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Helmet @ Hard Club | 6 de Março

O Hard Club foi novamente a casa de uma noite dedicada às sonoridades mais pesadas, tendo como principal argumento Helmet, um dos colossos da cena alternativa dos anos 90, encabeçada desde sempre pela figura do guitarrista/vocalista Page Hamilton.

Contudo, não deixo de pensar que um evento deste género merecia um público de maior dimensão. Ao som dos primeiros acordes de Fighting with Wire, a sala um encontrava-se praticamente vazia. Ao ver isto veio-me imediatamente à cabeça que se tudo isto se tivesse passado na sala dois, o cenário teria sido diferente e esta noite teria tido outro sabor. Mas no final destes dois concertos já nada mais importava.

Coube aos Fighting with Wire abrirem as hostilidades. Esta banda da Irlanda do Norte tem uma energia Post-Hardcore contagiante, mais que necessária para animar as escassas almas que se encontravam presentes à hora do início do concerto. Esta foi a primeira vez que os ouvi e saí do Hard Club honestamente surpreendido. Ao longo de um set felizmente longo para uma banda de abertura, o colectivo Irlandês distribuiu malhas com um pendor Post-Hardcore bastante forte, onde as referências sonoras a bandas como Rival Schools e At the Drive In estão sempre presentes. Entre músicas, os Fighting with Wire revelaram-se também hábeis conversadores, fazendo questão de revelar ao público algumas experiências assustadoras em Lisboa, onde estiveram no dia anterior. Após um concerto de cerca de 45 minutos e muita energia, os Fighting Wire despedem-se do Hard Club deixando a sua marca  em palcos Portugueses.

Após um excelente aquecimento, estava na hora de os Helmet entrarem em cena. Por essa altura, a sala encontrava-se muito mais composta, havendo ainda assim bastantes espaços abertos. Como disse atrás, isto viria a ser a única possível falha numa noite de outra forma brilhante pois o público, apesar de bastante comprometido e rendido ao festival de headbanging que Helmet sempre proporcionou, manteve-se discreto no que conta a movimentações mais agressivas, algo que, para mim, faz sempre falta; ainda para mais quando estamos diante de uma sessão de canções tão explosivas. Mas indo directamente ao assunto:

Page Hamilton entra em cena seguido de uma série de músicos novos que o passaram a acompanhar, na sua maioria a partir de 2006, tendo a difícil tarefa de substituir instrumentalistas tão ilustres como George Stanier, primeiro baterista de Helmet e responsável por uma parte fundamental da receita musical deste conjunto desde os seus primórdios. Mal Hamilton faz soar os primeiros acordes do aclamado álbum “Meantime”, apresentado na íntegra ao longo desta digressão, a reacção imediata do público foi de uma certa apoteose contida. Ao longo de todo o concerto não parei de ver cabeças a abanar freneticamente à medida que o contagiante groove de Helmet atingia com toda a força um Hard Club totalmente rendido a esta fórmula. Aliás, não demorei muito a aperceber-me de uma coisa que só é possível sentir passando pela experiência sensorial de um bom concerto. Os Helmet cimentaram um modelo musical bastante simples, baseado em guitarras cheias de distorção com riffs altamente rítmicos e pesados. Seria de pensar que um modelo destes se desgastaria com o tempo, mas um concerto deste calibre provou-me exactamente o contrário.

À medida que o “Meantime” desfilava, malha atrás de malha e apenas pontuado por breves momentos de amena conversa, com Page Hamilton a falar dos dias de ressaca que estava a passar em Portugal (querendo que o Porto fosse o cenário de mais um evento provocador disso mesmo), vi que o público, apesar de algo esfriado, mantinha um espírito comum. Uma vontade gigantesca de curtir ao som daquela banda que, para a grande maioria, com uma faixa etária acima dos 25, era aquela banda de juventude que os fazia vibrar. Esta transmissão de adrenalina não se cingiu ao “Meantime”, havendo ainda tempo para dar um salto a outros trabalhos de Helmet como o “Strap it On” e “Betty”, notando-se que a maioria dos presentes tinha na ponta da língua muitos destes clássicos. A cereja no topo do bolo, acabou por acontecer quando, já com o concerto a dar as últimas, o sempre simpático Page Hamilton deu uma chance ao público de, em jeito de discos pedidos, escolher os próximos temas. Aliás, foi aqui que me apercebi, que aquilo que me tinha feito alguma impressão no início, ou seja, o público algo reduzido, tinha sido o que tinha tornado este concerto especial. Parece que isto transformou um concerto de Rock numa experiência mais intimista, onde a monumentalidade foi substituída por um ambiente algo fraterno. Com o fim do concerto, terá sido esse mesmo ambiente fraterno que fez com que a banda, numa humildade fora de série, estivesse junto do público a dar autógrafos e a tirar fotos, parecendo francamente contente por estar ali.

Tudo isto fez com que esta noite não fosse apenas mais uma noite de Rock no Hard Club, mas antes uma experiência sonora intimista que revela que, quando postos à prova, os anos 90 permanecem bem vivos!

Artigo por Carlos Jorge. Fotografia por David Jorge. Galeria fotográfica aqui.



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