Hard (I + II)

Violência + Catástrofe = Entretenimento?

O Teatro Taborda, em Lisboa, recebe até 22 de Outubro o projecto Hard (I + II) pela Mala Voadora numa co-produção com o CAPA/Devir e o Teatro da Garagem. Encenado por Jorge Andrade e interpretado por Anabela Almeida, Diogo Bento e John Romão, Hard (I + II) pretende levar até ao palco do teatro o mundo, umas vezes fictício outras real, com que os mass media entretêm as massas ávidas de espectáculo. Perversamente, esse entretenimento passa, não raras vezes, pela violência e pela catástrofe, palavras-chave deste projecto.

De que é composta a catástrofe e a violência hoje em dia? Como é que as artes plásticas, o cinema, a televisão, os jogos de vídeo, os jornais nos servem a violência e a catástrofe? Como é que o teatro pode levar todos esses ingredientes à cena? Como é que as imagens de violência e catástrofe crescem e deliciam a opinião pública? Foram estas algumas das questões com que a equipa da Mala Voadora se foi deparando ao longo de vários meses de trabalho de construção do projecto Hard (I + II).

Um trabalho que começou com a recolha de muito material, algum dele certamente vivenciado: nos filmes que se vêem, nas notícias que se lêem, nas exposições que se visitam… E sempre da curiosidade imensa que os temas da violência e da catástrofe encerram. Após a recolha de material, duas residências artísticas em Faro permitiram que a equipa pensasse o diamante em bruto que tinha em mão, os meios necessários e a forma de apresentação do que tinham em mente. Nessa altura, este projecto teve duas apresentações e agora é retomado no Teatro Taborda até ao final de Outubro.

Em Hard (I+II) o texto final não é o ponto de partida. A construção e a experimentação de processos determinam o resultado final. Este é mostrado ao público através de mecanismos cénicos distintos que se sucedem sem denunciarem um fio condutor lógico. Como se de uma sucessão de alertas e lições se tratasse.

Hard I aborda a violência com que todos os dias somos surpreendidos. A violência bélica que nos chega através dos meios de comunicação e a que emerge dos jogos de entretenimento, que se confundem com campos de guerra. Mas também a violência que tem origem no seio das famílias e que age de forma muito silenciosa, lenta e sobretudo dolorosa.

Com recurso ao vídeo, à narração e à música, os três actores servem ao público, sem aviso ou preparação, situações mais ou menos reconhecíveis. Como as notícias que dão conta dos inúmeros jogos de vídeo com que os soldados são treinados e entretidos em situações de guerra; ou os bonecos de cartão a duas dimensões que estão a substituir estes mesmo soldados na sua função de pais nos Estados Unidos da América. Recuando no tempo, somos chocados com o espectáculo macabro que Thomas Edison levou a cabo para provar a eficácia do seu sistema de corrente contínua. Perante os olhares da multidão electrocutou um elefante. Em apenas 10 segundos e silenciosamente o elefante estava morto, para tristeza geral da multidão para quem aquele momento foi curto e sem grande espectacularidade.

A catástrofe é o tema central em Hard II. Catástrofes, naturais ou não, que têm origem na  intervenção  directa, ou não, do homem sobre o meio que o rodeia. A sala que antes serviu de pista de velocidade ou palco de tortura de elefantes, é completamente transformada pelas inúmeras maquetas que contam histórias de catástrofes. Foi a partir delas que Miguel Rocha escreveu o texto que apoia Hard II. Foi a partir daqui que se contou a história de um planeta em sofrimento… Um sofrimento silencioso, mas espectacular, que deixa todos presos aos ecrãs da televisão, às notícias que descrevem “acidentes” implacáveis e aos quadros que retratam situações de desespero extremo.

E depois da escuridão total vem a luz! Será que é a esperança? A vida recomeça da água, mas a ameaça anda por perto… A catástrofe está eminente, a vida continua!

Pensem, observem-se, questionem-se, aprendam… parece dizer-nos a Mala Voadora. Olhem à vossa volta, vejam o que está a passar, também vocês são parte deste imenso universo de violência e catástrofe! Também vocês podem participar dele, pôr-lhe um fim ou divertirem-se com ele.



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