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Grizzly Bear @ Coliseu, Lisboa

Cibelle, a One-Woman-Show, serviu dia 26 de Maio as honras à casa, numa entrada digna do prato principal: Os Grizzly Bear.

O-Show-dos-Quatro-Senhores-Urso-Pardo ceou ontem todas as expectativas do público, que encheu o Coliseu de Lisboa, e deixou algumas na mesa para aguçar a sua próxima vinda a Portugal, em Julho deste ano.

Para o concerto de rabo sentado e cabeça no ar, a plateia começou a tapar cadeiras pelas 21h00, aos primeiros acordes da brasileira Cibelle e da sua voz de embalar, mesmo daquele embalo com chucha e “estorinha da mamãe”, num cenário qual Woodstock, tal e qual uma tal de Jane: na Selva a tocar lianas.

«The Gun And The Knife» estreou a “dama” no palco/presépio, vestida a rigor naturista, para iniciar em modo balada fofinha a sua exibição encantada. Feliz e bem brasileira, mostrou ao longo de toda a actuação o gosto pela cidade e pelo nosso país, em conversa com o público nem todo ele ainda ciente dos seus poderes, ora por estar centrado numa espera impaciente, ora por estar à espera de ver a sala organizada.

Mas, se tivessem escutado melhor o palco, poderiam ainda ter desfrutado do apelo de «Escute bem», de uma sereia triste em «Sad Piano» ou de uma princesa hippie numa contorção a «It’s Not Easy Being Green». A mulher é um poço de tudo, dona de uma voz singular e projecta sons de duas patas, para entoar novas melodias de devaneio em cima de mais sons, com quatro patas.

Agarrada à guitarra e pezinhos a lançar loops do chão feito terra, Cibelle antecedeu com muito Bossa, passarinhos e agilidade no ventre, aqueles que viriam a continuar-lhe e encerrar o Coliseu em chave de ouro: Os Grizzly Bear. A apontar apenas que alguém lhes deveria ter sugerido juntarem-se a ela em palco… Seguramente teriam sido todos muito felizes, ali e naquele momento.

Experiências à parte, as portas do Coliseu começaram a desvendar a ocupação integral que iria acontecer em Grizzly Bear. Acomodado, o precavido público-que-compra-o-seu-bilhete-a-tempo-e-horas-não-vá-esgotar, começava a querer perceber se não teria valido a pena o concerto que aí vinha ser assistido de pé. Tinha dado jeito, sabemos nós à saída.

Mas nem precisava. O quarteto composto por Edward Droste e Daniel Rossen, ambos emprestam as vozes principais, guitarras e teclado, Chris Taylor no baixo e em alguns coros quando é preciso, e Christopher Bear na bateria e chamamentos vocais, formam desde 2004 a banda em ascensão colossal do momento. Provaram isso, no Coliseu.

Podiam ser uma mutação, adaptada ao presente, dos imortais Beatles, se falar de música não fosse hoje correr um risco: o da efemeridade. Já não há música intemporal agora. Há a que se ouve agora, a seu tempo. “Veckatimest” foi eleito um dos álbuns do ano passado, na sua categoria de folk rock (ou ao contrário, ou muito mais do que só numa categoria), um pouco por todo o lado social musical, que sabe o que é bom e que elege a preceito.

Mas, quando voltarmos a pensar nisso, lembramos «Southern Point» a dar início à exibição de quarta-feira nos Restauradores e que, se Grizzly Bear representam hoje uma incontornável e emergente beleza melódica, ainda sem obrigatoriedade de rótulos e inspecção catalogada, amanhã vêm outros fazer-nos perceber o que estes inspiraram, sem esquecer o que estes já conquistaram.

Com «Cheerleader» recorreram de seguida à magia da luz, bem usado trunfo durante todo o concerto, para começar a fazer cócegas nas costas das cadeiras. Plateia e camarotes davam início à sincronia com o palco, e já se abanavam membros do corpo, ritmados pela alternância ofuscante e/ou espacial das lâmpadas em cena, minuciosamente colocadas sob e sobre e ao lado dos quatro jovens “ursos”, aleatoriamente espalhadas pela imaginação de cada um, em forma de colar de estrelas por ali espalhado.

