“Índice Médio de Felicidade” | David Machado

“Índice Médio de Felicidade” | David Machado

A equação matemática da satisfação individual

Até que ponto um homem, dito normal, consegue preservar o seu otimismo? Até quando alguém que perde o emprego, vê a família afastar-se e os amigos alheados da realidade quotidiana por questões diversas tem vontade de acreditar que existe um futuro? Será a felicidade um valor resultante de uma equação matemática?

Estas são algumas das perguntas que Daniel, o principal personagem de “Índice Médio de Felicidade” (D. Quixote, 2013) – o terceiro romance de David Machado – encara numa das piores fases da sua vida. A depressão que envolve o Portugal de hoje arrasta consigo pessoas, instituições e sintomas de esperança para um vácuo contra o qual alguns teimam em resistir, contra todas as expectativas.

Depois das desventuras de um colossal contador de estórias em “O Fabuloso Teatro do Gigante” e a seguir do conflito geracional da memória em “Deixem Falar as Pedras”, o ex-economista David Machado entrega-se de corpo e alma a “Índice Médio de Felicidade”, que ameaça ser um dos mais bem conseguidos e pertinentes livros deste ano.

Esta é uma das estória possíveis de um país economicamente cinzento e com um futuro repleto de incertezas mas que encontra improváveis heróis. Daniel é um deles. Sem trabalho, sente na pele o vazio da ausência da família – entretanto migrada – e vê os melhores amigos longe. Se um, Almodôvar, está preso por assalto, o outro, Xavier, escolheu outra forma de isolamento e barricou-se em casa depois do insucesso de um sítio na internet cujo objetivo era a entreajuda e solidariedade.

O homem que tinha um plano de futuro de vida em forma de diário vê-se obrigado a rever as entrelinhas do mesmo bem como a sua noção de felicidade. Para além da busca desenfreada por emprego, Daniel tem outras preocupações em mente pois, apesar de sentir a vida interrompida, acredita na salvação ainda que a maior interrogação esteja intimamente ligada com as gerações que se avizinham – nomeadamente no que toca ao futuro dos seus filhos.

Alicerçado numa invulgar espécie de humor e capacidade genial de escrita, “Índice Médio de Felicidade” transporta o leitor para uma dimensão perto da realidade de um país mas mantendo uma ténue e decisiva linha que marca a fronteira entre a racionalidade e o desespero, entre a procura e a desistência, entre a vida e o estado moribundo.

A noção de felicidade é algo que muda com a vida e, o trajeto labiríntico que certos percalços proporcionam, pode fazer rever dogmas e noções “básicas” de sobrevivência. São esses os difíceis dilemas que Daniel tem de enfrentar. A resolução de um acontecimento pode, por vezes, condicionar outro e é nesse intrincado joga da vida que surgem as alterações aos felizes diários por nós imaginados.

Tendo em conta este (maravilhoso) livro, e tomando por exemplo o escrutínio matemático da sua maturação de plenitude da satisfação pessoal, não estamos a cair no exagero ao afirmar que a arte de David Machado roça o topo dessa tabela. “Índice Médio de Felicidade” não é apenas uma obra obrigatória como também um dos melhores exercícios narrativos de alguém que consegue transformar a escrita em esperança e as palavras em futuro.



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