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Indie 2012 – Rescaldo

Tudo o que precisam de saber sobre a edição 2012 do Festival de Cinema Independente de Lisboa

A 9ª edição do IndieLisboa, com um total de 34797, teve mais 1280 espectadores do que a anterior, o que, tendo em conta as condicionantes — cortes nos apoios que levaram ao cancelamento da secção Herói Independente —, se pode considerar um sucesso. No entanto, mais importante do que assinalar o número de bilhetes vendidos será aferir da qualidade dos filmes vistos; essa, apesar de um normal barrete ou outro, foi mais do que razoável, principalmente na competição internacional, constituída apenas por primeiras e segundas obras, com várias delas a poderem sair vencedoras sem que ninguém tivesse de se envergonhar (e umas quantas que bem podiam ser exibidas comercialmente).

A Competição

Com a devidas excepções (que incluem, coincidentemente, os dois filmes menos interessantes) — “L”, de Babis Makridis, um pobre exercício absurdista; “Belin Telegram”, de Leila Albayaty, um docu-drama narcisista; e a fantasia naturalista e infantil (no sentido de conto de e para crianças) de “L’estate de Giacomo”, de Alessandro Comodin (Prémio de Distribuição TVCine) —, a família foi o tema central da maioria das 11 longas-metragens a concurso na competição internacional.

O velho conselho de “filma o que conheces” dado a realizadores estreantes ou novatos pode ser uma razão para esta situação, mas não a única. A família também pode fazer de sinédoque para a sociedade; é isso que acontece no serpenteante e analítico “O Som ao Redor”, de Kleber Mendonça Filho (uma obra que demora a largar o espectador depois de vista), ou no caótico e anárquico “Toata lumea din familia noastra”/”Everybody in Our Family”, de Radu Jude (provavelmente o melhor filme do festival). No filme brasileiro, é o vago mas persistente sentimento de insegurança que obriga a família (sociedade) a fechar-se sobre si mesma; no romeno, o desentendimento entre os vários membros da família (sociedade) leva a uma escalada de violência.

Claro que em boa parte dos filmes dedicados à família não se explora nenhuma analogia e, sim, as tensões, fragilidades, desilusões, e conflitos que o núcleo familiar encerra, especialmente a partir do ponto de vista dos filhos. O inteligente e suave “De jueves a domingo”, de Dominga Sotomayor (Grande Prémio de Longa Metragem “Cidade de Lisboa”, o galardão principal do IndieLisboa), à cabeça. Mas também “Stillleben”/”Still Life”, de Sebastian Meise, sobre um incesto nunca consumado mas devastador; e “Formentera”, de Ann-Kirstin Reyels, cuja família é o obstáculo à felicidade dos mais novos. Em “Voie Rapide”, de Christophe Sahr, e “The Color Wheel”, de Alex Ross Perry, dois filmes mais fracos, o tema da família, embora esteja lá, não é tão bem trabalhado, mais decoração do que essência. Por outro lado, Eileen Hofer, realizadora de “He Was a Giant with Brown Eyes”, mesmo que tenha o coração no sítio certo, não tem unhas para tocar guitarra tão bem como Sotomayor, Meise e Reyels.

Na competição nacional de longas-metragens, venceu “Jesus Por Um Dia”, de Helena Inverno e Verónica Castro, que não foi visto por este que vos escreve; aliás, a única longa portuguesa que viu foi “Em Segunda Mão”, de Catarina Ruivo, filme de troca de identidades e outras estranhezas bem-vindas (espera-se que estreie em breve em sala), que, infelizmente, acaba por valer também como belíssima homenagem ao falecido actor Pedro Hestnes.

Quanto a curtas-metragens, destaque, entre as vistas, para a excelente “O Que Arde Cura”, de João Rui Guerra da Mata, e a hauntológica “Polvo”, de Angela Reginato, e, entre as premiadas, para “Cerro Negro”, de João Salaviza (Prémio Melhor Realizador Português de Curta Metragem; Salaviza, que também mostrou “Rafa”, vencedor do Urso de Ouro no último Festival de Berlim, a estrear dia 10 de maio), “Juku”, de Kiro Russo (Grande Prémio para Curta Metragem), e “Cama de Gato”, de Filipa Reis e João Miller Guerra (Prémio Melhor Curta Metragem Portuguesa).


