Fotografia de Cristina Coutinho

Hugo Esteves – “Ktabna”

Marrocos deixou-se fotografar

Marrocos. Os lugares mais reconditos. As vidas reais das pessoas que se deixaram fotografar nas suas casas, nos locais de trabalho, nos caminhos que não os vemos fazer na maior parte das vezes. É disto que é feito Ktabna, um projecto que nasceu das mãos de 16 alunos do Movimento de Expressão Fotográfica e que deu origem a um livro e a uma exposição, patente no Espaço Cultural das Mercês, até 17 de Outubro. Hugo Esteves, um dos alunos do workshop de fotografia documental, deixou-nos com vontade de fazer as malas e ir.

Fala-nos desta viagem, com o coração. Porque partiram rumo a Marrocos, por onde passaram, onde queriam chegar?

O MEF, Movimento de Expressão Fotográfica, dinamiza um workshop de fotografia documental em Marrocos com o objetivo de realização de um projeto fotográfico, explorando a vertente estética da imagem e o seu carácter documentalista. A exploração fotográfica apontou diretamente na orientação do documentário sociocultural ilustrando o modo de vida da população local. Não é um workshop de  fotografia convencional, é muito mais do que isso. Nós passamos por sítios onde a maioria dos viajantes nestas terras não passa, como aldeias no interior do país, onde ficámos a pernoitar e onde fomos naturalmente convidados a  entrar nas casas das pessoas para tomarmos um chá, marroquino claro está, como se fossemos uns parentes emigrados há algum tempo dessas famílias. Esta ligação ao país, aos lugares e às pessoas torna-se assim mais forte. Isto fica depois visível no nosso trabalho fotográfico. O trajeto estava definido à partida: aterraríamos em Casablanca, rumaríamos ao interior passando por Fez e Meknès, visitaríamos e ficaríamos nas aldeias próximas em Errachidia e depois viajaríamos de volta a Oeste até Marraquexe onde acabaríamos a nossa viagem. E assim aconteceu. Mas no fundo, a viagem é apenas a desculpa para chegarmos às pessoas desse país, à sua cultura e tradições. Esse sim, é sempre o principal destino.

Que gentes e que lugares encontraram? Que surpresas? Que desilusões? Que inspirações?

Marrocos é um país cheio de riqueza cultural. É por isso que faz todo o sentido fazer um trabalho de fotografia documental nesse país. É um país com uma diversidade de gentes muito particular, que torna cada sítio que se visita uma aventura. Há as visitas aos mercados onde fotografamos, sempre com permissão, os ofícios que parecem tirados de tempos idos, dos quais já não nos lembramos que existiram (ou que sequer que existiriam, como uma banca no mercado onde se compram aves e na banca ao lado compra-se o serviço de matança do animal, ou as lojas onde se vendem artefactos de madeira feitos por um rapaz que as trabalha com os pés usando utensílios muito antigos). Há as incontáveis lojas de artesanato do mais variado que se possa imaginar, quase tudo feito manualmente, onde quer que passemos, em particular em Marraquexe. Apetece ficar a falar com os vendedores que nos acolhem ainda melhor quando dizemos que somos Portugueses. As pessoas foram, de facto, uma grande e positiva surpresa, o que nos inspira para voltarmos ao país e continuarmos a descobrir e a tentar documentar fotograficamente esse mundo. A desilusão foi termos tido pouco tempo para aproveitarmos mais Marraquexe embora essa falta de tempo tenho tido uma história por detrás: ficámos parados numa fila interminável quando, a caminho de Marraquexe, uma estrada ficou intransitável devido à rutura de um dique provocada pelo dilúvio que se verificou horas antes. Essa era a única estrada que levaria a Marraquexe de Aït-Ben-Haddou.

Fotografia de Cristina Coutinho

Houve algum lugar que vos tivesse apaixonado mais?

O nosso objetivo é sempre estar o mais possível com as gentes locais. É sempre mais fácil consegui-lo em zonas menos turísticas, menos frequentadas. É nestes sítios que nos sentimos melhor, mais dentro da realidade desse país, mais acolhidos e mais integrados na vida local. É aí que nos apaixonamos pelas pessoas e pelo país. Por outro lado, há imensos sítios onde facilmente ficamos deslumbrados, como os inúmeros oásis, aldeias antigas abandonadas ou como Aït-Ben-Haddou, património mundial da Unesco, ou Marraquexe, onde a se sente um frenesim especial.

Os marroquinos deixam-se fotografar facilmente?

