Hipnótica

Depois da experimentação, a reconciliação. Não percam a entrevista

No editorial de Janeiro, aqui na Rua de Baixo, foi escrito que, um dos grandes problemas da música portuguesa no que diz respeito à exportação e afirmação além fronteiras não era a qualidade dos músicos mas sim a coragem, ou falta dela, das editoras. Os Hipnótica são um exemplo de uma banda que possivelmente irá fazer grande sucesso no estrangeiro.

Depois de um ano de introspecção e experimentação, que culminou na gravação de um EP em apenas uma noite, os Hipnótica regressam neste início de 2004 com “Reconciliation”, um álbum que contou com a produção muito especial de Wolfgang Schloegl, dos Sofa Surfers. Através de sonoridades electrónicas q.b, vocalizações perfeitas e uma interacção fenomenal com elementos mais “jazzisticos” (através de várias colaborações), este novo álbum dos Hipnótica funciona na perfeição como um todo, sem singles assumidos, voltando-se de novo para ambientes mais pop.

Este novo álbum foi “pré-lançado” através do jornal Blitz em Fevereiro e serviu de mote para uma pequena entrevista à banda que serviu de balanço de 10 anos de carreira.

RDB: Os Hipnótica não são “novatos” nestas andanças. Podem resumir o vosso percurso até este novo álbum?

HIPNÓTICA: A banda iniciou actividade em 1994, mas só em 1997 conseguiu a formação e sonoridade que pretendíamos desde o início. Nesse mesmo ano participámos em algumas compilações e, em 1998, editámos o 1º EP – “Hipnótica”. A partir daí iniciámos um longo período de concertos onde passámos por todos os grandes festivais do país e em 1999 editámos o 1º álbum intitulado “Enter”. Em 2001 surgiu o 2º álbum “Decode” e em 2002 o EP “A circle so blue” gravado numa única noite de improviso.

RDB: O passado ano de tournée e experimentação foi importante? Este é o ponto de viragem na vossa carreira?

HIPNÓTICA: É mais um ponto de viragem, não somos uma banda que se acomode no conforto de certas fórmulas e essa procura insaciável é o motivo pelo qual por vezes a nossa sonoridade ganhe novos rumos. O ano passado em que pesquisámos e improvisámos muito foi fundamental para a concretização deste novo álbum.

RDB: Acham que o mercado está mais “aberto” às vossas sonoridades do que estava à uns anos atrás?

HIPNÓTICA: O nosso 1º álbum teve críticas muito positivas por parte da imprensa, inclusivamente o “Público” considerou-o o melhor álbum nacional desse ano. Era um disco até certo ponto acessível. É óbvio que hoje em dia há mais maturidade a todos os níveis. Temos crescido todos juntos, bandas, produtoras, editoras e o mercado é que continua algo passivo, não porque não haja interesse, mas talvez pelos preços e por uma certa situação de impasse que se vive a todos os níveis sociais. As pessoas não compram muitos discos e não têm acesso pelos media a muitas sonoridades fora do eixo cheesy-popcorn-sound.

RDB:O que significa para os Hipnótica este novo álbum “Reconciliation”?

HIPNÓTICA: É o reflexo de um período muito importante da nossa carreira, de uma altura que nos conseguimos ver por dentro e aprender com isso. Conhecemos pessoas fantásticas que trabalharam connosco, conseguimos em termos criativos elaborar músicas que exprimiam uma grande afinidade entre os instrumentos e entre os membros da banda. Daí vieram as letras e trouxeram o complemento de um universo que tinha muito de “regresso a casa”.

RDB: Como foi trabalhar com Wolfgang Schloegl?

HIPNÓTICA: Foi uma experiência que transcendeu largamente a relação produtor-banda. A afinidade em termos “estéticos” e a forma suave (mas de muito trabalho) com que a gravação e as misturas decorreram, foi decisivo para o resultado final.

