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“Hannah e Martin” no Teatro Aberto

O efeito de distanciação na era da técnica.

Quando chegamos à Praça de Espanha, onde vamos assistir ao ensaio de imprensa de “Hannah e Martin”, a primeira coisa que se destaca é a imponência do actual espaço do Novo Grupo, olhando a uma centena de metros, altaneiro, o Casarão Cor de Rosa da Comuna Teatro Pesquisa. É uma imagem que inadvertidamente nos desperta para um momento da história mais recente do teatro português. Há vinte e sete anos, numa época de grande vitalidade do movimento de teatro independente em Portugal, João Lourenço e Irene Cruz, do Grupo 4, que trabalhava no lado oposto da Praça de Espanha, juntavam-se a Francisco Pestana e Melim Teixeira, saídos da Comuna – Teatro de Pesquisa,  e fundavam o Novo Grupo, que hoje quase todos nós conhecemos apenas por Teatro Aberto.

O novo Teatro Aberto, construído de raiz, inaugurado em 2002, já nada tem a ver com o Teatro Aberto que o Grupo 4 construiu nos primeiros anos da revolução, e onde em 1982 nascera o Novo Grupo. Para além dos espaços sociais, como o foyer e o restaurante Pano de Boca, tem duas salas de teatro: a Sala Vermelha (para cerca de 400 espectadores) e a Sala Azul (para cerca de 100 espectadores). É de deitar os olhos ao trajecto desta companhia que desde a sua criação (e já lá vão oitenta espectáculos), pretende “apresentar um teatro em que a realidade e o sonho, a história e a poesia se manifestam no prazer da reflexão sobre a situação do homem no mundo”.

Amor em tempos de guerra

“Hannah e Martin”, que marca a estreia de Kate Fodor na escrita teatral, nasceu de forma fortuita. Num almoço de amigos em Chelsea, Kate foi seduzida pela argumentação da sua amiga, a actriz Melissa Friedman, que tentava convencer um dramaturgo amigo a escrever a história da relação amorosa entre Hannah Arendt e Martin Heidegger. E foi ela – na altura uma jornalista de economia na Agência Reuters – que tomou como seu o desafio.  A peça estreou em Março de 2004, no Manhatan Ensemble Theatre, o papel de Hanna Arendt foi confiado a Melissa Friedman.

A peça relata o relacionamento amoroso entre Martin Heidegger e Hannah Arendt, que começou em 1925, na Universidade de Marburg, onde Heidegger ensinava. É uma relação acidentada, mas não apenas por ele ser casado, com filhos e ela sua aluna. Entre os dois iria também interpor-se uma das mais violentas manifestações de horror que a humanidade conheceu, o extermínio dos judeus na II Guerra Mundial. Encontravam-se em campos opostos: Martin chegou a ser reitor da Universidade de Freiburg e aderira ao Partido Nazi e Hannah, judia, é presa, fugindo primeiro para Paris, depois para os  EUA.  Só voltaram a encontrar-se já depois da guerra, em 1950, quando Hannah Arendt regressou à Alemanha e visita o antigo professor e amante. Depois deste encontro ela há-de bater-se pela reintegração de Heidegger na Universidade, de onde tinha sido banido por causa da sua ligação ao Partido Nazi e manter uma correspondência com ele até ao final da sua vida, em 1975.

Para além de ser o texto de estreia de Kate Fodor no teatro, poderá também ser a primeira incursão da literatura dramática num caso que tem suscitado um crescente interesse, desde que, em 1994, Elzbieta Ettinger publicou um livro sobre as relações entre os dois filósofos (que foi lançado agora entre nós pela Relógio d’ Água) que se baseava em grande parte na análise da correspondência trocada entre os dois.
A abordagem de Kate Fodor centra-se na reconstituição da relação entre os dois filósofos, dando também uma grande importância dramática à relação que os dois estabelecem com Karl Jaspers, libertando a teia narrativa da possível especulação dramática quer sobre as tensões, os conflitos e os universos mais íntimos de Hannah e Martin, quer sobre as convulsões que este romance poderia ter provocado tanto em Elfride (mulher de Heidegger) como em Gunther Stern, antigo aluno de Martin com quem Hannah entretanto se casara.

