How to destroy angels | “Welcome oblivion”

How to destroy angels | “Welcome oblivion”

Um bom arranque que não cairá no esquecimento

Falar de Trent Reznor é falar de hiperactividade: depois de ter marcado duas décadas com a sua banda de metal industrial, o músico ainda participou paralelamente em inúmeros projectos, bandas sonoras – primeiro a do filme “The Social Network” e depois a de “The Girl With The Dragon Tatoo” -, e dá agora a cara por um novo projecto baptizado como How to destroy angels. Dele fazem parte ainda a sua mulher Mariqueen Maandig e o produtor e programador britânico Atticus Ross, com o qual Reznor já colaborava desde finais de 90. “Welcome oblivion” é o primeiro longa-duração desta nova tríade que mistura o lado mecânico da dupla de produtores com a vertente orgânica da voz de Mariqueen, resultando numa interessante dicotomia.

Com uma capa que mistura morbidez e uma experiência qualquer de lobotomia, num esboço de cidade algures perdida entre este mundo e o resto do universo, o álbum desdobra-se em treze temas que podem ir do minuto e meio aos extensos sete minutos, dando asas aos dois músicos para libertarem as suas facetas experimentalistas, como é o caso em «Recursive Self-Improvement» e «We Fade Away».

Com a lição mais que estudada do legado deixado por Genesis P. Orridge e os seus Throbbing Gristle, Trent Reznor sempre nutriu um fascínio pela morte e suas derivantes; prova disso foi o facto de o artista ter decidido ir viver para Los Angeles, no início da década de 90, para cozinhar e gravar o segundo álbum dos Nine Inch Nails, no quarto onde os seguidores de Charles Manson assassinaram Sharon Tate. Tal característica está presente nos variados capítulos da discografia dos NIN e é-nos revelada à medida que se desenrola este novelo dos How to destroy angels.

A biblioteca de efeitos sintetizados e pequenos apontamentos, que parecem ter viajado de alguma fábrica perdida pelo Reino Unido no séc. XVIII, deixam qualquer amante desta vertente hipnotizado e com vontade de descobrir o local onde a dupla guarda os seus sintetizadores e samplers. Eles que se cuidem, que depois de ouvir «Strings And Atracttors», um tal de Skrillex deverá andar a estudar planos maquiavélicos de profanação.

«The Wake-Up» introduz o álbum, sem vozes e com sons fortes e arranhados, para depois nos mergulhar profundamente no misticismo de «Keep It Together», na qual se sente bem o contraste entre o Homem e a máquina. «And The Sky Began To Scream» mostra-nos sintetizadores desordenados como que se tratassem de uma mensagem vinda de outro mundo, desembocando, repentinamente, na melodia suave de Mariqueen. E ainda de volta das cordas vocais da cara metade de Reznor, «Welcome Oblivion» conta com um belo efeito de distorção, com uma alta componente espacial e um pingo de psicadelismo, já perto do final, à imagem do «A Day in The Life» dos Beatles. E se de Inglaterra falamos, então é importante dizer que «On The Wing» nos transporta para Bristol numas asas trickyanescas, trazendo-nos, mais tarde, de volta à pop norte-americana com a orelhuda «How Long?». E se alguns dos temas combinam na perfeição com o título a eles associados, outros enganam-nos redondamente, como é o caso de «Ice Age» que nos induz em erro e, em vez de nos colocar perante desertos glaciares, traz até nós apontamentos de folk de cariz electrónico, naquela que será a música mais orgânica do álbum.

No final, e depois das longas e viciantes «Recursive Self-Improvement» e «We Fade Away», o trio encerra o álbum com uma calma e relaxante «Hallowed Ground», desenhada pela contagiante melodia do piano que a acompanha, deixando-nos sedentos de mais e à mercê de um replay do disco. É, sem dúvida, um bom começo para o novo projecto de Trent Reznor, que, apesar de se chamar «Welcome Oblivion», não correrá certamente o risco de cair no esquecimento.



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