Imagine Dragons @ Coliseu dos Recreios (11.06.2013)

Imagine Dragons @ Coliseu dos Recreios (11.06.2013)

Fragilidade comercial que se esconde na adolescente audiência

Surgidos emancipados pelo single «Radioactive», do álbum de estreia “Night Visions”, os Imagine Dragons demonstram, ao vivo, pela primeira vez em Portugal, o seu indie / pop / comércio. Autoproclamados alternativamente, na acepção rock, demonstram-se divididos, estranha e paradoxalmente divididos entre a exclusividade inerente ao rótulo inconformado do músico que música faz e entre a brutalidade da dose, da fase surrealmente instigada ao rebanho.

De facto, demonstra-se a pretensão de uma jovem banda querer fundir, esmurrando os elementos, duas contradições; a pretensão que, embora incólume, se revela um torpe torpor. Assim sendo, a música sairá transfigurada em momentos ora merecedores do potencial da banda, ora desconfortáveis versos e acordes vendidos à sociedade; uma sonoridade de enfermos contrastes.

Abriram-se as hostes: «Cavaliers of Fun», perante o Coliseu de Lisboa, afirmam o seu indie electro de texturas traçadas a carvão, pintadas pela gris densidade: de leve efervescência, de pontos altos cálidos, a atmosfera assemelhava-se, em parte, à envolvência dos Imagine Dragons; analisando, claro está, em estúdio.

O público, expectante, sensivelmente efusivo, apertava o Coliseu de Lisboa, transmutava murmúrios num ensurdecedor sussurro: explodiu. Dan entrou em palco e, rapidamente – e, para quem se mantinha objectivo, toda a denotação sonora e anatómica mostrou-se irracional – as paredes vibravam incessantemente, sem música, sem nada.

Tomados levemente por sonoridades semelhantes a The Maccabees, os Imagine Dragons assumiram uma das opções da dualidade inicial, e se é impossível aplaudir a escolha, possível não é denegrir a coerência do plano, a consistência da decisão: foi, do princípio ao fim, uma cópia da versão de estúdio do primeiro trabalho que, se não se caracteriza pela exactidão, demonstra-se violentamente próxima. As inflexões tipicamente indie, embora que limitadas, das cordas tropeçavam tropicalmente nos desprezíveis refrões orelhudos – veja-se «Amsterdam»; mutações beneficiais foram raras.

Porém, transições houve que subtis se demonstraram: o low-burn prévio a «Tiptoe» revelou-se fluído, um pedaço de musicalidade que renegou a denegrida plastificação do som; doces transições que se desfiguravam em “improvisos”, em solos, duplos e triplos de tambores e baterias e baquetas que pecavam pela individualidade, pelo desenvolvimento, ricos em limitações; um martírio elíptico ecoando pela presunção comercial de «Hear Me», pela infantilidade de «Cha Ching».

Entretanto, as luzes, enterradas na penumbra cromática do violeta, do amarelo, do vermelho da volátil atmosfera da sonoridade da banda, iluminava a idolatração cega ao expansivo Dan, numa abordagem irreverente – entre chuveiros intermitentes, entre apelos e elogios à audiência -, inato esforço de proximidade com o público; «Radioactive» provocou eloquentes arrepios, não pelo estável arranjo sonoro mas pela consequência do mesmo: o ensurdecimento explosivo, a demonstração do fenónemo do trend ao vivo.

Pouco depois, «It’s Time» seguiu «On Top Of The World», num crescendo emotivo dos fãs, na resposta entusiástica da banda, “Coliseum was crumbling!”, e a cúpula vislumbrava a lotação esgotada em êxtase constante, prosseguindo pelos apelos ao encore, pela satisfação geral, pela franca «Nothing Left To Say», pelo culminar de mais uma severa percussão improvisada, de conformes únicos na atuação, de inebriante noise intuito.

«Narrow», restrito. Uma performance predestinada, é certo, pela condição própria da banda, pelas paradoxais características a que se vendeu, que pouco ou nada surpreendeu, desenvolta nas suas limitações. No entanto, uma festa. Uma festa para as massas, afunilada pelo rótulo da banda, concessionando, enfim, o easy-listening que procura ser exclusivo; a fragilidade comercial que se esconde na adolescente audiência.

Fotografia por José Eduardo Real



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