“Indiscrição” | Charles Dubow

“Indiscrição” | Charles Dubow

Triângulo sem bermudas

Na geografia, é ponto assente que de entre todas as formas geométricas conhecidas é o Triângulo das Bermudas aquela que oferece ao homem o maior grau de desorientação, entre uma aventura de todo o tamanho e o início de uma viagem sem regresso. Já no universo das relações humanas, o triângulo é igualmente sinal de perigo e, normalmente, a sua descoberta leva ao afastamento dos vértices – e, claro, a uma peixeirada de todo o tamanho. Em “Indiscrição” (Planeta, 2013), o primeiro romance de Charles Dubow, há qualquer coisa como um triângulo com vértices não participantes, que vai pôr em causa uma forma geométrica construída para lá da ideia de perfeição.

A narrativa gira à volta de Harry e Madeleine Winslow, um casal para quem todos olham com muita admiração e alguma inveja. Para além de ricos e realizados – ele como escritor premiado e ela prendada com uma beleza e graça sublimes -, mantêm uma relação que parece impermeável ao desgaste e à erosão, fechados numa bolha de devoção profunda. Até ao dia em que, num fim-de-semana de Verão junto à praia, conhecem Claire, integrando-a no seu círculo pessoal movidos por uma juventude inquietante e uma aparente ingenuidade. Porém, Claire está longe de ser aquilo que aparenta à superfície e, desde logo, a ideia de uma amizade profunda se transforma em desejo obsessivo.

À semelhança de “O Grande Gatsby”, a história é contada por um narrador participante e de certa forma ausente que, no desenrolar dos acontecimentos, vai permanecendo na sombra até revelar o seu lado solarengo. Walter – a personagem mais fascinante do livro – é amigo de infância do casal e um bom observador do carácter humano, pressentindo em Claire uma alma irrequieta capaz de virar do avesso a vida dos Winslow. E, por arrasto, a dele próprio.

Com uma recta final que deixa um certo travo a telenovela, “Indiscrição” retrata o instante em que uma relação ameaça ruir a partir do momento em que se convida a luxúria, o engano e a traição a transpor a soleira da porta para uma festa de arromba. A sabedoria popular tem muitos anos disto e não se costuma enganar assim tanto: quem tudo quer tudo perde.



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