Heavy Trash @ Coimbra

Tão óbvio quanto a tosta mista.

Existem coisas que são tão naturais e óbvias que ninguém as interroga, nem tão-pouco as coloca em causa. Uma dessas coisas, por exemplo, é a tosta mista. Ninguém sabe quem foi a primeira pessoa a juntar no mesmo pedaço de pão uma fatia de queijo com outra de fiambre, mas aposto que foi um instinto tão espontâneo que ninguém o pôs em causa. O mesmo se passou quando foi tornado público que Jon Spencer e Matt Verta-Ray tinham formado uma nova banda: o anúncio de que o líder dos Blues Explosion se tinha juntado ao guitarrista dos Speedball Baby foi tão natural que ningém se admirou, nem tão-pouco perguntou porquê. Como no caso da tosta mista.

Muita gente pode ter achado estranha a presença dos Heavy Trash no alinhamento do Festival de Blues de Coimbra, mas não nos esqueçamos que o rock’n’roll é filho do blues, como já cantava Muddy Waters em «The Blues Had A Baby And They Named It Rock And Roll». Por isso, o convite a dois dos mais influentes e carismáticos nomes do rock contemporâneo não era de todo descabido.

O Teatro Académico Gil Vicente encheu para receber de novo Jon Spencer (que já havia passado por Coimbra numa caótica e mítica actuação, numa Queima das Fitas, ao lado da sua esposa, nos Boss Hog) e Matt Verta-Ray. Na plateia eram inúmeras as caras conhecidas, nomeadamente da carismática cena rock conimbricense: Toni Fortuna (dos D3Ö), Filipe Costa ou André Ferrão (dos Bunnyranch). Mas primeiro ainda havia a actuação de Kenny Brown, o bluesman que veio do Mississipi e que tentou fazer a ponte entre o blues e o rock.

Kenny Brown é um dos melhores exemplos do blues contemporâneo que hoje em dia prolifera, utilizando da melhor forma a eletricidade, tanto no country-blues, no tradicional delta blues ou mesmo no gospel (com uma interpretação do clássico «Don’t Let The Devil Ride»). Durante as três primeiras músicas, Kenny Brown enfrentou o público sozinho em palco, apenas com a guitarra como arma de defesa e a sua voz, que tentava a todo o custo ir buscar aquele feeling do blues, mas que soa a falso na voz de um branco; depois, subiu a palco o jovem guitarrista Jocco Rushing, que Little Freddy King (que havia tocado na primeira noite do festival) fez questão de conhecer e cumprimentar no final da actuação.

A solo ou em duo, Kenny Brown deu sempre conta do recado e notou-se quase sempre a influência de RL Burnside (de quem foi o braço direito até ao desaparecimento deste e que viria a homenagear mais tarde). No entanto, o ponto alto da sua actuação estava marcado para o encore, quando o baterista de Little Freddy King saltou da plateia para emprestar uma batida demoníaca ao blues eléctrico de Kenny Brown.

Mal o bluesman abandonou o palco, começou a notar-se a ansiedade na sala. E quando os Heavy Trash subiram a palco temeu-se um motim: automaticamente, o público saltou nas cadeiras como que impulsionado por uma mola e correu para a frente do palco. A banda entrou em força e tal como no seu álbum debutante, discorreram os temas de abertura de uma só vez (com excepção para «Yeah Baby»): «Dark Hair’d Rider» e «The Loveless».

Por momentos, podia-se fazer um fazer um um curioso exercício: ignorando a música que saía das colunas e analisando a imagem sobre o palco, observava-se um vocalista com a poupa bem alta e uma viola a tira-colo (que a contra-luz parecia Elvis Presley) e um guitarrista, um baterista e um contra-baixista de fato e gravata, que, automaticamente, nos fazia recuar para o final dos anos 50, para um daqueles concertos rockabilly que todos já quisemos ter assistido. Depois, voltávamos a pôr som naquela imagem e chegávamos à conclusão de que seria assim que soaria o rock’n’roll se este tivesse surgido no século XXI.

A banda parecia acompanhada em palco pelo espírito de Gene Vincent, Jerry Lee Lewis, Johnny Cash e Link Wray, tal era a visceridade com que pulvilhavam o seu garage-rockabilly(!). E depois de «Walking Bum», para quem ainda não entendia o porquê da presença dos Heavy Trash no festival, bastou ver Jon Spencer despir a pele de Charlie Feathers e, qual Donny Osmond, encarar o público com toda a tristeza do mundo na voz e, apenas acompanhado pelos coros e os lalalas da banda, cantar uma balada sobre uma noite solitária na estrada, naquele que foi o momento mais alto da noite.

Jon Spencer podia estar com um bigode pouco usual, mas os seus maneirismos e a forma como se movimentava em palco não enganava: aquele era o mesmo homem que lidera os explosivos Blues Explosion. Na guitarra, sempre na sua pose selecta, Matt Verta-Ray era um inimigo à letargia, sempre com os riffs certos na altura exacta. Em contraste, Kim Kix era um contrabaixista diabólico, que rodava o contrabaixo nas mãos como se fosse uma guitarra e Yebo marcava o ritmo na bateria com precisão milimétrica. Curiosa era a presença de Ulrik Petersen, o técnico de som que, por derás da mesa de mistura do outro lado da sala, tocava guitarra e órgão.

A noite parecia estar para durar quando a banda se despediu do público. Este exigiu o seu regresso; e os Heavy Trash não se furtaram ao pedido. Primeiro, apresentaram um tema novo que deverá constar no próximo álbum; depois, vieram «Under The Waves» e «Gatorade»; e, por fim, subiu a palco Kenny Brown. Primeiro, para interpretarem um dos seus originais e depois para prestarem tributo ao lendário RL Burnside, repescando uma das suas músicas. Era a despedida perfeita para um concerto inesquecível.

Alguém comparou certa vez Jon Spencer ao destrutivo Pete Towsend. Em entrevista recente a um periódico musical da nossa praça, Jon Spencer respondia que preferia ser associado a Link Wray. Agora percebe-se porquê.

Nota: Um especial agradecimento ao “pessoal” do Teatro Académico Gil Vicente. Sem a sua preciosa ajuda não tería tido oportunidade de escrever este texto.



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