasil existe uma elite muito agarrada aos privilégios e os governos caem.

Entrevista Gregorio Duvivier

Fotografia de Marisol González

Porquê?

É uma elite muito conservadora. Houve muita gente revoltada com os direitos das empregadas domésticas. O poder do dinheiro, a plutocracia é o que está por detrás do poder agora. O povo atrapalha a plutocracia. A democracia é uma pedra no sapato.

Alguém disse que o Brasil tem coisas do futuro e do passado…

O Brasil é um País com um passado imenso pela frente, disse Millôr.

 

“Uma Noite na Lua” é a comédia que fala de um escritor sem um único título publicado que luta para, enfim, terminar uma peça sobre um homem solitário. A personagem intensa processa as suas ideias em cima de um palco e vive atormentado pela recordação de Berenice, a sua ex-mulher.

“Uma Noite na Lua” é o maior sucesso de público e crítica do autor e director teatral João Falcão.

DATAS:

13 de Maio | Guimarães – Cine Teatro São Mamede
14 de Maio  | Covilhã – Teatro Municipal
18 a 22 Maio | Lisboa – Teatro Tivolli BBVA | Preço: entre 18€ e 24€
24 de Maio | Matosinhos – Teatro Constantino Nery
25 de Maio  |Braga –Parque de Exposições
26 de Maio  | Porto – Coliseu Porto | Preço: entre 12€ e 20€
27 de Maio | Póvoa de Varzim – Cine Teatro Municipal de Ourém
28 de Maio | Ourém – Cineteatro Municipal
2 de Junho | Sintra – CC Olga Cadaval
3 de Junho | Oliveira de Azeméis – Cine Teatro Caracas
4 de Junho | Coimbra – TAGV
5 de Junho | Castelo Branco – Cine Teatro Avenida



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