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Hipnótica

Largaram o sintetizador e pegaram na guitarra, mas no fundo nada mudou.

Os Hipnótica são, a par com os Pop Dell’arte e os Mão Morta, uma das maiores bandas da música experimental portuguesa. De tons negros e densidade constante, a banda sempre se manteve presa (felizmente) a um espírito aventureiro e experimental, lançando ao longo de mais de dez anos discos que sempre estiveram no mais puro vanguardismo da música nacional. Sempre iguais a si mesmos, sempre a experimentar, agora os Hipnótica decidiram experimentar fazer algo menos… experimental. “Há uma diferença grande de sonoridade, comparando este álbum com os anteriores”, explica João Branco Kyron, vocalista, sentado ao lado de Bernard Sushi, guitarrista. Falei com os dois membros da banda na Aula Magna, aproximadamente uma hora antes de abrirem para o concerto dos Broken Social Scene. “Quando começámos a banda”, continua João, “estávamos a explorar estilos mais à margem – drum’n’bass, trip-pop etc – e a explorar a fusão de elementos electrónicos com elementos mais eléctricos. E ao longo do percurso fomos mudando, como pessoas, os nossos gostos, a própria formação da banda foi mudando, mudança essa que foi essencial, e agora decidimos fazer um disco com outro formato; um formato mais pop, com estruturas mais simples em que a voz é o elemento predominante”.

Claro que este “Twelve-Wired Bird of Paradise” pode ser um disco mais convencional, mas isso em nada significa que os Hipnótica tenham deixado de ser aquilo que sempre foram: uma banda experimental e aventureira. Afinal de contas, um álbum mais convencional para esta banda é, por si só, uma experiência em si. “As experiências podem levar para vários lados. Nós gostamos de ouvir música, e música muito abrangente. E desta vez, em vez de fazermos um som com arranjos mais complexos, a experiência foi “E se fizéssemos canções? E se fizéssemos um álbum mais simples? E se alterássemos os instrumentos que costumamos utilizar?”. Acaba por ser experimental, mas o resultado não o é. O que nos levou a este disco foi uma experiência”, continua o vocalista.

Ao longo dos seus álbuns, a banda sempre experimentou de álbum para álbum, mas nunca se atreveram a fazer algo assim. A surpresa é, portanto, não só a forma como agora mudaram de sonoridade, mas também a forma como essa mudança funcionou tão bem. Claro que, com tamanha carreira, experiências foi algo que nunca faltou. Cada álbum foi uma experiência em si, e tendo a banda um ritmo de trabalho tão constante, estes mais de dez anos foram uma experiência constante. “Acho que este ritmo de trabalho passa pela paixão pela música e pelo método. Normalmente uma banda tem picos, ou seja, alturas em que gravam mais discos, e depois decidem relaxar um bocado. Nós ao longo do tempo conseguimos manter um método que é, basicamente, o de quando estamos a compôr para um álbum, estamos a compôr, e quando o álbum está pronto começamos logo a pensar noutras coisas; ou outro álbum, ou bandas-sonoras para filmes…”, continua João. “Aliás, houve uma altura em que deixámos os álbuns um bocado de parte”, começa Bernard, “e dedicámo-nos a um concerto só com imagens, por exemplo. Os álbuns são só um lado, e dentro desse lado mais experimental da música, de que falas, gostamos sempre de experimentar coisas que não fizemos”. A banda não pára, e o maior intervalo que estiveram sem lançar um álbum foi o que precedeu agora este mais recente trabalho, onde estiveram cerca de três anos sem lançar um novo trabalho.

Mas, ao longo desses três anos, não estiveram parados. “A ideia deste disco nasceu de uma série de concertos que demos para promover o disco anterior. Essa fase fez-nos querer explorar mais este tipo de som, mais pop e mais simples, ligado a um lado mais libertário da música. Os concertos influenciam os álbuns tal como os álbuns influenciam os concertos, tal como as músicas que nós ouvimos influenciam as músicas que vamos fazer; isso é constante. Não me lembro de alguma vez termos dito “Vá, agora vamos tirar férias durante três meses”. Acho que nunca aconteceu”, continua Bernard.

Esse lado cinemático da banda, que explora a ligação entre imagem e som, que se manifestou já em concertos puramente experimentais em que fizeram música acompanhando imagens que eram projectadas, ou de forma mais convencional através da criação da banda-sonoras para filmes, é algo que váo continuar a explorar; aliás, esse lado da banda, de pura exploração audiovisual, é inegável aos Hipnótica. “As últimas experiências correram tão bem que estamos a pensar em voltar a um projecto desses, quando for a altura certa. Agora estamos muito concentrados neste disco, mas já pensámos nessa hipótese”, diz Bernard, enquanto João acena com um sorriso. “Sim, até porque”, começa o vocalista, “é como eu disse: nós ouvimos muita música. Temos de dar vazão a alguns lados; a um lado mais denso, a um lado mais negro, a um lado mais pop e uma vez que conseguimos ter essa versitibilidade de gosto e de execução, é quase como se tivéssemos duas bandas numa. Uma, digamos, mais conceptual, e nesse aspecto o trabalho que mais resultou foi, a meu ver, a banda-sonora que fizemos para um filme mudo do Jean Epstein; e depois além disso, podemos dar-nos ao luxo de fazer um álbum assim, mais simples, directo e luminoso, sem perder a essência ou a identidade da banda”.

