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Hugo Teixeira

Entrevista exclusiva com autor de "Bang Bang", o primeiro livro de MANGA editado em Portugal.

Natural de Amarante e nascido em 1980, Hugo Teixeira é artista plástico e autor de Banda Desenhada. É conhecido maioritariamente por ter sido o primeiro autor a lançar um livro de manga em Portugal, juntamente com a editora “pedranocharco”. O livro em questão é “Bang Bang” um western pós-apocalíptico bem ao género cyberpunk, cujo 2º volume foi editado no passado Festival Internacional de Banda Desenhada da Amadora (FIBDA).

Para quem está mais familiarizado com o panorama da 9º arte em Portugal muito provavelmente já se cruzou com várias das suas obras. Sejam as suas várias ilustrações ou as curtas de BD editadas no “BD Jornal”, “BD Voyeur”, “Mundo Universitário”, “Zona Zero” ou “Tertúlia BDzine”.

Em finais de Abril do ano passado abriu a loja de BD “Asa Negra Comics” em Almada. Aproveitando a sua recente exposição no Festival internacional de BD de Beja (FIBDB) a RDB foi à sua procura.

Podes falar-nos um pouco sobre o teu início neste mundo da Banda Desenhada e como nasceu esta paixão pelo desenho?

Fui sempre autodidacta, sempre desenhei começando por fazer cópias de desenhos, primeiro da Disney depois passando para coisas mais adultas. Sempre gostei de pintar também, comecei a estudar (por mim próprio) a pintura a aguarela e guache, passando posteriormente para acrílico e óleo (embora a óleo tenha feito poucas pinturas, tinha um quarto muito pequeno e o cheiro era intenso). Fazia tudo isto por gozo e passo a expressão: para mostrar à família e amigos.

Mais tarde e depois de já ter adquirido alguma maturidade frequentei um pequeno curso livre de desenho e pintura, num atelier em Amarante administrado pela Isabel Ribas, que considero uma das melhores pintoras da actualidade em Amarante. Frequentei este atelier porque me inspirava todo aquele ambiente, e além disso aprendi a parte teórica, coisa que até à altura fazia por instinto. Posteriormente neste atelier cheguei a fazer uma exposição individual de pintura e ilustração, e cheguei a vender umas aguarelas para um outro atelier de Belas Artes.

No tempo dos nossos pais era o chamado género franco-belga que reinava, no nosso foram mais os comics vindos da América, hoje em dia é claramente a manga quem está a vencer nas vendas e a atrair o público mais jovem. Na tua opinião quais são as razões para isto acontecer?

O meu pai não leu muito franco-belga, era mais western spaguetti. Eu sempre me considerei um leitor de BD não me considero propriamente ou purista ou aficcionado por um género em particular.

Nos dias que correm a manga vem por essa Europa fora com toda a força, basta para isso apresentar os dados apresentados pelo “Centre Belge de la Bande Dessinée”. Em 2008 publicaram-se quase tantos títulos de manga como de BD francófona. Este ano é provável que fiquem equiparadas ou ultrapassem a BD Franco-Belga. Digamos que é a leitura da moda, pois a grande parte dos leitores são do sexo feminino o que acaba por contribuir ainda mais para o aumento explosivo de vendas, elas são mais extrovertidas que os rapazes. Ora hoje em dia há esta vertente que é capaz de captar público feminino para a BD coisa que no tempo dos nossos pais e no nosso tempo não existia.

Coloquei-te a questão acima porque sei que és uma grande entusiasta da BD japonesa (manga) tendo lançado nos últimos anos os dois primeiros volumes da série “Bang Bang” entre outras histórias mais curtas, em fanzines e no BD Jornal.Tal como tu há muitos outros artistas portugueses a serem influenciados por este estilo, no entanto és o único português a editar Manga em Portugal. Porque achas que mais autores portugueses não lançam Manga? Dificuldades em lançar BD no geral ou este estilo em particular?

Fui o único a editar manga em álbum por uma editora. Antes de mim foram editadas várias histórias em fanzines. Aliás antes de editar o primeiro álbum eu próprio fiz uma história com quatro páginas para o fanzine Tertúlia BDzine e lembro-me que o J. Mascarenhas fez também uma história para o mesmo fanzine há alguns anos atrás.

