Ilha dos Cães

“Ilha dos Cães” de Wes Anderson

Subarashii!!

Wes Anderson é um dos meus cineastas preferidos.

A forma de ele contar uma história está na linha que separa o adulto do infantil, pois os dramas são sempre resolvidos com uma cândida simplicidade. São povoadas por personagens-tipo cómico-trágicas que se movimentam em cenários a fazer lembrar maquetes de arquitectos. A sua forma de filmar, quase unidimensional, acentua esta estética que trás lembranças dos filmes mudos, em que ao actor era solicitado uma expressão mais física que emotiva. A música de Alexandre Desplat ajuda a consolidar estes universos repletos de pormenor e cor.

É dos poucos cineastas que ainda apresenta filmes de animação de volumes, ou animação stop-motion. Se pensarmos neste género, que nasceu no final do século XIX, encontramos alguns filmes de culto como “O Estranho Mundo de Jack” de 1993 de Henry Selick ou “A Noiva Cadáver” de 2005 de Tim Burton, e alguns êxitos de bilheteira como “A Fuga das Galinhas” de 2000 de Peter Lord e Nick Park. Nos últimos anos a animação de volumes tem vindo a perder algum terreno para os filmes de animação digital, talvez porque os tempos de produção são mais curtos e por isso menos dispendiosos.

reúne todos os predicados andersonianos

Wes Anderson em 2009, escreveu e realizou “O Fantástico Senhor Raposo”, baseado no livro infantil de Roald Dahl, com a voz de George Clooney a dar vida a uma raposa pai de família que tenta deixar a vida do crime. A crítica recebeu-o com entusiasmo e obteve nomeações para os principais prémios da indústria cinematográfica.

Passados nove anos Anderson apresenta “Ilha dos Cães”, rodeado de uma expectativa ainda maior por parte dos críticos e dos fãs. A estreia foi em Fevereiro, no Festival de Berlim, e entre 23 de Março e 8 de Abril os cenários e personagens estiveram em exposição em Londres, tendo sido visitados por mais de 40.000 pessoas.

A acção da “Ilha dos Cães” tem lugar no futuro, numa cidade do Japão, Megasaki. Encontramos todos os pormenores da cultura japonesa, uma equipa de baseball a comer num restaurantes de rua, templos xintoístas, até um palácio ao estilo imperial. Em Megasaki está em curso um surto de gripe canina, para travar o descontrolo, o Mayor Kobayashi (Kunichi Nomura), descente de uma família adoradora de gatos, decide banir todos os cães para uma ilha que serve de lixeira. Um dia, Atari (Koyu Rankin), sobrinho do presidente da Câmara, inconformado com a situação, voa até à ilha para salvar o seu cão Spots (Liev Schreiber). Atari vai conhecer os “cães alfa indestrutíveis” Chief (Bryan Cranston), Rex (Edward Norton), King (Bob Balaban), Boss (Bill Murray) e Duke (Jeff Goldblum) que o vão ajudar a resgatar Spots e a resolver esta conspiração contra os cães.

Em termos de argumento, tal como “O Fantástico Senhor Raposo”, “Ilha dos Cães” é um filme virado para um público mais adulto do que jovem e reúne todos os predicados andersonianos. Dos meus favoritos são as narrações pormenorizadas e sistematizadas, brilhantemente ilustradas e legendadas, que nunca se apanham completamente à primeira… bem, eu tenho sempre de ver uma segunda vez.

a música de Alexandre Desplat ajuda a consolidar estes universos repletos de pormenor e cor

“Ilha dos Cães” ocupou durante dois anos o 3 Mills Studios em Londres, exigiu uma equipa de 670 pessoas, 27 animadores e 10 assistentes. Foram precisos 240 cenários, em que alguns só apareceram por 3 ou 4 segundos. Em termos de tamanho alguns chegaram a ter entre seis a oito metros de comprimento. Foram criados cerca de 1000 personagens e vários milhares de caras. Estamos a falar da manufactura de cada elemento que compõe cada cenário e cada personagem, por exemplo na Trash Island, cada pedaço de lixo foi desenhado e fabricado. Uma das minhas cenas preferidas é a da preparação de uma refeição de sushi, por causa da quantidade de movimentos das mãos e da articulação de inúmeras pequenas peças, como um mecanismo frágil e preciso.

Durante uma hora e quarenta minutos Wes Anderson deixa-nos viver daquelas aventuras que só podemos ter nos filmes. Que Anderson se conserve assim, enternecedor e complexo, fascinante e exímio.



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