rdb_hugomakarov_header

Hugo Makarov

Da Maria Gambina à Popota, passando pela Casa Pia. Conheçam o percurso e o trabalho do ilustrador português

Poderíamos descrever o Hugo Makarov e as aventuras que a vida de ilustrador lhe trouxe em mil folhas. Mas antes disso fomos até ao terraço do Lisb’on Hostel. Entre os telhados que cobrem Lisboa e o Rio Tejo ao final da tarde, ficou uma boa conversa e só faltou mesmo uma sangria.

Começou por estudar Arqueologia, numa variante em História. Mas, rapidamente, mudou o caminho. Um caminho que nunca mais acaba, um caminho que nos deixa presos. Como ele próprio diz, “parar é morrer”, e ele não vai parar de nos surpreender, de certeza.

Atrevemo-nos a dizer-lhe que tem uma estrelinha da sorte. E os amuletos do Hugo são os sketchbooks que traz sempre na mochila. “Sim trouxe! Ando sempre com eles.” Ele anda sempre com eles, e eles abrem-lhe as portas do sucesso.

Foi a partir disso que se estreou como tatuador (profissão que actualmente exerce), que desenhou a Popota e as mediáticas ilustrações do processo Casa Pia, passando também por uma experiência em Moda.

Entre isto e mais alguma coisa, sonha ir ao Japão – “está marcada já, ainda por cima!”- e trabalhar com Sara Blake. É apaixonado por sushi e no videoclube a escolha é “Bom Rebelde”.

Hoje a nossa escolha foi mesmo Hugo Makarov

A paixão pela ilustração começou um pouco pelos livros de BD que lias e os filmes antigos do teu pai. Também fizeste umas pequenas ilustrações na faculdade…

Era mais influência dos livros, não era tantos dos filmes. Fiz também umas BD’s por piada, a gozar com um ou dois elementos da faculdade. Do cozinheiro, ao cromo. Aqueles “politicamente activos”. Mas eram coisas muito suaves, mais pranchas, cartoonzinhos tipo Calvin and Hoobs, basicamente.

Então achas que o que fazes hoje em dia é um bocado o reflexo dessas memórias ou isso foi só um ponto de partida?

Foi só um ponto de partida. Basicamente sempre tive livros de todos os estilos de banda desenhada em casa. Desde as cenas do Homem-Aranha, Batman… Talvez o que aconteceu foi que, à medida que ia crescendo, o meu gosto ia-se adequando à idade e ia escolhendo os livros conforme os estilos com que me ia identificando.

Actualmente não ligo nenhuma ao Homem-Aranha ou a Tintin, por exemplo. Acho muito mais piada àquele estilo franco-belga, mais pesado, mais carregado. E graficamente também estou muito mais próximo deles, do que daqueles musculados do Homem-Aranha e coisas assim.

E o que é que te estimula hoje em dia, quais são as tuas inspirações?

Basicamente é o que nos vai rodeando, sabes? Desde os teus amigos, ao teu trabalho, às tuas viagens. Toda a influência que tenho vem daí.

 

O que é que gostas mais de representar?

Pessoas. Definitivamente pessoas. Pessoas em situações estranhas.

Mais a figura feminina ou a figura masculina?

Tem épocas. Por norma é a figura feminina. É muito mais dinâmica e muito mais gira de se desenhar. Os homens que eu faço normalmente têm um aspecto muito mais primata quase, bestial. Mas quando desenho a mulher tento ser o mais perfeitinho possível, a nível de corpo e tudo.

O que faço normalmente é, começo por usar a imagem da mulher; a partir daí, transformo as coisas. Faço umas ligações. Só para teres uma ideia, tenho um desenho aqui que é uma rapariga misturada com um monstro, que é um homem… é muito estranho (risos).

E com isso tentas causar alguma impressão nas pessoas e tens sempre uma mensagem por detrás?

Não, é super orgânico. Às vezes há ideias que surgem e tento pôr no papel, mas 90% não funciona. Geralmente as boas ideias começam por uma ideia muita ténue e depois começas a desenhar e automaticamente começas a construir alguma coisa. É muito raro haver um plano.

Às vezes só descobrimos o conceito depois…

Se é que tem conceito! Depois as pessoas é que descobrem e é essa a piada: as pessoas a tentarem fazer uma leitura dos teus desenhos…

Porque é que assinas “Makarov”?

Porque sou Machado Martins e queria fazer alguma coisa que ficasse sempre “HM” e fosse mais ou menos transversal. E adoro os nomes russos…

Pele, parede ou papel?

A parede é uma experiência nova, com a qual ainda não me sinto completamente à vontade… Mas estou a gostar! É giro desenhares em formatos grandes. A grande piada de fazeres nas paredes é que fazes montes de quilómetros para trás e para frente, para veres a dimensão. E nunca sabes ao certo de como é que vai ficar. Se já no papel a coisa é assim… na pele a mesma coisa: nunca sabes como a pele cicatriza, como a tinta seca.

Qual foi o projecto que te deu mais gozo?

