Houdini Blues

Regressam com “F de Falso”. O disco e a banda na RDB.

Dez anos após a sua formação, os eborenses Houdini Blues regressam às edições com aquele que é, provavelmente, o disco mais bem conseguido do projecto. Após um período de carreira um pouco conturbado e de uma “Extravanganza” um pouco tímida, “F de Falso”, coloca de uma vez por todas a banda no panorama musical alternativo nacional. A rua de baixo já ouviu o disco e falou com a banda. Conheçam tudo nos próximos parágrafos.

Embora mantendo uma linha muito própria, baseada na exploração da pop contemporânea, “F de Falso” surge como um “novo começo”. As influências e os estilos misturam-se numa interessante simbiose repleta de pontos de interesse. Pela primeira vez na carreira da banda, foram “abertas as portas” a colaborações exteriores (Adolfo Luxúria Canibal e Mito Mendes) e a língua portuguesa surge como “idioma oficial”. Para “embrulhar o pacote” da melhor forma, “F de Falso” foi produzido e misturado por Armando Teixeira. Os dados foram lançados. Qual é o resultado?

Surpreendente. O disco abre com o excelente single «Bailare», inspirado nas tradições andaluzes e que conta com a participação de Adolfo Luxúria Canibal, prosseguindo durante dez faixas de uma frescura estética cativante. Por entre melodias pop («Tudo» com a participação de Mito Mendes dos Naifa é um dos mais sublimes exemplos) e ambientes mais “pesados” e “dançáveis” («Ícaro», por exemplo), “F de Falso” fluí de uma forma natural, em que cada faixa traz sempre algo de novo de forma a influenciar o conjunto.

De realçar a presença da faixa-tributo aos Mão Morta – «Charles Manson», uma notável recriação de um dos temas mais emblemáticos da banda.

Estivemos à conversa com a banda, onde trocámos algumas ideias sobre este novo disco e sobre a carreira dos Houdini Blues.

RDB: Imaginem que estavam a falar com alguém que nunca ouviu o som dos Houdini Blues. Como se apresentavam?

Houdini Blues: Como uma banda sem fronteiras estéticas. Como uma banda libertária e sem grilhetas sonoras. Como o cruzamento possível entre os Radiohead e os Gaiteiros de Lisboa, com paragens em todas as povoações sonoras que estejam pelo meio. Tentar ser o veículo de toda a música que entra por um ouvido e não sai pelo outro.

Já passaram dez anos desde a vossa formação. O vosso percurso tem sido um pouco conturbado. “F de Falso” é o disco de afirmação dos Houdini Blues?

Todos os nossos passos são afirmativos, não faz sentido de outra forma. “F de Falso” talvez seja o mais vistoso. Mas acreditamos que a repercussão mediática desta nova afirmação a torne mais verdadeira que todas as outras.

Acham que com “F de Falso” encontraram definitivamente a vossa identidade?

Encontrámos definitivamente uma identidade que, de momento, nos serve de pele e que é a mais confortável de sempre. Sendo assim, e como insatisfeitos e pouco dados a acomodamentos que somos, esta pele equivale a um objectivo cumprido – a despir, em seguida, para perseguir nova pele. Só assim nos interessa continuar a criar.

O facto de serem de Évora tem dificultado a divulgação do vosso trabalho?

Cremos que a única dificuldade que possa advir da origem de uma banda tem a ver com o acesso a meios editoriais e de alguém (editora/imprensa) nos descobrir num concerto. Mas como nunca fomos pessoas de sofá e de acreditar em contos de fadas em que alguém vai tropeçar em nós e perceber que somos o futuro de alguma coisa, sempre metemos mãos à obra e nunca ficámos a chorar os custos da interioridade. Somos pessoas de acção e pouco dadas a queixumes, esse grande desporto nacional. Esse miserabilismo e pessimismo que se quer imputar ao país é a maior mentira que persiste nestas terras. E é igualmente a melhor desculpa para ficar parado, deixar o tempo passar e culpar o mundo em volta de nada ter acontecido.

Como surgiu o titulo para este disco? É um “grito” de revolta?

É um título sacado ao Orson Welles. Surgiu depois de olharmos para as temáticas das canções que tínhamos na mão e encontrarmos um fio condutor entre elas. Não é tanto um grito de revolta mas um sorriso cínico dirigido a quem se leva demasiado a sério e ostenta verdades. Nós fazemos o contrário: temos orgulho na nossa fancaria.

Acham que existe mais espaço para projectos nacionais em 2006, em comparação àquele que existia em 1996?

A democratização ditada pela Internet e pelo acesso mais facilitado a meios de gravação, por si só, implicam um espaço mais alargado para os projectos nacionais se poderem expor. Por outro lado, a rádio e a televisão fecharam-se cada vez mais e os cifrões também ditam de uma forma crescente os destinatários dos parcos segundos disponíveis para a criatividade de tanta gente. Felizmente, canais como este são suficientemente independentes para que todos nós nos responsabilizemos pelo espaço que existe para tudo e mais alguma coisa. Agora, se 2006 dará à música nacional um disco do calibre da obra-prima de “Guia Espiritual”, dos Três Tristes Tigres, aí é que a porca poderá começar a torcer o rabo…

Como surgiram as duas colaborações no disco? Quais as razões para as escolhas?

O Adolfo Luxúria Canibal foi uma escolha natural, até para aquele tipo de registo mais spoken word. Teria de ser necessariamente o nosso primeiro convidado por, de certa forma, ter sido ele quem, em 1997, nos resgatou para a língua portuguesa ao assistirmos ao espectáculo do “Müller no Hotel Hessischer Hof” em Évora.

A Mitó porque é uma voz de arrepiar, com muita alma, e que nos agrada bastante. Identificamo-nos com ambos pela forma nobre como tratam a língua portuguesa e por representarem uma “portugalidade” enviesada que é também a nossa.

Qual foi a importância de terem Armando Teixeira como produtor do disco?

Teve, talvez, a importância mais inesperada, pois limpou-nos de muita electrónica, conduzindo para um som mais de banda que foi sempre a ideia que orientou todo o seu trabalho. O Armando é responsável por um olhar mais focado da nossa música e deve-se também a ele o facto de termos entre mãos o nosso disco mais consistente e afiado.

Dizem no vosso press release que “não querem seguir modas e tendências”. Acham que o conseguiram fazer com este trabalho? Porquê?

Conseguimos neste e nos anteriores pois não pertencemos nem nunca pertenceremos a nenhuma família estética. O nosso compromisso é para connosco e para com a nossa capacidade de nos superarmos. Quem se compromete com uma moda ou tendência fica órfão quando ela passa. Além disso quem gosta de coisas tão dispares como Madonna, Nuno Rebelo ou Camané nunca conseguirá ser feliz se for só por um lado.

Como e onde se imaginam daqui a 10 anos? Quais as vossas ambições?

Só nos podemos imaginar a ainda nos surpreendermos a nós próprios. Senão, não estaremos cá de certeza, andaremos simplesmente “por aí”, como Santana Lopes. As nossas ambições são essas. Ambições criativas e de podermos esticar sempre mais um pouco a nossa música. Futuramente, gostaríamos de cruzar o nosso trabalho de uma forma mais apurada com outras manifestações artísticas.

Onde vamos poder ouvir os Houdini Blues ao vivo nos próximos tempos?

Por todo o país. É essa é a nossa grande inovação nas intenções ao vivo deste “F de Falso”. Percorrer o país, fazer a Volta a Portugal com uma bateria às costas. Algo que nunca fizemos.



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