O álbum marca também a terceira colaboração da banda com Wolfgang Schloegl, grande nome da electrónica que aqui foi, mais uma vez, fulcral. “Eu e o Wolfgang ficámos muito amigos, e estamos sempre em contacto” diz João. “Vamos enviando música um ao outro e vamos enviando-lhe maquetes do material que vamos fazendo. Quando ele viu o caminho que queríamos seguir, um caminho mais de folk e de sons mais acústicos, ele deparou-se com uma decisão: ou explorava isto, ou limitava. Ou fazíamos um disco em conjunto com um som folk mais assumido – com violas acústicas, vozes e etc. – ou damos aqueles estilhaços de electrónica que dão mais contemporaneidade ao som, e fomos por essa segunda via. Acabámos por conseguir por ter um som único porque não resgata algumas formas mais clássicas que se vêm agora nalgumas bandas, mas explora esse lado mais folk, e por outro lado tem alguns elementos à superfície que continuamos a usar e que são um bocado a nossa imagem de marca”.

Além de tudo isto, os Hipnótica estão ainda atrabalhar num documentário sobre a banda, já anunciado há meses. “O documentário está em parte gravado. Ou seja, fomos para uma aldeia, no meio da Serra do Caldeirão, e gravámos algumas músicas tocadas num ambiente mais campestre, ao vivo e tudo em directo. Mas depois nós e o João Pedro Moreira, que está a trabalhar connosco nisso, deixou de ter tempo. Agora falta complementar com algumas intervenções da banda ou talvez guião que una todas as pontas e que retrate esta mudança de som e esta decisão de ir para um som mais luminoso”, explica o vocalista.

Mudança essa de som que, para João, foi perfeitamente óbvia e compreensível por parte de quem segue a banda há mais tempo. “Acho que este álbum pode chegar a mais gente, sem dúvida, mas acho que as pessoas que seguem a banda há mais tempo percebem o porquê desta mudança. Estávamos a chegar a um nível de complexidade por onde era complicado prosseguir e uma banda tem de perceber quando está a ir por um caminho e tem de prosseguir pelo caminho ao lado”.

Os Hipnótica têm já uma longa carreira (afinal de contas, a banda está oficialmente formada desde 1994… 16 anos, portanto).  Carreira sem arrependimentos. “Arrependimentos não temos”, explica João. “Acho que temos fases mais positivas e  fases mais negativas, mas isso tem a ver com a própria vida pessoal de casa membro da banda, que acaba por se reflectir no som que fazemos. E claro, com a própria criatividade da banda”. Afinal, e tal como diz Bernad, “Antes do New Communities for Better Days (álbum de 2007, que precede este), tivemos uma fase em que estivemos imenso tempo a procurar o que queríamos fazer porque basicamente não estávamos seguros nem tínhamos a certeza em relação ao caminho que queríamos seguir. Tocámos, tocámos e tocámos e não nos sentíamos bem com aquilo que estávamos a fazer. Isso foi uma fase mais angustiante, mas ela própria foi boa porque conseguimos perceber aquilo que não queríamos fazer. E mesmo essas fazes de crise acabam por se compôr, até porque todos nós somos amigos dentro e fora da banda, o que é essencial; não há conflictos de egos, respeitamo-nos todos imenso, e isso é essencial para manter uma banda unida e para a manter também criativamente desperta.”

Agora, começa a digressão, e depois… logo se verá. “Estamos ansiosos por fazer uma tour, já fizemos alguns que correram bastante bem. Acho que é um álbum que funciona bem em espaços mais fechados mas também em festivais e em espaços mais abertos, porque é um álbum muito versátil. Construímos arranjos que permitem criar um ambiente de celebração e de festa. Ainda não pensámos no que vem a seguir porque estamos tão ansiosos e tão contentes por poder levar o álbum à estrada”, diz João com um sorriso.

Este novo álbum denota uma óbvia mudança de som no estilo da banda. Tudo está mais alegre, mais simples, mais directo. Mas tudo está, também, igual àquilo a que nos habituaram; dentro do folk, folk mais experimental que este é difícil, e as grandes marcas sonoras a que sempre associámos o seu som estão lá. A decisão foi sábia, e facilmente compreensível (e abraçada) tanto pelos antigos como pelos novos admiradores que irão, sem dúvida, ganhar. Uma hora depois da entrevista, perante uma Aula Magna quase esgotada, os Hipnótica fizeram uma mini-festa, numa primeira parte que correu muito, muito bem. Se antes imaginar as palavras “festa” e “Hipnótica” na mesma frase parecia algo impossível, agora isso mudou. A banda mostrou toda sua versatibilidade, mantento num novo registo e num novo estilo a essência e a qualidade a que sempre nos habituou. Se antes já eram grandes, agora ainda maiores serão. Parece que, façam o que fizerem, a base sonora estará sempre lá; e, felizmente, o triunfo também.

Fotografia de Graziela Costa



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