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Hercules and Love Affair @ Lux 18.02.2011

A discoteca viaja no tempo.

É um dado adquirido que os homossexuais, os negros e os hispânicos sempre souberam divertir-se mais do que os rockistas brancos e machões que nunca conseguiram desembaraçar-se da alça da guitarra e queimavam discos de Disco nos grandes estádios, para exorcizar alguns fantasmas. Das cinzas do Disco — que era o cúmulo do Funk e da Soul — fez-se o House, casa para muitas danças e muitas drogas e muito sexo.

Sou demasiado novo (e estava demasiado em Portugal) para ter posto os pés nas discotecas de Chicago e nas de Detroit, Nova Iorque e Miami quando o House era a música do momento, em meados dos anos 80. Continuava a ser demasiado novo (e continuava a estar demasiado em Portugal), quando a Inglaterra importou o House e fez grandes festas em que se tomava muito ectasy e todos dançavam sorridentes — as raves. Até os músicos do Rock começaram a abanar a anca: os Primal Scream, os Happy Mondays e, diz-se, até Kevin Shields dos My Bloody Valentine, que nunca mais foi o mesmo — «Loveless» deve mais a essa música do que se pensa. No início dos anos 90, estava em idade certa para levar com a Eurodance dos 2 Unlimited e dos Snap!, descendentes chungas do House e trepadores dos tops da altura. Diga-se que a detestava a bom detestar (o que influenciou, durante alguns anos, a minha opinião sobre a música de dança), sentimento que a doçura da nostalgia muito adoçou.

Felizmente, não estou ainda demasiado velho para apreciar o espectáculo de revivalismo House que os Hercules and Love Affair encenaram na passada sexta-feira na discoteca Lux, que, se não mudou de lugar, mudou de época. Num piscar de olhos, estávamos em finais dos anos 80, a ouvir música de pura diversão, de pura dança. Lá atrás, atrás das máquinas, os produtores debitavam as batidas para as três cantoras (valerá a pena discutir o sexo de cada uma delas?, a androginia faz parte do jogo) cá à frente largarem os seus vozeirões, vestidas com a devida extravagância: turbantes e bonés de cabedal, pijamas coloridas, t-shirts com letras gordíssimas. Sob apropriadas luzes de carrinhos-de-choque, os corpos na plateia vibravam, tocavam-se, suavam. A festa instalava-se.

Ao segundo álbum, os Hercules and Love Affair mudaram um bocadinho. Se no primeiro e homónimo álbum, a voz de Antony Hegarty e o selo da DFA obscureciam os elementos House que Andy Butler, mentor do projecto, dava à sua música («You Belong» é um bom exemplo), «Blue Songs» é o descaramento total. Veja-se o vídeo para o primeiro single, nada inocentemente intitulado «My House».

Se alguma coisa se perde de disco para disco, ao vivo, essa conversa não faz sentido. As novas canções — «My House», «Step Up» (mesmo sem a voz de Kele Okereke), «Visitor» — não dão saudades do que era. E até «Blind», a canção mais conhecida dos Hercules, sofre uma operação plástica que lhe retira uma certa frieza e acrescenta muitos passos de dança. As três vozes — da rapariguinha Kim Ann Foxman, do rapagão Shaun Wright e da diva Aerea Negrot — reverberam até ao céu, jogam entre si, criando uma estereofonia que faz perder o equilíbrio e cuja leveza é o contraste perfeito à dureza das batidas.

Palavra final para Aerea Negrot — cuja mão direita engessada não evitou o esvoaçar do seu vaporoso vestido azul no palco. Na voz dela me perdi e nela me foi devolvido um passado dançarino que nunca tive. Era assim que imaginava as discotecas e as raves de antanho, foi um privilégio participar nesta recriação. Viva a festa! Viva o revivalismo!



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