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Indie: O Mito

Ouve-se por todo o lado, mas já ninguém sabe o que significa: o que é o Indie e porque é que, ao que parece, o são tantas das bandas actualmente em actividade? Artigo com opiniões de Vincent Moon, Mogwai e The National.

“Não uso a palavra Indie. Não faço ideia do que significa e não me interessa. O que é isso? Música independente? Isso não é um género, o que é isso? Música feita por gente independente? É ridículo, não existe”

Vincent Moon, o conhecido cineasta musical responsável por grande parte dos vídeos da Blogotheque (blogue onde músicos de todos os tipos, desde Tom Jones aos Yo La Tengo, são filmados a tocar em contextos mais… informais), um documentário sobre os The National e um filme ao vivo dos Mogwai a ser lançado este ano, fala-me através do Skype num Domingo solarengo. “Está um lindo Domingo em Paris, estou simplesmente por aqui a trabalhar no PC. É agradável”. Foi a última entrevista que fiz para o artigo, depois de ter falado com Bryan Devendorf, baterista dos The National, e Stuart Braithwaite, guitarrista dos Mogwai, e após estas três entrevistas, a citação com que começo este artigo parece ser, realmente, a mais pura das verdades: ninguém fez ideia do que raio significa Indie, nem porque é que a palavra é hoje em dia tão usada de forma igualmente tão vaga. Ou antes, temos todos nós a nossa própria definição pessoal do que é a música Indie e do que lhe associamos; uma definição geral e objectiva é, por seu lado, impossível.

A fronteira anteriormente existente entre o que é Indie e o que é mainstream (termo perigoso e duvidável, mas para aqui é a melhor opção) desvaneceu-se e, ao que parece, agora tudo é Indie para toda a gente. Através de uma sondagem, perguntei a dezenas de amantes de música qual a banda que lhes vem à cabeça quando pensam no termo Indie, e os resultados foram chocantes: não havia qualquer tipo de uniformidade nas respostas. As respostas iam desde os The Smith aos Pavement, desde os Godspeed You Black Emperor! aos She & Him, e desde os The Strokes (o nome que mais surgiu) aos Radiohead. Se há nomes óbvios (The Smiths, Pavement…), há outros surpreendentes (Godspeed You Black Emperor!, por exemplo). Digo surpreendentes porque, em termos musicais, sempre associei o Indie a guitarradas dadas por jovens que cantavam sobre coisas banais com as quais nos relacionamos. Lembrava-me dos The Smiths, lembrava-me dos The Strokes, lembrava-me dos Velvet Revolver.  Jamais me lembraria de uma banda como os Godspeed You Black Emperor ou os Mogwai (nome que também surgiu), deuses absolutos do post-rock, conhecidos pelas suas longas canções instrumentais (forte característica do post-rock no geral). O que eu associo ao Indie não é o que muitos associam ao Indie; não há definição objectiva nem uniforme. O Indie é, hoje em dia, uma verdadeira mescla e o uso tão recorrente desta palavra é, hoje em dia, sintoma do mero desejo de categorizar a todo o custo.

A categorização impossível

“Quando começámos a banda, nunca tínhamos sequer ouvido o termo post-rock”, diz Braithwaite. “As bandas que nos influenciaram foram os My Bloody Valentine, Joy Division, The God Machine e os Sonic Youth. A razão pela qual ninguém canta nas nossas músicas é apenas porque nenhum de nós é muito bom cantor”. Braithwaite, acessível mas sério, não se rala minimamente nem com géneros nem com definições. Considera os Mogwai uma banda Indie apenas porque “Indie significa editora independente, e nós lançamos sempre a nossa música através duma editora independente”.

Aliás, a própria banda formou a sua editora: a Rock Action (“Gostávamos do nome”, diz-me ele), que se dedica não só aos Mogwai mas também a outras bandas como, por exemplo, os promissores Errors. A própria banda em si não se preocupa em encaixar num género e, segundo Braithwaite, a música sai da forma que tem de sair. Consideram-se uma banda Indie apenas pela forma como lançam os álbuns, não pela música que fazem.

