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INDIE MUSIC 2018

"STUDIO 54" de Matt Tyrnauer e "FRENCH WAVES" de Julian Starke

O IndieLisboa acabou no passado domingo e, por entre dezenas e dezenas de sessões, escolhemos duas da secção IndieMusic. A escolha em particular destes dois documentários prende-se com o facto de haver uma linha de continuidade que os une. Podia ser uma linha qualquer, mas este caso é especial. É uma linha de som, de vibração, de intensidade e sobretudo, de batimento cardíaco. É uma linha-guia, que atravessou décadas e ainda hoje nos continua a marcar a pulsação.

Vamos ver então onde começa. Em 1977, Ian Schrager e Steve Rubell deram à luz numa rua mal frequentada de Nova Iorque, aquele que ia ser o pai de todos os clubes nocturnos.

O Studio 54 tornou-se mítico por ser um lugar de libertinagem, mais do que libertação. “Ali toda a gente podia ser quem queria ser.”, confessa-nos Ian, a meio da entrevista que conduziu o documentário, do início ao fim.

E começando pelo fim, a parte menos feliz da história, percebemos que grande parte mundo não estava preparado para o Studio 54, e a outra parte não estava preparada para o seu encerramento.

Steve Rubell era o bon vivant da dupla, o altifalante da festa e o colo dos seus convidados. Aquando da sua morte, vemos todos aqueles que com ele dançaram até que o chão se gastasse: Bianca Jagger, Vivenne Westwood, Andy Warhol, Michael Jackson, e a lista preencheria as linhas do texto como preencheu aquela casa.

As portas do Studio estavam abertas “a quem chegava ali para dançar”. E muitas hostilidades nasceram assim, por quem lhes foi trancada a passagem para o “paraíso da noite”. Tanto que se diz que foi por quezílias desta origem que os fundadores foram denunciados por fraude fiscal e, mais tarde, condenados.

Mas apesar da decadência do espaço, e com ela, o sucumbir da família que ali se formou (staff, habituées e amigos), o Studio 54 marcou o hedonismo da década: era uma discoteca onde reinava o glamour, o sexo e as drogas. Onde extravagâncias como pontes aéreas para dançar, cavalos e tigres na pista, ou um simples homem vestido de mulher, eram possíveis.

E em 2 horas de filme composto por raras gravações daquelas noites, fotografias, e entrevistas brutalmente honestas, entramos nós também naquele universo que ali ficou fechado mas que tantas portas abriu. Matt Tyrnauer mostra-nos como todo aquele sonho acordado nasceu da ambição desenfreada e da ingenuidade despreocupada de dois amigos de Brooklyn que conquistaram Nova Iorque mas como foram também estes mesmos instintos que os destruíram – porque até mesmo a mais poderosa transformação se revela vulnerável e fugaz.

Mas 4 décadas depois… continuamos a dançar.

Ou melhor, continuamos a deixar-nos levar por ondas sonoras.

French Waves, de Julian Starke fala-nos do tsunami que tem abalado as pistas com a música electrónica nas últimas duas décadas. Com berço em Detroit, o techno veio renascer à Europa através do French Touch como filho pródigo.

“Everybody wants to be Daft Punk”, é este o statement que marca o início do filme e é quase uma verdade inabalável. Porque foram Thomas Bangalter e Guy-Manuel de Homem-Cristo que mudaram criaram um novo género que ia revolucionar a música para sempre. Souberam fazer a simbiose perfeita entre a hype music e a música underground, neste caso, entre o rock e o techno, e isso vincou toda uma geração de jovens e adolescentes. E como eles também Justice, Cassius e outros gigantes das cabines que ao longo do documentário nos contam como foi. Carl Craig, Juan Atkins, Laurent Garnier ou Dimitri From Paris, falam-nos da evolução e do borbulhar daquilo que foi crescendo sem nos apercebermos. As raves, os discos, as festas, mas mais ainda, as mentalidades e comportamentos que a música tem a capacidade de alterar.

E sendo este um movimento que nos chega desde os 90’s até aos nossos dias, French Waves também nos fala daquilo que está por inventar. Do sangue novo que move pistas, labels e DJs da velha guarda que se obrigam a acompanhar a maré. A mesma maré que os próprios começaram.

A verdadeira essência do filme é, de facto, a passagem de testemunho. Como uma geração inspira a outra e como uma cidade ou país inspiram o mundo inteiro. Longe de ser um documentário de memórias, é um testamento da vivacidade da cena electrónica actual.

A certa altura alguém no documentário afirma que a música electrónica nos faz vibrar desta maneira porque é a batida mais parecida com o pulsar do coração. E é daqui, de algo tão cirurgicamente arquitectado, sem o querer ser, que se faz história para contar em filmes.



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