O primeiro álbum dos Grizzly Bear como “banda quarteto”, lançado em 2006, marcou presença logo depois com as faixas «Lullabye» e «Knife». Yellow House foi esse álbum, e já fora também considerado um dos melhores desse ano, pelo New York Times e a Pitchfork; Pudera, pensa o público grato e aliado às vozes eclesiásticas que vão viajando pela sala, a fazer ascender entusiasmos.

O som dos Grizzly Bear é profundo. Tem tanto de Beach House, que não faltaram mas fizeram falta, como de Beach Boys nas suas curvas mais sonhadoras, Radiohead mesmo ao lado sem pisar, TV on The Radio ou Blur numa noite de desgarrada, Arcade Fire ou quatro Nirvanas… Todos não seriam muitos, para explicar tudo o que os Grizzly Bear vieram acrescentar.

Reinventores do rock, são também simpáticos, gostam e falam de Portugal. Querem voltar. Quem não quer? Ou será que todos nos mentem? Devem querer, tratamo-los bem.

Por enquanto estão bem. E «Fine For Now» quis dizer isso, e fez sentir o mesmo. Droste e Rossen fazem tão bem em alternar a voz principal, que a complementaridade com que uma precede a outra, não deixa espaço a enjoos monocórdicos. Cai tudo bem e completam melhor, próximo da perfeição de uma nova stream Animal Collective, com o jogo palco-cor-luzes-plateia-palco-luzes-cor a assentar-lhes que nem um “era só mesmo isto que aqui faltava…”.

O Nuno, um rapaz português que os conduziu pela Europa quando pisaram o continente pela primeira vez, deve ter-se sentido, no mínimo, extasiado quando lhe dedicaram «Two Weeks» e ouviu o público gritar o seu nome, de rubro aquecido pelos acordes que chegavam de um dos singles mais esperados da noite.

Foi então rendido que o povo se começou a levantar, à dica de Droste, cheio de vontade retida no ângulo recto de um assento. “Vamos mas é mexer mais partes do corpo e fazer barulho, mesmo que não se coadune com o som galáctico deles”- Podiam ter dito.

«Colorado» agradeceu o “todos em pé” com rock dançante, e mais apogeus coristas, e mais jogos de luz, e mais simbioses de cor. Só «Deep Blue Sea» é que podia voltar a sentar os mais envergonhados, ainda não preparados para toda a surpresa tricky dos ursinhos.

Já nem interessa nada se é bom ou mau depois. Interessa que é óptimo agora, meio inexplicável, muito audível e sobejamente visível. Aos nossos ouvidos maravilhados, «Ready, Able» encaminhou a boa sequela, música também para os olhos.

Tocaram, cantaram e espalharam amor audiovisual em «I Live With You», «Foreground», «While You Wait For The Others» e, enquanto não esperávamos mais ninguém, só a vida eterna no Coliseu ao som do que já tínhamos, pressentíamos o desfecho a insinuar-se.

Ninguém vira costas mas, se bater o pé, descoordenado que esteja com o resultado (in)esperado de «Fix It», único tema flautado do primeiro álbum “Horn Of Plenty”, quando Grizzly Bear era ainda um projecto a solo de Droste, talvez o concerto possa esticar mais um pouco… Até sempre, por exemplo.

Depois de voltarem a pasmar, no plano mais experimental e empírico do início de carreira, são eles quem viram costas, mas só para fazerem depois a vontade final do encore. Certamente a vontade deles também não teria ficado por aqui. A nossa vontade teria continuado viagem, depois da versão acústica de «All We Ask». Não pediram nada, mas o público quis dar: apoio. Para os rapazes sentirem o mesmo que nós estávamos a sentir: agradecimento.

Grizzly Bear são mesmo um caso de ter de tudo um pouco, de muito em concreto. A poção mágica dos New-Nerd-Wild-Angel-Beat-Rocker que anda no ar a infectar muita gente, que é chamada de tudo ou qualquer coisa, ao fim do que uns já prometiam, à lembrança de outros que já foram, e a postos para o futuro dos que querem vir a ser… transforma estes tipos no coro eclesiástico do folk, e reinventa-lhes o caminho do rock.

Se a vida é uma passagem, a música passa por ela. E é feita de momentos assim.



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