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IndieLisboa 2009

As novas linguagens contemporâneas de braço dado com heróis do passado. De 23 de Abril a 3 de Maio, o melhor cinema independente passa por Lisboa.

“(…) neste momento já andam na casa dos 12, ou seja, já temos em Lisboa praticamente um festival por mês”. Esta frase foi retirada da entrevista a Fernando Galrito, publicada na edição de Março da RDB, de forma a contextualizar a génese da MONSTRA no calendário dos festivais da capital, numa época em que a oferta de cinema alternativo e independente era escassa. Felizmente, os tempos são outros e o público tem possibilidade de afastar-se das grandes superficies comerciais e descobrir novas formas de interpretar a 7ª arte. De todos os festivais, ciclos e mostras realizadas na cidade de Lisboa, o IndieLisboa tem-se evidenciado pela sua enorme exposição internacional e diversidade da programação. A edição deste ano, que se realiza de 23 de Abril a 3 de Maio, vem consolidar a importância do certame na cidade como grande ponto de encontro entre cinéfilos e agentes do cinema.

Tal como nas edições anteriores, o Indie volta a redesenhar o mapa de salas. Para além de regressar ao Cinema São Jorge, o Cinema Londres e o Fórum Lisboa, a 7ª arte vai estar presente em dois novos espaços: Museu do Oriente (programação de origem ou temática asiática) e o Cinema City Classic Alvalade.  Em relação às secções, as principais novidades relacionam-se com a substituição do “Laboratório” pela secção “Cinema Emergente”, à criação de um programa dedicado a documentários – “Pulsar do Mundo” e a uma maior ligação do cinema à música, não só através da secção IndieMusic, já existente em edições anteriores, como também com um conjunto de festas e concertos que vão acompanhar os dias do festival.

De um total de 3120 filmes recebidos, o Indie seleccionou 250 longas e curtas-metragens (159 curtas e 91 longas) para as várias secções do festival provenientes de quatro continentes. São 40 animações, 66 documentários, 29 filmes experimentais e 115 ficções para descobrir durante 10 dias de festa. Seria bastante complicado e cansativo para o próprio leitor estarmos a descrever tudo aquilo que se vai passar no Indie. Resolvemos destacar algumas secções que nos parecem dignas de um destaque especial e que vão ao encontro do espírito da RDB.

CINEMA EMERGENTE

“(…) é uma secção que dá espaço a novas linguagens do cinema contemporâneo, a experiências narrativas originais e a talentos emergentes, em curta e longa-metragem”.

É desta forma que esta secção é descrita pela organização do Indie. Existe aqui a tentativa de mostrar que o cinema pode ser utilizado como complemento a outras formas de expressão artística e que todas são capazes de se misturar e criar novos conceitos.

“Kinogamma “, realizado pelo músico francês Siegfried, é um dos filmes que será exibido nesta secção. Dividido em duas partes (PARTE I: EAST / PARTE II: FAR EAST), o filme é uma tentativa de criação artística através da utilização de imagens editadas da vida real, utilizando a música como batuta.  Siegfried, que para além de cineasta toca violoncelo, compõe e faz misturas de jazz moderno com músicas de todo o mundo, irá apresentar a sua música no Cabaret Maxime no dia 29 de Abril.

Dentro desta secção será apresentado um ciclo de curtas-metragens da autoria do projecto “Desperate Optimists”, um casal irlândes que trabalha uma grande diversidade de formas, contextos e meios como o cinema, o vídeo, a internet, a rádio e as galerias de arte. Christine Molloy e Joe Lawlor vêm a Portugal apresentar o ciclo “Civic Life”, 8 curtas que se regem por regras fixas: cada filme é rodado em 35 milímetros e é protagonizado pela comunidade observada, numa abordagem simultaneamente teatral e cinematográfica.

“Visionary Iraq” é o filme do cineasta/pintor/narrador Gabriel Abrantes e de Benjamin Crotty. Nascido nos Estados Unidos da América e filho de pais africanos, Gabriel encontrou em Portugal as condições certas para trabalhar o seu estilo mais radical/alternativo. A obra que é apresentada no Indie teve como génese uma instalação que esteve patente na Galeria 111 no Porto. Nesta edição da RDB publicamos uma entrevista com Gabriel Abrantes, onde podem ficar a conhecer um pouco melhor este jovem artista.

Os três exemplos descritos mostram o propósito desta secção: o cruzamento de géneros artísticos e a criação de uma nova linguagem cinematográfica. Cinema diferente para mentes despertas e conscientes.

OS PORTUGUESES NA COMPETIÇÃO INTERNACIONAL

Pensamos ser importante destacar o facto de, na edição deste ano do Indie, Portugal ter 4 filmes presentes na Competição Internacional (3 curtas e uma longa-metragem).

“Algo Importante” de João Fazenda (animação), “Arca D´Água” de André Gil Mata (Ficção) e “Arena” de João Salaviza (ficção) são as curtas-metragens de produção nacional seleccionadas pelo Indie.

Em “Arena”, João Salaviza procura descrever a vida de alguém que se encontra em prisão domiciliária. Na suas notas de intenção diz: “interessa-me a tensão dos momentos em que nada se altera (…) segui o princípio de que os planos não se antecipam às deambulações do protagonista nem lhe sugerem caminhos que ele simplesmente não pode ver. É justo para alguém que vive com grades nas janelas de casa, e que está secretamente à espera que as coisas mudem por si”.

