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IndieLisboa 2010

Antevisão do Festival de Cinema Independente que decorre em Lisboa de 22 de Abril a 2 de Maio.

O IndieLisboa mostra novamente este ano a sua importância como um dos melhores festivais de cinema em Portugal. Com 272 filmes em exibição pode haver margem para dúvidas, mas a RDB vai estar em cima do acontecimento com a cobertura do evento. Momento para fazer a antevisão do essencial deste festival de cinema independente, numa análise ao que se poderá ver em Lisboa de 22 de Abril a 2 de Maio.

Esta é a sétima edição do festival de cinema que ocupa Lisboa durante onze dias. Dividido entre os filmes de competição nacional e internacional, e exibições temáticas que contam também com homenagens a heróis do Cinema Independente na secção Herói Independente. Este ano, a programação dá destaque a filmes de produção nacional, que vão estar em foco nas principais categorias. Na competição portuguesa são catorze longas-metragens e sete curtas, ao todo serão exibidos quarenta filmes nas salas ocupadas pelo festival; o Cinema São Jorge, Cinema Londres, Cinema City Alvalade e, pela primeira vez, a Culturgest. Aqui estão apenas alguns destaques do que poderá ser visto no final deste mês de Abril.

O festival abre com “Fantasia Lusitana” de João Canijo, um filme que retrata o Portugal dos anos 40, em plena Segunda Guerra Mundial, quando o nosso país foi território de passagem para milhares de refugiados em direcção aos Estados Unidos da América em fuga ao regime Nazi. Este documentário explora as reacções ao povo estrangeiro e as opiniões da população que vivia quase à margem dos acontecimentos mundiais, ostracizadas pelo regime de Salazar que se manteve neutro à Segunda Guerra, nunca escolhendo optar pelo apoio ao regime de Hitler nem pelos Aliados, muito por força do pacto com Inglaterra, ficando assim o nosso país a salvo, território neutro de passagem tanto de apoiantes do regime em exílio como de refugiados que procuravam passagem para o Novo Mundo. Um olhar sobre a Segunda Guerra, sobre a cultura que estes estrangeiros por cá deixaram, construído a partir de imagens de arquivo e testemunhos de refugiados que por cá passaram. O filme será exibido na cerimónia de abertura no dia 22 às 21h no Cinema São Jorge. Antecipem já o bilhete, que vai esgotar.

Algumas horas antes, na Culturgest, a antestreia de “Greenberg”, filme de Noah Baumbach que junta a música de LCD Soundsystem com a interpretação de Ben Stiller, um deprimido crónico que chega aos 40 anos sem saber o que fazer da vida. O filme estreará nas salas portuguesas a 29 de Abril, oportunidade para ver em primeira mão esta curiosa estória.

Observatório

Na secção Observatório há oportunidade para ver, além de “Greenberg”, duas estreias do mestre Werner Herzog, definitivamente enraizado nos Estados Unidos. “Bad Lieutenant: Port of Call New Orleans” é uma aproximação ao filme de acção, contando com as actuações de Nicolas Cage e Eva Mendes, algo que para o entusiasta da obra de Herzog será um sacrilégio. O que se conta desta espécie de remake do filme de Abel Ferrara é que Herzog diverte-se a inverter as convenções do filme policial a seu belo prazer. Herzog nunca consegue fazer um filme chato, por isso será uma boa aposta para uma sessão diferente no Indie. Menos enraizado no blockbuster mas nem por isso mais convencional é “My Son, My Son, What Have Ye Done”, uma colaboração com David Lynch. Novamente temos um thriller, psicológico, mas com interpretações de peso: Wilem Dafoe, Grace Zabriskie e Chloë Sevigny. O trailer serve para abrir o apetite.

Mais de dez anos após “Happiness”, Todd Solondz regressa com uma espécie de sequela que segue os mesmos moldes da comédia negra que assombrou as salas na década anterior. “Life During Wartime” é também um regresso à produção independente e promete ser arrebatador, com a irreverente metodologia do drama negro que Solondz filma com empenho. Esta é uma estreia absoluta em Portugal. Trailer aqui.

De Hong Kong chega-nos uma produção metade Francesa metade Chinesa. Johnny Halliday interpreta um pai que chega a Hong Kong para vingar a sua filha cuja família foi brutalmente assassinada. Um chef de cozinha que há vinte anos atrás era um assassino. “Vengeance”, de Johnny To, promete sequências de acção com o carimbo ecléctico do realizador que salva a indústria Chinesa. Trailer aqui.

