“Happy End”, Michael Haneke

“Happy End”, de Michael Haneke

O regresso em grande estilo do cineasta austríaco.

Nos tempos que correm, voltar a Michael Haneke carrega consigo uma espécie de descanso mental ao contrário, como se disséssemos com todas as letras que estamos prontos para a provocação quando o cérebro se encontra adormecido ou confortado. Em 2018, volta, para gáudio de muitos, o cineasta austríaco que sabe tão bem brincar com temas sérios e deixar o espectador sem saber muito bem se ficou ofendido com o que viu ou se, para o seu bem, tem de fazer a reposição de alguns valores ou ideias pré-concebidas.

“Happy End” retorna a muitos dos temas que são queridos ao mestre dos twists mentais e a ironia que tão bem o caracteriza começa logo no próprio título. Não se esperem, portanto, finais bem compostos e quanto à felicidade caberá a cada um de nós determiná-la através do seu próprio livro de referências pessoais, ficando só o aviso de que pode ser muito relativa.

 consegue enganar-nos como se fosse a primeira vez

Michael Haneke traz de volta também alguns dos actores a que já nos habituou nos seus filmes mas não é só isso que nos atrai e gera justas expectativas, é, sobretudo, o desejo de não sair da sala de cinema como se entrou, o que é quase certo com Haneke. Apesar de mais brando no que toca à violência física e psicológica, “Happy End” conta-nos a história aparentemente perfeita de uma riquíssima família que vive em Calais e que, aos poucos, se vais desmoronando ou vai deixando cair muitas das máscaras que o seu estilo de vida acarreta.

Agora o voyeurismo digitalizou-se e se antes a incómoda sensação de se estar a ser observado chegava através de VHS, agora essa observação cínica é transposta para o imediatismo dos smartphones e se isso apenas pode parecer representar um upgrade tecnológico representa acima de tudo uma enorme mudança em quem está por trás da câmara, de quem observa. Se o voyeurismo de Haneke é uma constante, em “Happy End” é ultrapassado mais um limite, se assim lhe quisermos chamar, e o observador inocente é uma adolescente de aparência angélica mas que revela ser muito mais do que isso.

A manipulação inerente ao facto de não ser possível atribuir a uma criança desejos e pensamentos adultos surge em “Happy End” como um desafio para o espectador e também como contraponto a uma outra personagem, bastante idosa, em oposição, a que são atribuídas características idióticas que desvalorizam praticamente todas as suas opiniões. É entre Eve (Fantine Harduin) e Georges (Jean-Louis Trintignant) que se estabelecerão os verdadeiros laços e são estas duas personagens quem mais verdadeiramente se conhecerá, num jogo que se desenrola num plano muito diferente do cinismo e da mentira da família com se de um pacto secreto se tratasse.

Num primeiro momento, a história surge vestida de banalidade e assistimos ao dia-a-dia principesco daquela família mas não é por acaso que aqui um acidente, ali um ligeiro descontrolo emocional, acolá uma pequena mentira vão irrompendo aos poucos e mostrando a verdadeira face de cada um dos intervenientes. Não é igualmente por acaso que a casa de família se encontre em Calais, cidade do Norte da França onde foi criado um enorme campo de refugiados para acolher o fluxo de migrantes e que acabou por receber o nome de Selva de Calais. Na realidade, estes mesmos migrantes fazem parte do filme de duas maneiras, uma literal, outra metafórica, se assim quisermos interpretar. Em pontos muitos específicos da narrativa, a crítica à política colonialista e neo-colonialista em contexto europeu e concretamente a francês é real e muito incisiva, insinuando-se através da família marroquina que serve a família francesa e a cuja matriarca o filho rebelde de Anne (Isabelle Hupert) chama de escrava marroquina ou através do grupo de migrantes que a mesma personagem, Pierre (Franz Rogowski), traz para a festa de noivado da mãe.

Naquele momento, a introdução de um grupo de homens que tradicionalmente é empurrado para as franjas da sociedade culmina numa reflexão maior em relação a quem exclui quem e dentro de cada um dos núcleos macro e micro da sociedade actual quem é na realidade o marginal. Esse fascinante foco e desfoco coloca sob perspectiva tanto a importância relativa que o dinheiro e a origem podem conferir a alguém como também o modo como dentro de cada um pode residir um sentimento de marginalidade, despersonalização e auto-exclusão que é alheio a toda a materialidade a que normalmente se associa o conforto e a normalização. Pierre representa, aliás, dentro daquela normalidade esperada o desarranjo que não se compreende nem se aceita por completo, a pedra no sapato que não faz sentido com um futuro tão risonho à sua espera e ainda assim não consegue ser feliz ou aceitar a polidez da sociedade da posse e da materialidade. Quando finalmente é domado pela força, artificialmente é convidado a sentar-se à mesa das conversações falsas, integrado apenas em nome dos laços cordialidade e cortesia mas não dos laços emocionais.

Em “Happy End” muitas das marcas de Haneke estão presentes novamente mas desta vez a perversidade maior é atribuída a uma personagem inesperada, Eve, que surge desde cedo a fazer experiências com anti-depressivos no seu animal de estimação e se essa experiência parece inocente, as seguintes tornar-se-ão muito diferentes à medida que os seus segredos são desvendados. Muitas das primeiras imagens captadas em directo para as redes sociais, farão um sentido completamente diferente depois de os conhecermos e seremos possivelmente levados a questionar para que lado estávamos a olhar nessa altura. Essa perspectiva, típica de Haneke, traz de volta o incómodo que representa ver Haneke, a ideia de que não estávamos atentos, de que fomos enganados, de que para a próxima vai ser diferente e as histórias inocentes já não nos vão parecer tão inócuas assim. Nada dessas precauções surtirão efeito, até porque “Happy End” consegue enganar-nos como se fosse a primeira vez, mostrando agora de forma um pouco diferente de, por exemplo, “Amor”, o tema da morte como escape ao aborrecimento da vida, o desejo de simplesmente não estar neste lugar e querer estar noutro que acontece ser o não existir no mesmo plano que aquelas pessoas que mentem e enganam.

A morte pode ser um fim feliz em si mesmo, um verdadeiro happy end à moda de Haneke, o que significa que é possível que esteja tudo a ser filmado para aparecer na caixa de correio de alguém ou, em versão mais moderna, em stream no Youtube ou no Facebook. No fim, estamos todos a ver em modo duplo (o filme dentro do filme), ansiosos pelo fim anunciado, ajudados, empurrados para o abismo, estamos a seguir passo a passo mas estamos a olhar pela lente de alguém, que perspectiva é esta? Olhamos com deleite apenas, pelo puro desejo de saber o que acontece depois, tão distraídos estamos que nem sabemos o que se passa ao lado, só queremos saber como acaba o filme e não nos apercebemos de que durante o tempo todo a curiosidade mórbida levou a melhor à realidade que não queremos ver.



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