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I Am Walter Benjamin

Para acabar de vez com o anonimato (e a confusão com o filósofo). "The Imaginary Life of Rosemary and Me" é apresentado a 2 de Fevereiro no Musicbox Lisboa.

Escavar o passado de Walter Benjamin, que no B.I. e em questões legais assina pelo nome de Luís Nunes, é qualquer coisa como deambular entre a frustração e o assombroso. Se nos ficarmos pela superfície, observamos o reflexo de uma vida como tantas outras mas, com muita paciência, perseverança e instrumentos de escavação de qualidade certificada, descobrimos que este miúdo de 25 anos já anda nesta vida da música há muito tempo, e a fazer coisas que deviam ser olhadas com algum orgulho e muito respeito.

Numa conversa via Skype, nós no burgo ainda solarengo e ele na (eternamente) cinzenta Londres, tentámos esmiuçar-lhe a vida quase ao ponto do pormenor enquanto o víamos enrolar cigarros, uns atrás dos outros, despertando no corpo um vício que há muitos anos tinha ficado adormecido. Walter Benjamin apresenta no dia 2 de Fevereiro, no Musicbox Lisboa, “The Imaginary Life of Rosemary and Me”, na última sessão das “Noites da Rua”. Com ele vai estar a sua banda de sempre, João Correia & Nuno Lucas (Julie & The Carjackers), Francisca Cortesão (Minta) e Jakob Bazora.

A que se deve este estranho anonimato? Opção pessoal ou a verdade, nua e crua, é que simplesmente – e imerecidamente – não lhe têm dado muita atenção? “Um pouco das duas, mas a segunda opção será talvez a mais verdadeira. Para já, o nome que eu escolhi não é muito fácil de identificar, exactamente pela mistura que há com o verdadeiro Walter Benjamin. Por outro, não é que eu tenha feito muitas coisas ultimamente, por isso tudo o que ficou para trás tem o ar de estar um pouco perdido”.

Atentemos no nome. Para quem esteja ligado a essa vida dos livros e do pensamento livre, Walter Benjamin é nome de filósofo que evoca uma crítica desencantada ao progresso e à cultura orientada para as massas. Como se terá lembrado Luís Nunes de escolher o nome de Walter Benjamin para alter-ego? “Aconteceu numa aula da faculdade em que se estava a falar dele, e na altura não fazia a menor ideia de quem era. Lembro-me de ter pensado “olha que giro este nome” – o que é um bocado triste e ao mesmo tempo cómico. Nesse mesmo dia aconteceu uma coisa gira – não estou a inventar! Fui a uma feira literária e o primeiro livro que descobri foi “O Passageiro Walter Benjamin” (de Ricardo Gaviria), basicamente a recriação da última noite que ele passou na fronteira entre França e Espanha. Comprei logo, achei que era um sinal. E o nome ficou”.

Quando o liceu chegou ao fim, Walter fez aquilo que normalmente qualquer jovem faz. Escolheu um curso que o levasse até à boa vida da universidade e que mais tarde o pudesse tirar de apuros no caso da vida paralela não ser profícua ao sustento. No seu caso a escolha recaiu na Antropologia: “Apetecia-me estudar e a Antropologia foi algo que me interessou bastante na altura. Foi muito importante na minha vida apesar de não ter tido sequência em termos profissionais. Até porque não me considero um antropólogo, nem sequer me lembro de metade das coisas”.

Já a música, essa, esteve sempre presente na sua vida e formação. Aos 6 anos, graças a uma (boa) obrigação maternal, começou por arranhar as cordas de um violino seguindo a via da escola clássica, mudando para o piano quando chegou aos 14. Sempre tocou e integrou bandas, desde os Goodbye Toulouse aos Jesus The Misunderstood. Depois de terminada a licenciatura em Antropologia decidiu rumar a terras de sua majestade e investir numa das suas grandes paixões: a produção musical. Antes de partir tinha já editado um EP – “The dog follows the bull” – e um LP – The National Crisis” – pela merzbau, que mostraram que um compositor de excelência iria um dia dar à costa na Lusitânia.