Mas a verdade é que, ao pensar em Indie, cada um pensa numa banda que seja, para si, única. Apelidar uma banda de Indie é, hoje em dia, um elogio; o Indie Rock, como bem escreveu a Pitchfork, é ao que parece a escolha da nova geração de ouvintes. Quando um ouvinte diz “esta banda é Indie”, está na realidade a dizer “esta banda tem algo com o qual me relaciono”. Porque Indie é música independente; e todos nós queremos ser independentes. E diferentes.

“Por esta altura, dizer Indie é a mesma coisa que dizer Alternative”, diz Bryan Devendorf, baterista dos The National. Resposta curiosa do baterista daquela que é por muitos considerada uma das melhores bandas Indie actualmente em actividade.

Os The National foram dos mais referidos no pequeno questionário que realizei e a banda está, efectivamente, nas bocas do mundo. “Não somos famosos de forma alguma, apenas temos sorte em poder fazer o que queremos”, diz ainda assim o baterista. Se com “Alligator” a banda começou a ficar conhecida, foi indiscutivelmente com “Boxer”, álbum que constou em muitas listas de Melhores Álbuns de 2008, que a banda deu o salto.

Ao falar sobre “A Skin, A Night”, documentário que realizou sobre a banda durante a gravação de “Boxer”, Vincent Moon refere ele próprio que “o documentário estava pronto um ano antes de ser lançado e, durante esse intervalo de tempo, a banda do nada trasformou-se numa coisa enorme. Quando fiz o documentário, não estava preocupado com a banda em si, estava preocupado em fazer apenas uma exploração entre a música e o som. Se o fizesse hoje em dia, seria completamente diferente. Não gosto nada do resultado final”.

Tal como os Mogwai, os The National não se preocupam minimamente com o género em que encaixam ou não. “Gosto de pensar na nossa banda como uma ‘banda em trabalho’. Ou seja, continuamos a fazer o que fazemos – gravar, dar concertos, etc – sem nos preocuparmos com designações de formatos ou estilos”. A verdade é que, para todos os efeitos, os últimos três álbuns da banda foram bastante diferentes uns dos outros e Alligator, Boxer e High Violet são, de certa forma, uma trilogia. “’Re-invenção’ é talvez uma palavra demasiado forte para cobrir a trajectória descrita por Alligator, Boxer e High Violet. Tentamos não nos repetir mas também acho que estes três álbuns formam uma trilogia que, quando vista em conjunto, partilha temas, sons e ideias musicais semelhantes”. Os arranjos foram, gradualmente, tornando-se cada vez mais complexos e High Violet é, por si só, um álbum feito de geniais pormenores; o ouvinte é frequentemente arrebatado ao se aperceber das várias camadas sónicas existentes numa única música. Cada canção é, efectivamente, trabalhada até à exaustão, tornando a gravação de cada álbum uma difícil experiência; afinal de contas, a banda tem a reputação de ser perfeccionista. “Sim, a forma como gravamos pode ser muito difícil; fazemos imensas revisões e re-gravações. Além disso, escrevemos enquanto vamos gravando. Este álbum foi difícil de fazer mas, parafraseando o nosso co-produtor, Peter Katis, fazer arte é suposto ser difícil, doloroso até. É interessante que nos apelidem de perfeccionistas. Acho que somos obsessivos que nunca estão completamente satisfeitos com o que fazem”.

A música “Fake Empire” foi usada na campanha de Barack Obama e actualmente pode ouvir-se em alguns anúncios. “Mogwai Fear Satan”, canção épica dos Mogwai que encerra o primeiro álbum da banda (“foi um álbum muito difícil de fazer porque éramos muito novos, estávamos sob grande pressão para o fazer rapidamente e não tínhamos canções suficientes. Ou seja, foi uma experiência muito stressante”, diz Braithwaite), ouve-se agora na televisão num anúncio com Catarina Furtado.

