IMAGO 2006

A reportagem ou Como vieram cá os El Perro Del Mar e pouca gente deu por isso.

O FUNDÃO E O IMAGO:

Normalmente conhecida por ser uma espécie de capital nacional da cereja, de há sete anos para cá que a cidade do Fundão se tem colocado no mapa por outra razão: o IMAGO, Festival Internacional de Cinema Jovem.

Para quem tem acompanhado de perto, a evolução tem sido impressionante. Em sete anos, a expressão do festival aumentou a olhos vistos, tanto a nível nacional como internacional, conjugando na perfeição o melhor do cinema jovem que se faz pelo Mundo fora com as várias vertentes musicais. Este ano, durante uma semana, o Fundão transfigurou-se completamente, deixando de ser apenas (literalmente) uma rua (leia-se avenida), para se transformar numa autênica metrópole de cultura cinematográfica.

Para isto, muito contribui o salto decisivo que o festival deu este ano, colocando-se num nível qualitativo acima, com a inauguração da Antiga Moagem, para onde o certame se mudou de armas e bagagens – uma antiga fábrica reconvertida em edifício cultural, numa intervenção arquitectónica de excepção, que poderá muito bem tornar-se num futuro próximo, num ponto de paragem obrigatório para os estudantes de arquitectura. Agora, a partir daqui, o céu é o limite.

Dedicado à banda-desenhada, a edição deste ano do festival decidiu homenagear alguns dos mais importantes autores da actualidade: o ilustrador e realizador Dave McKean (que integrou o Júri Oficial), do qual foi apresentada uma retrospectiva, bem como a sua longa-metragem “MirrorMask”; e Alejandro Jodorowsky, profícuo argumentista chileno, cuja área de intervenção artística se estende ao teatro e ao cinema surrealista. Pelo Fundão foram exibidos alguns dos seus controversos filmes, como “El Topo”, “Fando Y Lis” e “Santa Sangre”. Desilusão só o facto de Jodorowsky ter cancelado a sua presença, depois de ter tudo acertado para vir integrar o Júri Oficial…

Ainda relacionado com a nona arte, destacou-se a projecção de “The Mindscape Of Alan Moore”, documentário sobre um dos mais importantes argumentistas de banda-desenhada da actualidade (responsável por best-sellers como “V For Vendetta” ou “Watchmen”), “Bunker Palace Hotel”, o primeiro (e melhor filme) de Enki Bilial e “Sword Of Vengeance”, um clássico do cinema de samurais, baseado na manga “Lonewolf And Cub”.

Os outros dois nomes homenagedos na edição deste ano do IMAGO foram Nicolas Provost, realizador belga eclético e experimental, cujo cinema de autor encontra familiaridades com o de Matthew Barney, por exemplo; e Clint Eastwood, que dispensa qualquer apresentação, que viu os seus primeiros anos de realizador revistos no grande ecrã, com “Play Misty For Me”, “High Plain Drifter” e “The Gauntlet”.

OS VENCEDORES:

O melhor indicador de qualidade de um festival de cinema este é a lista dos filmes em competição. E, neste ponto, podemos garantir que o IMAGO passou com distinção. Divididas em três secções competitivas – Secção Oficial, Doc In Shorts e Under 25 –, o IMAGO apresentou uma selecção do melhor cinema que se faz, actualmente, por todo o Mundo.

Dos vários premiados deste edição do IMAGO, dois destacaram-se claramente dos demais. O primeiro foi “Rabbit”, curta animada de Run Wrake, que foi distinguida com o prémio para Melhor Filme; e o segundo foi “Terra Incognita”, um falso documentário de Peter Volkart, que arrecadou o consenso do Júri Jovem. A Rua de Baixo faz a análise dos vencedores:

“Rabbit”, de Run Wrake (2005) – Secção Oficial, Melhor Filme

De todos os filmes que se viram em competição no IMAGO deste ano, “Rabbit” foi aquele que se destacou claramente. Não por os demais serem de qualidade inferior, mas antes por “Rabbit” ocupar um nível qualitativo superior.

“Rabbit” é uma curta-metragem do ilustrador inglês Run Wrake que recorre a uma colecção de cromos educacionais dos anos 50 (daquelas figuras bem características dos livros da primária, sempre acompanhadas da respectiva legenda) para criar um conto que é a antítese de tudo o que é infantil – imoral e extremamente cruel.

Quer dizer, não é que seja imoral, porque no fundo tudo aquilo acaba por ser uma fábula acerca de um dos mais codnenáveis pecados mortais – a luxúria. Mas ver uma animação daquelas em que duas crianças matam animais indiscriminadamente à paulada, apenas pela cobiça do dinheiro, é algo que não estamos habituados a ver.

“Rabbit” é uma animação fantástica e que pode ser vista recorrendo ao maravilhoso mundo que é o youtube. Basta seguir este link – .