Paper boats by Walter Benjamin

É uma história à moda de Romeu e Julieta, mas aqui as duas facções complementam-se em vez de se apunhalarem até à morte. De um lado temos Walter Benjamin músico – a solo ou em projectos como Goodbye Toulouse ou os prometedores Jesus the Misunderstood –, do outro Luís Walter Benjamin Nunes produtor – Márcia, B Fachada – ou misturador – You Can´t Win Charlie Brown. Haverá preferência? “Gosto das duas coisas. Aliás, pode dizer-se que o Walter Benjamin apareceu quando estava nos Jesus The Misunderstood e senti uma necessidade de colaborar fora desse círculo – não exclusivamente fora porque continuava a colaborar com eles e o Manuel Dordio, o guitarrista, continuava a tocar comigo ao vivo. Sinto que há uma extensão da carreira de músico para a “carreira” de produtor”.

Nesta fase da conversa Walter Benjamin pede para voltarmos ao início e acrescentar mais um apontamento sobre a questão do anonimato: “Acho que esta é a primeira entrevista que eu dou a sério (risos). Em Portugal não há muito espaço para pessoas que dedicam a maior parte do seu tempo ao campo da produção. Em verdade fiz mais trabalho nessa área do que enquanto músico”.

Aproveitamos a deixa para lhe relembrar o desaparecimento dos Jesus The Misunderstood, uma banda que foi uma promessa indie nunca cumprida: “Somos os melhores amigos, mesmo, tocamos uns com os outros regularmente o que acaba por ser muito cómico. Deixámos de tocar enquanto Jesus quando eu vim para Londres e o Manuel foi viver para Berlim. Oficialmente a banda não acabou, aliás posso dizer que temos um disco para terminar e que estamos sempre a dizer entre nós que o vamos mesmo acabar. Mas para o fazer teria de estar a viver em Portugal, pelo menos de forma sistemática para podermos tocar ao vivo”.

Pensamento que, em boa verdade, iria contrariar a directiva governamental de há poucas semanas que, em termos genéricos, aconselhou os jovens a fazerem~se à estrada da emigração como a Linda de Suza, enfiando todos os seus pertences numa valise de cartão. O que diz alguém como Walter que já se encontra do lado de fora? “Nos próximos tempos vou ficar por aqui. Em relação a esta questão levantada pelo Estado português, de aconselhar alguém a sair, talvez fosse bom alguém aconselhar o Estado português a sair de Portugal. Enquanto português sinto-me defraudado, Lisboa é a minha cidade e neste momento da minha vida gostava de estar lá a viver. Mas, de facto, a forma como as coisas acontecem em Portugal faz com que não haja hipótese alguma de os jovens mostrarem trabalho em qualquer área, de poderem crescer, fazer coisas, apostarem na exportação. Porque é que a música portuguesa não se exporta? Se calhar porque as coisas estão mal organizadas – aqui não só por culpa do governos e das organizações mas também por culpa das pessoas. A própria forma como a cena musical se organiza – como te consegues expor, como a tua imagem passa cá para fora, a atenção que é dada aos músicos – é muito pouco clara”.

E em terras de sua majestade, país de bandas intermináveis e mais estilos musicais do que o número de penteados que o Miguel Veloso usou enquanto andou a vestir riscas verdes e brancas na horizontal, como foi recebida a música de Walter Benjamin? “Aqui sinto as coisas de maneira diferente, e apenas comecei a tocar há pouco tempo. Se deres um concerto e as pessoas gostarem de ti vão chamar-te outra vez, vão-se interessar, e também há mais sítios onde podes tocar – está tudo mais organizado, e é uma pena que isso não aconteça em Portugal. E isso é uma lição que se calhar todos nós, que trabalhamos na área da música, deveríamos tirar de países que exportam e produzem muita e boa música”.

Num período de crise financeira, acompanhado por um progresso musical como nunca antes se viu cá na Lusitânia, talvez este seja o momento para se apostar a sério na exportação da música nacional: “Os You Can´t Win Charlie Brown tocaram aqui em Londres umas quantas vezes; o concerto que vi deles foi fenomenal, e achei que as pessoas estavam absolutamente dispostas a ouvir aquilo. Não há nenhuma razão para que uma banda como os YCWCB não possa vingar aqui”.