IndieLisboa – Um percurso

Se os pezinhos do espectador do IndieLisboa vaguearam entre o Cinema Londres, a Culturgest, e o Cinema São Jorge (por maioria dos outros, o que ficava mais fora-de-mão), os olhos viajaram muito mais. Nem sempre a locais felizes, mas, pelo menos, a sítios diferentes do habitual:

Ora estiveram na Suíça, com o novo Cinema desse país, representado pelos cineastas da godardiana produtora Band À Part — apesar de só me ter calhado ver uma longa-metragem de cada um, Lionel Baier (“Garçon Stupide” revela uma energia fabulosa, embora se perca na conclusão) e Ursula Meier (“Des épaules solides” tem uma energia parecida à de “Garçon Stupide”, mas muito mais concentrada e, no final, explosiva; e “Tous à Table” é uma curta-metragem deliciosa) pareceram de outro campeonato em relação a Frédéric Mermaoud (“Complices” é um policial à CSI, replicando a estética e o enredo dessa e séries similares).

Ora varejaram pelos quatro cantos do mundo: pela fria e clínica (e estéril) Áustria do pedófilo “Michael”, de Markus Schleinzer; pelos bordeis esconsos do Bangladesh, os brilhantes da Tailândia, e os poeirentos do México no demasiadamente musicado “Whores’ Glory”, do reputado documentarista Michael Glawogger (Prémio do Público Para Melhor Longa Metragem); pela violência do Sul dos EUA, cujo um dos maiores praticantes é o próprio Estado de Texas em “Into the Abyss”, do alemão com o melhor sotaque do mundo Werner Herzog; pela Alemanha obcecada pela beleza e cirurgias plásticas de “Schönheit”, de Carolin Schmitz; de novo pela América, esta mais pacífica (em termos de mortos, que a luta pela aceitação não é doce), de “Terri”, de Azarel Jacobs; ainda outra vez pela América, terra da liberdade ou, porventura, prisão para o skater de “Dragonslayer”, de Tristan Patterson; pela eterna Hong Kong no soberbo “Táo Jie”/”A Simple Life”, de Ann Hui, belo e triste retrato da velhice e da morte; pela Los Angeles, e friso Los Angeles, de cinema de “Los Angeles Plays Itself”, de Thom Andersen.

Ora perderam-se por lugares estranhíssimos: a Bélgica como cenário de film noir pateta de “Fat Cat”, de Patricia Gélise e Nicolas Deschuyteneer; aquela curva do Rio de Janeiro vista vezes sem conta no nostálgico e onanista “Rua Aperana 52″, de Júlio Bressane; o parque zoológico (inclui humanos) do hipnotizante “Bestiaire”, de Denis Côté; a mente conturbada de Yorgos Lanthimos, mais do que a Grécia onde a acção entre o absurdo e o violento se passa, de “Alpeis”/”Alps”; e a biografia bem real da actriz egípcia Soad Hosni feita apenas de imagens de filmes em que entrou de “Ikhtifa’at Soad Hosni ath-Thalathah”/”The Three Disappearances of Soad Hosni”, de Rania Stephan.

Em certos casos, foram os ouvidos os viajantes. Pobres viajantes. Dos documentários sobre Música, vistos na secção IndieMusic, dois muito maus e um bem melhor: “Punk in Africa”, de Keith Jones e Deon Maas, cujo tema interessante se perde rapidamente, nem para documentário televisivo serve; “Over Canto”, de Ramon Gieling, é tão soporífero como as obsessões das suas “personagens”; só “Vou Rifar Meu Coração”, de Ana Rieper, ao mostrar sem condescendência o mundo da música brega brasileira, deu algum alento, se não aos auditivos, aos órgãos visuais.

Para aceder às reviews dos filmes aqui mencionados clicar aqui.



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