“Terra Incognita”, de Peter Volkart (2005) – Prémio Júri Jovem e Prémio Onda Curta

Raymond Roussel foi um profícuo novelista, poeta, músico, pintor, lunático, viciado em drogas e com tendências suicidas do movimento surrealista francês. A sua obra fundiu na perfeição o mais abstracto surrealismo com a faceta romântica inglesa, criando um universo muito próprio, que fez as delícias dos seus contemporâneos Marcel Duchamp ou Michel Leiris.

“Terra Incognita” é a melhor homenagem que se podia ter feito a Roussel. Realizado pelo suiço Peter Volkart, “Terra Incognita” é um falso documentário que se centra sob um famoso patafísico (pormenor delicioso) que procura descobrir uma ilha onde não há gravidade. Para isso, Volkart recorre a recortes e frames de alguns dos maiores clássicos do cinema fantástico (alguém mencionou “Parada De Monstros” ou “20 000 Léguas Submarinas”?) para contar esta empresa épica, fundida com um humor absurdo e delicioso, metade Monty Phytons, metade “Onde Pára A Polícia”, metade Rua Sésamo (eu sei que não podem haver três metades, mas não quero saber).

“Morrer”, de Diogo Camões (2005) – Melhor Filme Nacional Under 25

A concorrência nacional era forte. No lote dos favoritos estava “Rapace”, de João Nicolau”, e “História Trágica Com Final Feliz”, de Regina Pessoa, duas curtas já com um palmarés de respeito. No entanto, o vencedor acabou por ser “Morrer”, um projecto escolar do estudante de cinema Diogo Camões.

“Morrer” foi a grande sensação do IMAGO deste ano. Apesar de inserida na secção Under 25, “Morrer” é um documentário sobre o último estádio do ser humano – a morte. E esta continua a ser um tema tabu na sociedade ocidental, truncada por várias barreiras e proibições morais.

Diogo Camões ultrapassa estas limitações com mestria, descobrindo os segredos das morgues, das salas dos médicos legistas e das funerárias com um realismo seco e directo, mas sem nunca cair no sensacionalismo fácil. “Morrer” é ainda uma bofetada de luva branca a todos aqueles que dizem que não há meios para filmar em Portugal; Diogo Camões prova que para fazer um grande filme basta apenas um boa ideia e muita força de vontade.

Podem ficar a saber ainda mais sobre este filme e o seu realizador nesta edição da Rua de Baixo, onde entrevistámos Diogo Camões.

“The Kiss”, de Tomas Waszarow (2005) – Competição Oficial, Prémio do Júri

1 minuto! Um-1-um minuto apenas é a duração de “The Kiss”, curta-metragem do búlgaro Tomas Waszarow que arrecadou o Prémio do Júri.

Se em “Morrer” Diogo Camões provava que apenas é preciso uma boa ideia e muita força de vontade para realizar um grande filme, em “The Kiss”, Tomas Waszarow prova que basta apenas uma boa ideia.

Como o título indica, esta é a história de um beijo muito especial, um beijo extremamente romântico e sensual entre uma mulher e um homem. Mas… nem tudo o que parece é, graças ao twist final. Tudo isto em apenas… 1 minuto! Exemplar.

SOUND AND VISION EXPERIENCE:

Uma das grandes valência do IMAGO é a relação promíscua que mantém com a música. E esta ganha total predominância da secção “Sound And Vision Experience”, onde alguns artistas conceituados do mundo da música actuam para o público jovem que frequenta o festival.

Na edição este ano do certame, a música electrónica ganhou predominância, graças à presença do norte-americano Helios e o inglês David Holmes. No entanto, o grande momento da semana de festival foi o concerto da sueca El Perro Del Mar, responsável por um dos melhores discos deste ano, e que passou pelo palco do Fundão quase sem ninguém dar por isso.

Apesar de ter sido acompanhada em palco por dois guitarristas, a sueca Sarah Assbring faz questão de manter o nome El Perro Del Mar como um projecto a solo, de forma a não se manter dependente de uma banda. É também o lado pouco social de Sarah Assbring a falar, ela que já confessou que não gosta de dar concertos, nem de grandes multidões.

Todo esse universo reflecte-se no universo musical de El Perro Del Mar, um esqueleto de canções pop despidas até à sua forma mais pura, próximas do universo musical de umas CocoRosie, por exemplo, apoiando-se sobretudo na voz límpida de Sarah Assbring.

No Fundão, pedia-se mais música no palco e menos ruído de fundo. No entanto, uma assistência pouco educada obrigava-nos a estarmos bem perto do palco, ou então teríamos de estar a aturar prima-donas que tentavam disfarçar as rugas da meia-idade por baixo de quilos de maquilhagem enquanto se pavoneavam perante os rapazes mais novos, jovens embriagados que procuravam realçar em voz (muito) alta os atributos físicos da cantora sueca, ou grupos de operários claramente deslocados do seu ambiente natural.

Para os que conseguiram ficar nas primeiras filas, puderam assistir a um belo concerto, apesar de toda a timidez da banda que, curiosamente, perde bastante ao vivo, talvez por se dispersar pelos dois guitarristas presentes. Quanto aos outros ficaram a saber que mulheres solteiras de meia-idade com álcool a mais no sangue apreciam particularmente rapazes mais novos.



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