E como terá sido para um jovem como Walter Benjamin conciliar os estudos, a música e o apelo à má vida numa cidade tão tentadora e desviante como Londres? “Foi mais conciliar a música com os estudos, na verdade a má vida foi eliminada pelo facto de não ter muito dinheiro (risos). Obviamente tive alguns momentos de má vida, mas acabou por ser uma conciliação muito pacífica. Dormi muito pouco. E bebi muito café. Talvez seja esse o segredo”.

Um dos períodos mais difíceis terá acontecido durante a gravação de “Dá”, o disco de Márcia que se revelou um dos grandes musicais com o selo nacional inventados no ano de 2010: uma voz sensual, letras que nos fazem ter orgulho na mãe pátria linguística e que, para quem tem acompanhado o trabalho de produção de Luis Walter Benjamin Nunes, revela as suas impressões digitais em praticamente todas as faixas. “Isso é um bocado a história do disco. Ela viu um concerto meu e a seguir mandou-me um e-mail. Sabia quem ela era de nome e também já tinha ouvido algumas coisas suas, mas o e-mail perguntava se eu queria fazer uns arranjos para o disco que iria lançar. Foi assim que a coisa começou, mais pela área dos arranjos do que propriamente pela produção. A Márcia mandou-me umas quantas músicas em que a base era só guitarra e voz e mais tarde mandei-lhe a primeira versão do tema «O Segredo» com todos os arranjos – guardei a guitarra e a voz dela, toquei tudo outra vez, pus as coisas mais ou menos como ficaram no disco e ela cantou por cima. Foi um disco que me chegou às mãos muito em bruto, adorei trabalhar nele. Assumidamente a Márcia queria ser a escritora das canções, e pretendia ter alguém que a ajudasse a lhes dar forma. Não queria repetir o mesmo disco que tinha feito, só com guitarra e voz, o que muita gente lamenta (risos)”.

Estaremos assim diante de algo a que poderemos chamar “o som de Walter Benjamin”, de um toque inspirado em Midas? “Não sei se será Walter Benjamin ou todas as coisas que eu vou pilhando por aí (risos)”.

Decidimos regressar a “The National Crisis”, o primeiro longa duração de 2008, para lhe perguntar o que mudaria no disco agora que é um produtor devidamente licenciado. “Mudaria tudo, hoje em dia já não consigo ouvir esse disco. Na altura foi muito importante para mim, por ter sido o primeiro disco que fiz e onde me aventurei mais na área da produção, mas se fosse hoje mudaria tudo porque soa muito mal (risos), soa mal para caraças (risos). Está mal misturado, está mal cantado, mas apesar de tudo… Quer dizer, não posso rescrever a história, na altura fiquei satisfeito com ele. É como se fosse um conjunto de demos, talvez habite aqui o pré Walter Benjamin”.

Lembramos-lhe que o disco pode ainda ser descarregado gratuitamente no site da merzbau, a que nos responde: “Espero que as pessoas não o vão buscar (risos). Estou a brincar, há músicas de que gosto mais do que outras. É um disco muito incoerente. É cómico porque me lembro que ler algumas críticas positivas ao disco, mas houve uma – da Time Out – não muito simpática, que dizia que o disco era extremamente aborrecido, que eu decidi colocar em destaque no meu myspace de então a abrir a área dedicada às notas de imprensa”.

Tempo então para saltar até 2011 e falarmos do novo disco que está a ser ultimado e que deverá chegar às lojas em Março, depois de uma previsão em falso para o mês corrente. “É um disco muito coerente a nível sónico. O que também é uma coisa má porque eu gosto de discos incoerentes, de coisas que de repente mudam completamente em termos musicais”.

Atiramos-lhe algo como isto: por aquilo que já ouvimos da nova rodela é como se Leonard Cohen se tivesse apaixonado pela bossa nova enquanto revisitava a carreira dos Beatles. (risos) “Pode ser, pode ser. Curiosamente estou muito entusiasmado porque hoje o meu flatmate trouxe cá a sobrinha do George Harrison, estive on fire esta tarde (risos). O novo disco tem uma história engraçada ao nível da gravação, porque o núcleo foi gravado em quatro dias. Representa uma história contínua, do princípio ao fim. É um bocado como um livro e provavelmente será a coisa mais pessoal que fiz. Acho não, tenho a certeza. A ideia inicial que eu tinha é um bocado lunática, até parva, que era quase fazer um “National Skyline” à Dylan: quatro dias no estúdio e gravar o disco inteiro. O que acabou por não acontecer, porque o disco ainda nem sequer está acabado”.