RDB: Como é a realidade Austríaca?

HIPNÓTICA: A realidade em Viena é de grande ebulição em termos criativos e de troca de ideias entre os produtores, Djs e músicos. Fazem-se pré-audições conjuntas de novos trabalhos, há cooperativas de material de gravação, em que cada um compra um equipamento que depois é partilhado pelos outros sempre que necessário. Estivemos no DubClub que é um local mítico onde tudo começou, assistimos a concertos, mostrámos a nossa música a outros músicos, discutimos os resultados, os aspectos positivos e os negativos, bebemos copos, mostrámos música portuguesa …

RDB: Este é um álbum com participações bastante especiais. Destacam alguma?

HIPNÓTICA: Não podemos destacar nenhuma pois todas tiveram um papel fundamental no álbum. O Abdul e o Eduardo acabaram por ficar mais próximos de nós e vão para a estrada connosco, mas tenho a certeza de que, se os outros não tivessem muitos compromissos, os seus próprios projectos também estariam connosco na estrada. Achamos muito saudável trazer outras fontes de inspiração e outras formas de ver a música para o seio da banda, faz-nos mais fortes, mais simples e mais conscientes de que a força vem da partilha de espaço e não de protagonismos.

RDB: A ideia que eu tenho dos Hipnótica, e que muitos concerteza têm, é de uma banda mais “elitista” e “underground” e menos comercial. Com a edição deste álbum pelo Blitz procuram mais público? Não temem perder um pouco da vossa identidade?

HIPNÓTICA: Bem, não considero que sejamos elitistas ou underground por definição ou por opção. É óbvio que a nossa música e nossa forma de estar na música não é propriamente “mainstream” ou “comercial”, mas isso não quer dizer que tenhamos a pretensão de fazer música para “iluminados”, pelo contrário, os iluminados irritam-nos um pouco e não somos assim como pessoas. Por outro lado, a nossa sonoridade e o nosso percurso não se alteram pelo facto do disco ter um pré-lançamento no Blitz. Não foi um álbum criado a pensar nesse tipo de estratégias, logo não poderíamos ter qualquer tipo de receio de perca de identidade. Acho que é uma iniciativa bastante válida e que pode ser uma alternativa para o marasmo do mercado em que bandas investem meses e meses de trabalho e esforço para depois vender 500/1000 discos, muitas vezes independentemente da sua qualidade ou do número de cópias que venderiam com outro cenário de mercado (discos mais baratos, melhor situação económica, mais hábito de consumo de música, maior acesso à produção musical, etc).

RDB: Qual a vossa opinião sincera sobre editar discos com o Blitz? Não acham que se perde um pouco o conceito de álbum como objecto de culto e não se vulgariza um pouco um objecto de arte, estando assim exposto em todas as papelarias? Não acham que é uma forma de impor ao consumidor o álbum ao invés de ser o consumidor a procurá-lo?

HIPNÓTICA: O “Gato Preto Gato Branco” do Kusturica perdeu o seu valor artístico ao ser vendido com o “Público”? Os livros do Dostoiévski passam a ser vulgares? Por um lado passamos a vida a queixarmo-nos de uma certa imaturidade cultural no nosso país e por outro lado não fazemos nada para derrubar esse muro que há entre os frequentadores da FNAC e as pessoas que vão diariamente às bancas. Eu também vejo os discos como objecto de culto, acho que o nosso álbum e booklet  em termos de design reflecte mesmo isso, mas isso não invalida estas iniciativas, que são tentativas de inverter uma situação que já se arrasta há demasiado tempo. Mau é passividade e não as tentativas de mudança!

RDB: E agora a tournée. Certo?

HIPNÓTICA: Vamos iniciar a Reconciliation tour 2004. Para já fazemos duas datas em Lisboa e Porto e no fim de Março arrancamos para uma série de datas de norte a sul, principalmente em auditórios e clubes .



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