Penso que a razão pela qual não existem mais portugueses a editar manga é mesmo por causa da crise que o panorama bedéfilo atravessa no nosso país neste momento, mas com este boom da manga vejo o futuro com bons olhos.

Existem por aí dezenas de pessoas muito melhores que eu. Já para editar manga de origem estrangeira é um grande pesadelo pois não temos mercado suficiente para agradar as tiragens excessivas que as grandes editoras de manga exigem.

Sei que és também um grande fã de Manhwa que é uma espécie de manga Coreano. Em que consiste este estilo e quais as suas diferenças em relação ao japonês?

Esta é uma questão um pouco difícil de transmitir por palavras, acho que só estando atento aos dois estilos é que se percebe. Para os leitores poderá parecer o mesmo, mas para quem desenha e está atento à arte vai notar diferenças significativas. Usam expressões mais sérias e não tão exageradas e o estilo de representação da figura humana nomeadamente as feições da cara pendem mais para o lado realista. E tem também excelentes animações… Como disse não consigo explicar isto tecnicamente, consigo apenas observar e apontar algumas características gráficas diferentes.

Existe a ideia de mudar o formato da edição de “Bang Bang”. Isso prende-se ao facto de as edições actuais serem morosas e por isso termos de esperar imenso tempo pelo próximo volume ou por outra razão?

A ideia de mudar o formato é sobretudo técnica. No início optámos por usar o formato comic, mas após um estudo meu concluí que não é o formato ideal, pois os mais aficcionados por manga nem sequer ligam a esse formato associando-o logo a algo diferente, estão habituados a um formato mais pequeno o chamado formato Tankōbon, é assim que é designado o formato manga no Japão. Com isto decidi aumentar o volume de páginas, pois como dizes a publicação é morosa e só acontece quase de ano em ano no maior festival de Portugal o FIBDA, pretendendo progredir um pouco mais com a história pois até agora só dei uma pequena introdução às personagens e pouco mais.

Para quem conhece o teu trabalho sabe que gostas muito de trabalhar com aguarelas. Recentemente fizeste uma exposição “aquasounds” que consistia em aguarelas abstractas influenciadas por determinadas músicas. Podes falar-nos um poucos obre esse projecto?

Bem isso não foi bem um projecto mas sim uma oportunidade, que surgiu por acaso. Por vezes ao desenhar imenso a preto e branco com tinta-da-china tenho a necessidade de usar cores. Nessa altura desenhava pranchas do “Bang Bang”, e para relaxar comecei a fazer pequenas pinturas abstractas e comecei a dar-lhe o nome de títulos de músicas, ou passagens que ouvia na altura. Já no FIBDA mostrei algumas aguarelas ao sócio gerente do bar “acercadanoite” o Álvaro Silveira e como temos uma boa relação a resposta a isso foi imediata e começámos então a trabalhar numa exposição para o bar. No final chamei-lhe “aquasounds” usando um trocadilho entre água e sound, tributando ao mesmo tempo os Jethro Tull que como sabem tem uma música chamada Aqualong. Correu muito bem, tive muitas críticas bastante positivas em relação a esta minha outra vertente.

Recentemente tiveste uma exposição do teu trabalho no FIBDB. Como correu?

Em termos gerais o festival correu bem, quase não tive tempo para visitar as exposições, pois estive lá a representar a minha loja também. A minha exposição estava num local bastante escondido, se calhar metade dos visitantes nem deram por ela. Expuseram poucos trabalhos meus, tinha enviado trabalhos inéditos, mas resolveram expor apenas aquilo que tinha publicado, em álbum, revistas ou fanzines. Não ouvi nenhum comentário acerca da minha exposição. Penso que correu normalmente. A próxima será já no Salão de BD de Viseu.

Agora que falas na tua loja, a “Asa Negra Comics” em Almada, trata-se de um projecto bem recente. Quando surgiu a ideia de começar esta nova aventura?

Trabalhei numa área completamente diferente. Fui programador de autómatos durante muitos anos. Sempre fui aficcionado por BD e a ideia de ter uma loja surgiu a partir de um sonho. Depois de me ter mudado de Amarante para o Seixal precisava de emprego, comecei por um pequeno quiosque e depois resolvi arriscar abrindo uma loja especializada em BD.

Hugo Diogo realizador do filme “Marginais” propôs-se a adaptar “Bang Bang” para o Cinema. Como se tem desenvolvido esta ideia?