Também de Hong Kong chega-nos outro filme carregado de negro, “City of Life and Death de Lu Chuan” (trailer). Um docudrama que retrata um episódio dramático em que as tropas Japonesas invadiram a cidade e durante 6 semanas violaram e assassinaram centenas de civis. Filmado sem excesso de sentimentalismo, irá certamente provocar discussões à volta da insanidade que existe em todas as guerras.

Herói Independente: “Fórum” de Berlim

A secção Herói Independente é uma homenagem aos realizadores que são verdadeiros heróis dentro do espectro do cinema de produção independente, que contribuíram para a proliferação do cinema à margem do circuito comercial, livre de preconceitos e de mercados autistas.

Este ano há uma antevisão especial dedicada aos quarenta anos da secção “Fórum” do Festival Internacional de Cinema de Berlim, palco de ousados exercícios cinematográficos à margem das competições oficiais de um dos festivais mais fortes do mundo. Treze realizadores que participaram no fórum escolhem treze filmes que serão vistos no Indie em quase total estreia nacional.

“Beau Travail” da cineasta Claire Dennis, uma das mais interessantes realizadoras europeias, é um drama militar baseado parcialmente no livro “Billy Budd” de Herman Melville. Um complexo olhar sobre as hierarquias e influências, elegante na coreografia que retrata os complexos arquétipos de uma academia militar. Essencial.

Jean-Luc Godard tem a sua aparição num filme de 1979 que marca o seu regresso à película após dez anos a trabalhar em vídeo. “Sauve Qui Peut (la vie)” é um drama pessimista e complexo bem ao estilo do realizador, um quase-ensaio de complexas metáforas e recursos estilísticos que são a mitologia do mais importante realizador da Nova Vaga Francesa.

“George Washington” de David Gordon Green é um filme cru, quase documental, que relata a estória de um gang de jovens rebeldes num meio rural dos Estados Unidos da América. Uma arrojada primeira obra que conta a sua estória de forma quase experimental, nunca abusando das técnicas clássicas do cinema Norte-Americano. Uma oportunidade para ver um filme que irá salvar algumas vidas.

“The Match Factory Girl”, título internacional, é um drama do prolífico Aki Kaurismäki, um dos expoentes do cinema independente do norte da Europa. Uma dramática estória onde uma rapariga com um emprego chato e repetitivo decide comprar um vestido vermelho e passar a noite na cidade. Partilha a noite em comunhão sexual com um desconhecido que na manhã seguinte parte deixando-a com uma quantia exorbitante de dinheiro. Sem saber o que fazer, divide-o com o irmão, para que a família conservadora não saiba do sucedido. Mas o enredo não fica por aqui. Uma estória de contornos minimalistas e surpreendentes a ver no IndieLisboa.

Ainda nesta secção há curtas-metragens relevantes, duas de Bill Douglas, “My Childhood” e “My Ain Folk”, que são quase biográficas, um exercício experimental de Michael Snow, “So Is This”, e “No” de Sharon Lockhart, plano-sequência que evoca a pintura expressionista.

Herói Independente: Heddy Honningman

Inserida na secção Herói Independente há uma retrospectiva integral da obra, inédita por cá, da realizadora Heddy Honningman, especializada em documentários. Entre as obras documentais a serem exibidas há também três episódios de uma série televisiva e duas obras de ficção. Remeto as palavras para uma série de artigos no site dedicado à realizadora. Destaco o artigo de Annelotte Verhaagen, Film and Melancholy. Imperdível, claro.

IndieMusic

A secção dedicada às curtas e longas-metragens musicais regressa com filmes de topo. Destaque para “When You’re Strange” de Tom DiCillo, uma viagem ao universo dos Doors com imagens de arquivo inéditas e de uma curta-metragem do próprio Jim Morrison. Destaque também para “All Tomorrow’s Parties”, uma visita ao mítico festival Inglês e para “Villalobos”, um documentário sobre o arquitecto sonoro brasileiro. Nas curtas há muita música Portuguesa. O documentário “B Fachada – Tradição Oral Contemporânea”, os “Music Box Club Docs” realizados por Paulo Prazeres e “Angola – Histórias da Música Popular”, entre outros.

Com tanto para escolher, difícil vai ser ficar em casa. Este ano o IndieLisboa reforça a sua posição como festival essencial de cinema. Estas sugestões são apenas uma pequena selecção de tudo o que poderá ser visto no final de Abril, em Lisboa, e o melhor é mesmo tirar férias e ir ao cinema. A Rua de Baixo irá estar presente no festival cobrindo as principais secções em dois artigos a publicar na próxima edição de Maio. Para quem se queixa que não há filmes interessantes, está é uma oportunidade para engolir o orgulho e ver bom cinema boicotando as pipocas e o sofá.



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