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Igreja de St. Saviours

Em Inglaterra, Stefan Boublil provoca cisma com remodelação inesperada de uma Igreja.

Na sequência de um primeiro artigo onde abordei o estúdio nova-iorquino The Apartment, gostaria de vos apresentar um outro projecto da sua autoria e que merece igualmente destaque. A minha opção por este tema recai em particular sobre um dilema recorrente na nossa sociedade e que é caracterizado pelo conservadorismo repreensivo face à emergente cultura das novas gerações que, queiramos ou não, terá a sua própria forma de julgar o que é correcto e que cultivará, se assim a liberdade de expressão o permitir, uma eventual reinterpretação da história.

Trago-vos o projecto de remodelação parcial da Igreja Anglicana de St. Saviours, do século XVIII, situada em Londres, Inglaterra.

Na realidade e a meu ver, o interesse deste projecto não assenta somente no tratamento formal da decoração propriamente dito, mas sim na possibilidade de intervenção num espaço denominado sagrado e que, à semelhança de outros terá sido vendido parcialmente a particulares com o intuito de se reverter em receita monetária. Esta é uma medida adoptada pela Igreja no sentido de contrabalançar a fraca adesão das classes etárias mais novas e a perda de seguidores que lentamente se acentua no Reino Unido.

O trabalho de remodelação realizado pela equipa liderada por Stefan Boublil terá de ser referido como um exemplo de boa prática, tanto ao nível conceptual como da materialização. A intenção de não ofuscar a identidade estética e complexa da igreja faz-se notar na sobriedade do projecto, mas há um detalhe essencial que evidencia um contraponto perfeito entre o espaço a intervir e o resultado final, que é a ligação entre a gama de cores de um vitral e a gama de cores propostas para cada uma das divisões.

Atrevo-me até a classificar este trabalho de decoração como uma extrusão do espectro cromático do vitral, espelhado de forma controlada na escolha do mobiliário e na diversidade controlada dos demais revestimentos. O que quero dizer com esta afirmação, num tom de análise absolutamente romântico, é que será possível ao habitante desta casa sentir-se imergido num autêntico vitral.

Do ponto de vista da execução, este trabalho também é autêntico. Sabemos que um bom designer é aquele que prima pela materialização e que garante um nível de acabamentos excelente e digno de representar as suas ideias e conceitos, tanto quanto a sua liberdade em cada trabalho o permite. E assim acontece neste trabalho. Com todos os detalhes tidos em conta, a equipa do estúdio The Apartment revela o seu interesse em provar a qualidade do seu trabalho e revela-nos uma preocupação pela idoneidade desta requalificação.

O tratamento dado às estruturas pré-existentes atribui ao projecto uma óptima classificação demonstrando um respeito inequívoco pela identidade do edifício. Por outro lado, a utilização de linhas modernas num espaço claramente arcaico poderá ser traiçoeira, mas neste caso a mestria dos intervenientes permitiu gerar um ambiente confortável e quente,  ainda que constantemente assombrado pela amplitude das divisões. Este efeito consegue-se, por exemplo, ao colocar um lustre volumoso suspenso a uma altura baixa numa área que tenha um pé direito muito alto.

Para finalizar, volto à questão inicial deste artigo e ao que me levou a escrever sobre este tema, tendo referido a reinterpretação do passado pelas gerações futuras. Como é do conhecimento de todos, vivemos num país altamente conservador e ainda muito crítico quanto a certas inovações. Contudo, gostaria de lançar a reflexão sobre o quanto pesa a subversão de espaços e qual a sua verdadeira praticabilidade em Portugal, sendo que temos tantos e tão bons edifícios carenciados de remodelação lançados ao abandono. E os limites destas intervenções? Será que, em vez de uma habitação, esta ou outra qualquer igreja se poderiam transformar numa discoteca, num restaurante ou num escritório? Será mais importante e respeitoso pintar uma igreja com séculos de existência toda de vermelho ou deixá-la cair intacta por falta de capacidade de manutenção?



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