E que histórias estão escondidas no novo trabalho? “Acho que as pessoas têm elas próprias de ouvir o disco para criarem elas próprias uma história. Mas acho que é um disco bastante triste, com boas canções. Muito denso ao nível da escrita das canções, pelo menos eu sinto-o assim talvez por ser tão pessoal. Por outro lado é um disco que gravei com amigos, com os músicos com que toquei imenso tempo ao vivo. Deixa-me satisfeito mas não sei se as pessoas vão gostar dele. Talvez não seja muito fácil de ouvir. Mas também não é demasiado grande (risos).

Walter Benjamin parece conseguir alhear-se do habitual frenesim londrino que, a cada dia que passa, descobre a next big thing, conferindo a cada disco um curto prazo de duração que se esgota em poucos dias ou semanas (se chegar a tanto). “Devem haver discos inacreditáveis que passam ao lado de todas as pessoas. Ainda hoje comecei o dia com o “Pet Sounds”, um disco que ouço regularmente. Apesar de ser uma pessoa relativamente nova – sou da geração mp3 – uma das coisas que me ficou de pequenino foi essa vontade de ouvir os discos muitas vezes, e isso faz com que tu não consigas absorver tanta música como gostavas. Não sei se será ou não um handicap, mas a verdade é que eu nunca segui a música em directo, ou seja, houve muitos álbuns que descobri, de bandas relativamente novas, muito depois de terem saído. Tenho um bocado de dificuldade em seguir as coisas em directo, porque gosto de ouvir música não metodicamente mas consoante aquilo que me apetece em determinado momento. Não ando sempre, sempre, a descobrir música nova. O que tento fazer é descobrir música e depois manter-me fiel a ela, ou seja, saborear os discos. Gosto de os ouvir repetidamente, e há músicas que eu ouço em repeat – gosto muito daquela coisa dos singles que as pessoas às vezes não gostam. Um disco é uma coisa tão densa que se tu ouves apenas uma vez ou duas vezes não consegues absorver realmente as coisas”.

Arriscamos uma previsão à moda de Zandinga. 2012 será um ano em grande para Walter Benjamin. Em Março chega às lojas o longa-duração mas, antes disso, a 2 de Fevereiro, está já marcado um concerto no Musicbox que servirá de pré-lançamento, e que conta com o carimbo da Rua de Baixo, para encerrar em grande as “Noites da Rua”.

Nesse concerto Walter vai ter a companhia de Jakob Bazora, músico com quem anda a gravar registos muito diferentes do novo. “O resto vai ser o pessoal que tocava comigo, por isso acho que vai ser um concerto interessante. Estou muito entusiasmado”.

Se pesquisarmos no youtube por vídeos de Walter Benjamin – o músico, não o filósofo –, pouco mais encontraremos do que o registo de uma visita ao programa de João Baião – o “momento Top of The Pops” segundo Walter – e uma sessão, com um som muito manhoso, gravada na Estrela. Em comum encontramos um núcleo musical que quase chega a parecer uma pequena família. “O Joca é uma das melhores pessoas do mundo, temos uma relação óptima. Para além de ser um grande, grande, baterista. O Nuno Lucas é uma pessoa tão especial que é impossível não tocar com ele. O Manel Dordio é um grande guitarrista, mas agora mora em Berlim portanto será difícil tocar com ele nessa altura. Ainda há muita coisa por fechar, Walter Benjamin é uma coisa um bocado punk no sentido em que está sempre tudo em aberto: tudo pode acontecer. Andamos um pouco ao sabor da maré e da circunstância.”

As “Noites da Rua” contam com o apoio da Lacoste L!VE. A entrada vale 6€, com oferta de uma bebida e pode ser adquirida na blueticket, FNAC e locais habituais.



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