Na secção de longas-metragens será exibido “Águas Mil”, filme de Ivo M. Ferreira que estreou mundialmente na edição deste ano do Festival Internacional de Roterdão. “Águas Mil” retrata a história de um jovem adulto (interpretado por Gonçalo Waddington) que procura resolver o enigma do estranho desaparecimento do seu pai, logo após o 25 de Abril de 1974. Homicídio? Fuga? Nesta viagem interior que o leva de Portugal ao deserto em Espanha, Pedro redescobre a sua relação com os que lhes estão mais próximos e com a história do seu País. Nas palavras de Ivo M. Ferreira, “Águas mil é a voz dos filhos da revolução, exigindo à geração dos pais que contem o que se passou na História recente de Portugal, quando o País e o Mundo transbordavam de ideias que caíram antes de se erguerem”.

Podem encontrar os trailers de “Arena” e Águas Mil” nos links externos deste artigo.

INDIEMUSIC & INDIE BY NIGHT

Tendo sido criado, numa primeira fase, para o público “mais musical e nocturno”, a secção IndieMusic cresceu e este ano, composta por 7 longas e 2 curtas-metragens, será apresentada em diversos horários no programa do festival.

Quem não teve oportunidade de adquirir a edição especial do mais recente trabalho dos Mogwai, “The Hawk Is Howling”, poderá assistir à curta-metragem realizada por Vincent Moon (responsável também pelo projecto Temporary Areas, ver link externo), “Adelia, I Want to Love”, que relata o dia na vida da banda escocesa durante a passagem da digressão por uma pequena cidade italiana. Este é o segundo trabalho do realizador francês com bandas indie de renome internacional. O primeiro é o altamente recomendado “A Skin a Night” com os The National.

Em relação às longas-metragens, existe alguma expectativa para assistir ao documentário criativo “Kikoe”, dedicado a Otomo Yoshihide (Yokohama ,1959) , um dos nomes mais importantes da música avant-garde japonesa e que esteve em Portugal no ano passado no festival Jazz em Agosto com a sua New Jazz Orchestra. O seu estilo particular e improvisado que se manifesta na sua música e na sua forma de estar na vida, são reflectidos neste documentário, da autoria de Iwai Chikara, que conta com entrevistas e actuações de diversos artistas como DJ Spooky, Jan Svankmajer, Jonas Mekas, Adachi Masao, Jim O’Rourke, Keiji Haino e John Zorn.

A curiosidade de Otomo Yoshihide começou a desenvolver-se antes do liceu, tendo começado por fabricar diversos equipamentos electrónicos. Mais tarde começou a tocar guitarra e tornou-se um apaixonado pelo free jazz.  É um dos músicos mais activos do Japão e colabora com diversos artistas de todo o mundo de diversas áreas, desde o jazz à música clássica, passando pelo noise e electrónica. Nos últimos anos tem trabalhado em diversas instalações sonoras em Museus, tem participado em variados workshops sobre música experimental e tem demonstrado um enorme talento na composição de bandas sonoras para cinema e televisão, destacando-se os trabalhos realizados para os seus compatriotas Kiyoshi Kurosawa, Shinji Somai, Shinji Aoyama, Tian Zhuangzhuan e Ann Hui.

Mas a música não se fica pela tela. Este ano estão planeadas festas/concertos para todas as noites do festival. O Indie By Night tem como principal objectivo “fomentar o convívio entre os vários públicos do festival” e irá ter no Cabaret Maxime o seu quartel-general. Pelo espaço da Praça da Alegria vai passar B Fachada, os Irmãos Catita (na noite de 25 de Abril), os Casino Royale a Bega Blues Band (Roménia) e o músico/realizador francês Siegfried para uma noite denominada de “Free Cinematic Sessions”.

HERÓIS INDEPENDENTES & MANOEL DE OLIVEIRA

Desde a primeira edição que o Indie presta homenagem a “quem mais admira”, aos que “trabalham em prol de um cinema totalmente livre de pré-conceptualizações e preconceitos”. A escolha este ano recaiu no realizador alemão Werner Herzog e no escritor, actor e realizador francês Jacques Nolot. São apresentadas duas “expressivas” retrospectivas com um vastíssimo leque de películas, entre curtas e longas-metragens. Para além dos filmes terá lugar durante o festival, no espaço BES – Arte e Finança, a exposição “Sinais de Vida, Werner Herzog e o Cinema” e será efectuado o lançamento do livro com o mesmo nome, juntamente com as Edições 70.

A estes dois nomes do cinema europeu juntamos Manoel de Oliveira. Embora o realizador não faça parte da programação da secção “Heróis Independentes”, todo o seu percurso na 7ª arte tem-se primado pela independência e negação contínua da sua comercialização. Com 100 anos de idade é o realizador mais velho no activo em todo o mundo e o IndieLisboa apresenta em antestreia nacional “Singularidades de uma Rapariga Loura”, numa sessão especial no Cinema S.Jorge. O filme teve a sua estreia mundial na última edição do Festival Internacional de Cinema de Berlim, depois de Manoel de Oliveira ser agraciado com o Prémio Berlinale Kamera, que homenageia personalidades e instuições com quem a Berlinale estabeleceu, ao longo dos anos, um laço especial.



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