“Habitante Irreal” | Paulo Scott

“Habitante Irreal” | Paulo Scott

Do que acontece sobra sempre algo para ocorrer de novo

Estamos no ano de 1989, na cidade brasileira de Porto Alegre. Paulo, que cresceu vinculado à ideia de uma sociedade de base trotskista, afasta-se do Partido dos Trabalhadores por achar que este tem desprezado o debate democrático, «reproduzindo as práticas estalinistas mais odiosas». O desencanto com a vida, porém, estende-se muito para lá da esfera política: no amor é incapaz de manter uma relação estável, enquanto o trabalho num escritório de advogados o oprime ao ponto de pensar em cometer os mais diversos actos de loucura.

O acaso vestido de temporal leva-o a cruzar-se com Maína, uma adolescente índia parada à beira da estrada, a quem decide dar boleia e, contra todas as regras da prudência e do bom-senso – Maína tem 14 anos – viver uma paixão. Porém, depois de um acidente com a polícia tudo mudará. Paulo vai para Londres trabalhar num restaurante, deixando «que tudo o que aprendeu se transforme numa grande ignorância», bebendo «até as coisas ficarem perigosas». Grávida, Maína volta a casa da mãe, tentando criar o filho Donato ao mesmo tempo que abraça os estudos e procura um futuro melhor para o seu pequeno, venha ele de que forma vier.

Donato, o filho comum de Paulo e Maína, será a personificação do abismo que se encontrava aberto entre os seus pais, incapazes de entrarem no mundo um do outro apesar do afecto. Mesmo crescendo como um índio de classe média e estudando num bom colégio internacional, Donato sentir-se-á sempre fora do seu elemento, habitante de um mundo que não o seu. «Habitante irreal» (Tinta da China, 2014), aliás, está cheio dessas personagens que vivem fora do seu lugar, como que avançando sofregamente através de um limbo existencial.

Com este livro de contestação e reflexão, que actua como crítica e auto-crítica à política e ao seu lado desumano, o brasileiro Paulo Scott trouxe para a ordem do dia um tema que o Brasil parece querer esquecer, talvez por lhe recordar a sua imensa falha enquanto país: os índios e a herança indígena.  O Prémio Machado de Assis 2012 ficou muito bem entregue.



Também poderás gostar


Pin It on Pinterest

Share This