A esta linearidade dramática correspondeu o encenador com a criação de um dispositivo narrativo que promove de forma muito peculiar o efeito de distanciação através do recurso à tecnologia multimedia. De notar que João Lourenço é sem dúvida o mais «brechtiano» dos nossos  encenadores: as suas encenações do “O Círculo de Giz Caucasiano”, de “Baal” e de “Mãe Coragem e seus Filhos” – entre outras de textos de Bertolt Brecht que montou – têm lugar importante na história do teatro português dos últimos trinta anos.


Um complexo dispositivo narrativo

Quando entramos na sala verificamos que na boca de cena está instalada uma maqueta, iluminada por pequenos focos, retratando uma paisagem na floresta. Parece um pequeno teatrinho de marionetas. No centro da paisagem uma cabana. Viremos a descobrir depois, é a cabana que a mulher de Heidegger ofereceu ao marido para que ele pudesse trabalhar, e onde irão desenrolar-se os encontros amorosos de Martin e Hannah.

Surgem então dois assistentes que fazem mover a maqueta para um plano lateral da cena, enquanto um dos três painéis do palco se move destapando Alice, colaboradora de Hannah, dactilografando uma carta que esta lhe dita, na qual ela pede a reintegração de Heidegger na Universidade. A partir daí surgem dois operadores de câmara que adquirem uma verdadeira personalidade dramática no complexo narrativo montado pela encenação. Situados em cada um dos lados, dentro da cena, reproduzem a acção que é projectada em tempo real nos painéis. Como se estivéssemos num estúdio de televisão.

Há um constante tratamento visual do que está a acontecer em cena, misturando a captação de imagens no momento, com imagens previamente trabalhadas: uma conversa em cima do palco em que a mulher de Heidegger tenta convencer o marido de Hannah a juntar-se ao Partido nazi, mistura-se com imagens de uma floresta e, de repente, no mesmo plano temporal, a projecção promove a ilusão de que eles estão numa floresta. É um trabalho que introduz um dinamismo muito original no processo narrativo, mesmo que nem sempre tenha a mesma eficácia. Como, por exemplo, naquelas cenas em que, por os actores estarem mais próximos do público do que as suas imagens projectadas, a articulação das palavras na projecção surge desfasada do correspondente som que nos chega da acção em palco.

Há também a inserção de outros materiais multimedia como, logo no início, a projecção de um filme vídeo sobre o julgamento em Nuremberga, de Baldur Von Schirach, teórico que influenciou o modelo de educação dos jovens nazis. Trata-se de um filme em que as imagens originais do julgamento de Nuremberga surgem cruzadas com as que foram construídas para a peça, terminando com a interacção entre a representação do palco e a do filme. Há uma constante relação entre o dispositivo cenográfico e esta máquina narrativa que a encenação criou recorrendo a elementos multimédia, que flui nos dois sentidos: por exemplo, a certa altura as palavras projectadas de uma carta de Martin para Hannah, inundam a cena, cenografando-a. Ao efeito de distanciamento que podemos obter com esta captação da imagem em tempo real, junta-se o que resulta de estarmos a ver a mistura de imagens captadas no momento com outras previamente trabalhadas.

Este trabalho sobre a forma como contamos uma história, como a vemos, a desmontagem sucessiva das várias perspectivas de percepção, talvez sejam o traço distintivo deste Hannah e Martin. Espectáculo que, a pretexto de uma relação amorosa entre dois vultos da filosofia do século XX, traz até à Sala Vermelha do Teatro Aberto, até 28 de Fevereiro (4ª a Sábado 21h30 e Domingo às 16h),a evocação dos tempos mais sombrios da II Guerra Mundial .

Hannah e Martin
Teatro Aberto. Sala Vermelha. Até 28 de Fevereiro.
Versão:  João Lourenço | Vera San Payo de Lemos
Dramaturgia:  Vera San Payo de Lemos
Encenação e Realização Vídeo: João Lourenço
Cenário:  António Casimiro | João Lourenço
Figurinos: Maria Gonzaga
Supervisão Audiovisual: Aurélio Vasques
Luz: Melim Teixeira

Com Ana Padrão | Cátia Ribeiro | Cristovão Campos | Diogo Mesquita |Francisco Pestana | Irene Cruz | Luís Alberto | Maria Ana Bernauer | Rui Mendes



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