Há pessoas de todos os géneros e feitios como em todo o lado. Não é tão fácil como em outros países mas é apenas uma questão de nos darmos a conhecer, de ocuparmos o nosso tempo com essas pessoas e, naturalmente, quando a ligação se estabelece, fica sempre mais fácil. Mas esta relação entre fotógrafo e fotografado é sempre estabelecida desta forma em qualquer parte do mundo, com exceção de algumas sociedades como a indiana, onde essa relação se estabelece muito mais rapidamente.

Fotografia de Hugo Esteves

Ktabna, o nome escolhido para o vosso livro. O que significa?

É uma palavra árabe que significa “o nosso livro”.

Como surgiu a ideia de lançarem um livro e uma exposição desta viagem? Tiveram algum tipo de apoio financeiro?

A fotografia, como qualquer arte, é criada para chegar à sociedade, às pessoas, e é por isso que o MEF tenta sempre concretizar os trabalhos realizados nos workshops e nos seus outros projetos com a sua divulgação em algum formato. Neste caso fez-nos sentido fazer a exposição para que as pessoas possam também conhecer os autores (estará sempre pelo menos um autor na galeria) e estes partilharem com os visitantes um pouco das suas experiências e histórias que marcaram cada imagem exposta. No seguimento desta ideia, e porque não é fácil encontrar espaços de exposição em Lisboa com dimensão suficiente para receber o trabalho dos 16 fotógrafos, decidimos publicar um livro que reúna, de uma forma coerente e pensada, um maior número de imagens de cada autor. Assim, a concretização do projeto fica completa. Tudo isto exigiu não só esforço pessoal como também investimento financeiro, que ficou todo a nosso cargo, apesar de termos procurado patrocínios. Além disto, foi extremamente difícil encontrar um espaço de exposição em Lisboa. No entanto, a união do grupo e a perseverança de todos os seus elementos foram a força motriz para que a concretização do projeto fosse possível apesar dessas dificuldades.

É um destino relativamente acessível e promovido entre nós. O que trazem estas imagens de novo? De que forma nos tentam a fazer a mesma viagem?

A fotografia documental tem muito pouca semelhança com a fotografia de turismo. Tem outro propósito, é mais profunda do que apenas uma fotografia para “recordação”. Tenta retratar a essência de uma sociedade, a sua cultura, os seus costumes, as suas tradições, as suas gentes, as particularidades que a fazem ser diferente ou igual na sua diferença. Para isso não basta passar e fotografar; é preciso estar, e pensar na fotografia. Quem quer conhecer melhor uma sociedade através da fotografia tem que procurar trabalhos documentais, não fotografias de turismo. Estas últimas apenas retratam uma parte.

Os apaixonados pela técnica da fotografia, o que vão encontrar nestas imagens?

Vão encontrar várias abordagens, vários olhares, várias técnicas usadas decorrentes desse mesmo olhar particular de cada fotógrafo. Não são fotografias fáceis para quem não está familiarizado com a fotografia documental. Não retratam apenas aspetos positivos; têm o objetivo de mostrar todos os lados da história. Como sugestão a quem nos visita, costumamos dizer para se perderem uns minutos em cada imagem para conseguirem identificar cada elemento da mesma; cada imagem foi pensada e tem um propósito definido pelo autor.

Como tem sido a adesão à exposição? Uma visita=um livro?

A adesão superou as nossas expectativas. A inauguração, em particular, teve muita adesão, mais de 150 pessoas, e todos os dias recebemos visitantes, o que é um bom sinal. Foi um trabalho de um ano e é gratificante conseguirmos levá-lo a muita gente. Quem nos visita fica com curiosidade sobre o resto do trabalho e muitos visitantes acabam por adquirir o livro.

Apresenta-nos o MEF.

O MEF é uma Associação de Direito Privado sem fins lucrativos que trabalha há cerca de 15 anos na área da imagem, com particular destaque na fotografia, pretendendo promover o gosto pela mesma junto do grande público. Está envolvido na procura de parcerias com instituições e associações na área da dinamização social de forma a oferecer formação a públicos cujo acesso a oportunidades educacionais possa estar comprometido e é também facilitador de diversos tipos de workshops, como retrato, teatro, música, documental, entre muitos outros. Nas suas atividades formativas, procura criar condições para que, num contexto inclusivo e de suporte, se estabeleçam diálogos, se gere pensamento crítico, e haja uma partilha construtiva de experiência fotográfica. Exemplo disto é a dinamização de tertúlias com outros fotógrafos. Procura igualmente servir de plataforma de apoio para que os seus associados/alunos desenvolvam competências na área da fotografia e possam usufruir de oportunidades para expor e divulgar os seus trabalhos, como é o caso desta exposição e livro.

 

 

Espaço Cultural Mercês
Rua Cecilio de Sousa, 94
Ter a Sex | 15h-21h
Sáb | 10h-16h



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