A suposta música independente começa gradualmente a misturar-se com o suposto mainstream, algo que se tem verificado ao longo da última década. Afinal de contas, será que há alguns anos atrás um filme como os da saga Twilight teria na banda-sonora tais nomes como Radiohead, Bat for Lashes, ou Grizzly Bear? O filme, adorado pelas massas, tem uma banda-sonora que é, na sua maioria, constituída por canções de bandas consideradas do Indie ou do Alternative.

Se há alguns anos atrás dizer Indie significava Obscuro, hoje em dia não é disso que se trata. No referido questionário, muitos referiram os Radiohead; mas estes são actualmente uma banda que esgota estádios. Muitos mencionaram também os Muse, mas hoje em dia estes britânicos fazem digressões com os U2 e têm espectáculos de fazer inveja a algumas das maiores bandas do mundo. O Indie, hoje em dia, não é segredo nenhum.

Internet: When The Tigers Broke Free

A verdade é que o grande público adoptou o Indie, tal como o fizeram as grandes editoras. Com o surgimento da Internet, bandas anteriormente desconhecidas puderam tornar-se facilmente acessíveis ao grande público (veja-se o caso dos Arctic Monkeys, por exemplo), e toda a forma como a música é feita ou distribuída mudou. As editoras, portanto, entraram em colapso.

Vincent Moon fala disso, ao explicar a forma como se podem encontrar tantas bandas na Blogotheque. “Neste momento, as editoras, com o advento das novas tecnologias, estão simplesmente a passar-se e a tentar descobrir novas formas de vender a sua música. E então um dia ouvem falar dum novo projecto fixe que há na Internet e que as pessoas vêm, e ficam logo interessadas em colocar lá os seus artistas, quer sejam novos ou velhos. Com o Tom Jones foi assim; ficaram logo entusiasmados, quiseram logo que ele entrasse num destes vídeos, acharam que o ia fazer parecer fixe. Pessoalmente não me ralo nada com isso, mas basicamente temos muitas editoras que vêm ter connosco a pedir para trabalhar-mos com os seus grandes artistas e nós ficamos sempre numa de ‘A sério? Sim, isso era engraçado. Porque não?’.”

Moon é, como ele próprio diz, apenas “um tipo que adora música. Eu nem sequer ganho dinheiro nenhum com nada disto, apenas quero retratar as pessoas que adoro, mais nada.” Não se rala minimamente em ganhar dinheiro e quer, apenas, fazer aquilo de que gosta. A Internet pode ser uma ferramenta de marketing monumental, e é frequente que hoje em dia bandas, novas ou velhas, a usem para lançar álbuns de forma completamente gratuita. O caso mais falado é, porventura, o dos Radiohead, que lançaram “In Rainbows” pela Internet, dando a cada pessoa a opção de pagar o que quisesse pelo álbum.

“Os Radiohead experimentaram. Acho que foi muito esperto, muito inteligente o que fizeram, e que diz muito do mundo em que vivemos actualmente. Percebo as críticas que dizem que isto é perigoso para as outras bandas mas acho que, tendo em conta as novas tecnologias actualmente, era inevitável que isto acontecesse. A música está a mudar, e as pessoas simplesmente vão ter de começar a avançar em frente”, diz Moon. Já Braithwaite não critica, mas diz que “Pessoalmente não daria a nossa música de graça, mas não criticaria ninguém que fizesse isso. Afinal de contas, a música é deles por isso eles podem fazer o que querem”. Dizer que as bandas não se preocupam com o facto de o álbum vender ou não é pura ingenuidade; afinal de contas, é em concertos que ganham dinheiro, mas porque haveria uma editora de apostar na banda se os seus álbuns não vendem?