Esta ideia desenvolve-se em passo de caracol, para já estamos apenas a trocar ideias, embora tenhamos já avançado com algo. O nosso objectivo é criar uma espécie de teaser/trailer com o fim de arranjar patrocinadores. Se eu tivesse um pouco de tempo livre, a ideia avançava mais rápido, quer eu quer o Hugo Diogo temos bastantes ideias que gostaríamos de meter em prática. Mas se este projecto for avante o argumento da história irá sofrer algumas alterações.

No primeiro volume de “Bang Bang” mostras rapidamente em uma página como se desenha manga tradicional. Podes explicar-nos no que consiste esta técnica?

Esta técnica, o uso de tramas ou retículas (ou em inglês screentones) é bastante mais difícil do que usar cor pura e simples. Existem milhões de combinações de tramas, tamanhos dos pontos, a sua disposição, gradientes e há uma infinidade de efeitos, texturas e padrões. É necessário algum cuidado para não sobrepor tudo isto e resultar numa coisa imperceptível. Muitas pessoas leitoras assíduas de manga nem sequer sabem que aquilo é pontilhado tudo a preto e branco, pensando que é um tom de cinza. Já fiz um pequeno Workshop disto para amostra, mas estou a pensar em fazer um mais completo.

Explicando muito resumidamente os screentones, na sua forma tradicional, são películas a preto e branco, transparentes, que se cortam e colam por cima do desenho podendo posteriormente dar vários efeitos raspando com um X-Acto ou com uma borracha, enfim sendo criativo podem-se criar uma infinidade de efeitos. É claro que hoje em dia todos os mangakas o fazem de forma digital, há programas exclusivamente para isso.

Quais são as tuas maiores influências?

A nível de traço sou altamente influenciado pelo Tsutomu Nihei autor de “Blame!”, pois foi este primeiro manga que investiguei a sério, dando imenso ênfase aos cenários que considero também como personagens. Gosto do Yukito Kishiro, autor de “Gunnm” e “Gunnm Last Order”, venero a sua arte. Acho que tenho também algumas influências do Hiroaki Samura criador do “Blade of The Immortal”, com o seu traço “nervoso”.

Como respondi anteriormente, tenho vindo a influenciar-me pela Manhwa, estou a gostar imenso do estilo de Park Joong-Ki autor do “Shaman Warrior”.

Podemos dizer também que sou influenciado pela BD francófona, estranhamente são os meus dois géneros favoritos (manga e franco-belga), gosto de Frezzato autor “d’Os Guardiães de Maser”, de Civiello com as suas gigantes e espectaculares pranchas pintadas em grandes formatos. Uma outra obra que me marcou bastante foi “Fadas e Ternos Autómatos” de Béatrice Tillier e Téhy, temos por último e não menos importante a dupla Barbucci e Baneppa autores da “Sky Doll”.

Além da continuação de “Bang Bang” quais os teus planos para o futuro?

Uma das frases que uso frequentemente é: Navegamos assim num mar incerto. De um momento para o outro tudo isto poderá terminar. Em conversa com Craig Thompson e Sierra Ahan (uma editora da Dark Horse) dizia que não tinha grandes planos para o futuro, o meu objectivo é realmente estar em contacto com pessoas, trocar ideias opiniões, fazer amizades.

Claro que não me importava de trabalhar para um mercado maior se surgisse a oportunidade. Tenho alguns projectos que gostaria de ver acabados, um deles é mais orientado para o estilo americano, mas o maior de todos ou o de maior envergadura é um projecto no estilo franco-belga. Mas com o passar dos anos vejo que fico cada vez com menos tempo e vontade de os elaborar.

Para já um dos meus grandes objectivos é tentar viver e sobreviver nesta selva urbana…

Quando se fala de manga em Portugal o teu nome surge imediatamente pelas razões acima mencionadas. Como te sentes em relação a isto?

Devo admitir que quando penso nisso entro em pânico, sou usado como modelo, muitas vezes referido como vanguardista, é uma responsabilidade enorme. Começo a pensar em demasiado no que as outras pessoas vão dizer críticas etc. Muitas vezes uma crítica arruína completamente o trabalho de alguém e muitas vezes não reajo da melhor forma a elas.

Tenho que reformular o meu pensamento e dizer para mim mesmo que tenho que fazer a coisa por gosto, independentemente dos gostos de outros.



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