Todos me deram imenso gozo, a níveis diferentes. Uns porque me deram mais trabalho e outros porque me deram mais liberdade…

De certeza que te veio um à cabeça…

O último é sempre o mais fixe, o mais divertido…

Mas quando me falas de projectos, uma das coisas que gostei mais de fazer, porque envolvia viagens, envolvia uma coesão entre grupos e me abriu as portas para este meio, foi o Secret Wars. Especialmente a viagem a Berlim, que foram dois dias completamente alucinantes! Aconteceu tudo ali. Deste atrasos de avião, que depois nos levaram a ter de ficar num hotel de 5 estrelas em Madrid – eu nunca tinha ficado num hotel de 5 estrelas (risos)! Entretanto estivemos no bar do hotel a beber uns copos, a discutir o projecto e a decidir o que iríamos fazer na parede. Só no dia seguinte é que chegámos a Berlim. E depois dessa estadia, ficámos alojados num sítio que não tinha nada a ver. Muito pior!

Mas foi muito fixe porque ganhámos! Nunca tínhamos ganho num sítio fora… Foi muito divertido, as pessoas eram muita boa onda, o sítio era lindo… Correu tudo bem.

 

E em relação à Pensão Amor, houve um brainstorm, ou foi só chegar e fazer o que te vinha à cabeça?

Houve! Aí é diferente, aí existem projectos. E estava a trabalhar com o Mário Belém que é designer e ilustrador, ele gosta de planos.

O que aconteceu foi: apareceram com o projecto e já havia um conceito inicial. Entretanto o Mário ligou-me e disse “olha, vou encher uma escadaria cheia de mulheres, acho que és o gajo ideal para desenhar”. E aconteceu.

E como é que é trabalhar com o Mário Belém?

É fácil, é divertido!

Fala-nos da Popota…

Um amigo, com quem já tinha trabalhado numa agência de publicidade a fazer storyboards e coisas assim, ligou-me porque precisava de uma mascote para um medicamento de crianças. E um director criativo, que não tinha nada a ver com esse projecto em que estava, passou pela mesa e começou a ver os meus desenhos do bloco que tinha na altura e disse, “tenho esta ideia… tu é que eras capaz de fazer o que preciso, tens o estilo ideal”.

Entretanto fiz uns desenhos e fui lá mostrar. O gajo disse que estavam muito maus e tive de fazer de novo.

No dia seguinte, mostrei-lhos com ligeiras alterações e disse “está óptimo!”. É assim, levares a primeira nega é muito bom. Acertas logo o passo, sabes? (risos)

E a Popota foi assim. Aquilo era só um projecto, era uma apresentação de uma mascote. Não fazia ideia que iria ter o impacto que tem hoje em dia.

Como é que foi ilustrar o processo Casa Pia? Isso mexeu de alguma forma emocionalmente contigo?

Um bocado. Mexeu a vários níveis, até. Na altura havia aquela confusão de não se poder fotografar. Entretanto perguntaram se se sabia de alguém que pudesse fazer as ilustrações e uma pessoa que conhecia na altura indicou-me. Tinha que fazer quatro desenhos por dia. Dois de manhã e dois à noite.

Mas marcou-me porque, acima de tudo, ganhei consciência da miséria das pessoas…

E a tua participação em Moda, com a Maria Gambina?

Lá está! Essa foi uma das estrelinhas! Foi giro porque acabámos por ficar amigos. Ela é muito querida, das pessoas mais simpáticas que eu conheci.

Isto tudo começou porque ela mandou-me um email a dizer: “Olá eu sou a Cristina, sou designer de moda e gostava muito de trabalhar contigo. Gostei do teu traço, dos teus esboços na net…”.

Eu cresci aqui no Bairro Alto, tinha montes de amigos que eram todos da Moda… (risos) Toda a gente sabia quem era a Maria Gambina! Eu adorava a roupa dela, ainda por cima porque era toda desportiva e na altura do drum & bass gostava imenso daquilo. E depois quando vou ver os links que ela me mandou e vejo quem é, disse-lhe “Fogo! Eu sou mega fã! Gosto muito do teu trabalho! Eu era puto quando comecei a ver as tuas cenas…”

Fui ao Porto, ela deu-me um briefing com um copo de vinho tinto à frente. Ficámos lá um bocado à conversa e trabalhámos via net.

Acabei por não ir à Moda Lisboa por confusões, mas a colecção está espectacular! Era capaz de comprar muita coisa dali (risos).

 

E como é que vês a arte urbana hoje em dia em Portugal? É difícil viver da Arte?

Viver da Arte? Acho que é sempre difícil viver da Arte. Até a Arte de escrever… Ou melhor, viver da Arte que nós queremos, é complicado.

Eu, felizmente, vivo do que faço, vivo de “fazer bonecos” – como um amigo meu costumava dizer. Orgulho-me disso, mas é uma vida complicada. Eu só agora é que comecei a entrar a sério no meio da ilustração, mas a partir do momento em que começas a apresentar trabalho, as coisas começam a surgir. Tens de dar tudo. Tens de trabalhar e deixas de ter um bocado de vida.

Normalmente quem vês aí aos fins-de-semana nas praias é pessoal que tem empregos das 9 às 5.

Se calhar, pessoas como tu ou eu, vamos à praia naquele dia de semana, naquela tarde que consegues ter livre. Ou levas o teu trabalho contigo. Andas sempre um bocado com o teu trabalho às costas e geres as coisas de outra maneira.

 

FOTOGRAFIA:
Tiago Fonseca

AGRADECIMENTOS:
Lisb’on Hostel



Também poderás gostar


Pin It on Pinterest

Share This