A Internet fez com que as editoras perdessem todo o monopólio que detinham. Para quê comprar álbuns, quando estes estão integralmente disponíveis na Internet de graça? A verdade é que qualquer verdadeiro amante de música acaba sempre por comprar um álbum de que goste realmente; In Rainbows esteve de graça disponível na Internet mas, quando foi lançado em formtao físico, foi um sucesso.

É no desejo de contrariar isto que as grandes editoras estão, hoje em dia, de olho aberto a qualquer oportunidade que lhes surja; algumas duram e conseguem manter a sua qualidade, outras não. Outras começam com um estilo rock e vão mudando para algo diferente, algo over-the-top que seja bom para tocar em estádios e afins; veja-se o caso dos The Killers ou dos Muse. Aliás, isto poderá ser chocante para alguns mas a verdade é que os U2 de há muitos anos atrás foram para a música da altura aquilo que os Arcade Fire são para a de agora…

Actualmente, a música é uma verdadeira indústria. Sempre foi, claro, mas hoje em dia o desespero por vender é maior que nunca. Com tantas bandas a surgir de forma tão rápida, ouvem-se frequentemente comentários como “não há nada original hoje em dia, tudo é cópia do que foi feito antes”.

“Não acho que seja nada assim, muito o contrário. Vêm-me muitas bandas à cabeça e só para dar um par de exemplos: tUnE-yArDs e Edward Sharpe… e há muitos, muitos mais”, diz Devendorf. E com toda a razão: existem bandas verdadeiramente únicas na música actual, de que muito provavelmente não ouviríamos falar se não fosse a Internet e, de certa forma, toda a crise que se vive actualmente. Afinal de contas, com a música  em tanta quantidade e de forma tão acessível, a busca por algo que soe verdadeiramente único e novo torna-se cada vez mais intensa.

Indie: Simplesmente Mito

Com a Internet, com todas estas mudanças, com todas estas bandas que surgem, e com o desejo frequente de categorizar, hoje em dia tudo parece ser Indie. Há o Indie-Rock, Indie-Punk, Indie-Metal… mas o que será afinal o Indie? O que significa essa palavra que aparece tanto nos artigos do Ípsilon e da Pitchfork?

A Wikipedia diz que Indie é música feita fora das grandes editoras. Terá havido uma altura em que esta definição era adequada, mas actualmente não corresponde à verdade. Indie associa-se a uma forma de fazer música, sim, mas também a um estilo musical. Associa-se a algo novo, algo único, algo que nos diga algo. Por isso é que hoje se pode encontrar um filme juvenil com música dos The National, por isso é que nos filmes da saga “Twilight” se associam a todas aquelas bandas: música Indie é música jovem (ou pelo menos que soa como tal) que supostamente “fala” aos ouvintes. Pelo menos será assim que as editoras pensam, daí o facto de tanto terem adoptado bandas que julgam enquadrar-se nesta categoria.

Indie é apenas um termo. Não significa nada a não ser uma tentativa de rotular. Dada a enorme quantidade de bandas (algumas tão iguais, outras tão diferentes), separar a música em categorias torna-se numa tarefa quase impossível. Nos dias que correm, um género musical é um conceito subjectivo; e o Indie é, portanto, uma palavra que significa algo diferente para cada um.

“É como uma t-shirt de tamanho médio… não é consistente. Acho que o que associaria ao termo Indie é música interessante e sem limites impostos”, diz Devendorf. Mas o que para um ouvinte é interessante e sem limites, não o será para outro. O Indie é, afinal, um termo que nada significa. Uma opinião. Não é consistente, não é objectivo, e não existe.

Talvez todas estas definições, todos estes géneros, sejam apenas formas de complicar o que é muito simples; talvez na realidade toda a música se divida apenas em duas grandes categorias: a boa e a má.

Fotografia de Marisa Cardoso



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