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Infestus @ Red Bull Music Academy

Segundo depoimento de um participante português na Academy 2010.

Na segundo dos artigos dedicados aos participantes portugueses na edição de 2010 da Red Bull Music Academy, falamos com Luís Pinto aka Infestus.

Juntando as facetas de DJ e Produtor, Infestus movimenta-se ainda recentes trilhos do Dub (step), mas criando uma linguagem ideossincrática juntanto elementos de Hip Hop e com outros provindos dos mais diversos campos da música electrónica.

A melhor forma de o compreender é ouvindo e o seu recentemente editado Tiger EP ou a remistura para “Music Life” para Ka§par.

Porque decidiste concorrer?

Decidi concorrer depois do Ka§par me ter contactado há uns dois anos no myspace a falar-me sobre a RBMA. Na altura, em 2008 penso eu, candidatei-me mas não entrei. Pensei que não voltaria a candidatar-me. Uns meses depois fui convidado a participar no RBMA LX Taster (que foi no fundo uma mini RBMA a nível local), e depois disso lá achei que se calhar valia a pena voltar a candidatar-me e acabei por ser escolhido.

Que argumentos achas que foram decisivos para te escolherem?

No meu caso acho que terá sido o facto de eu estar envolvido em várias áreas musicais completamente distintas. Por um lado tenho o projecto Infestus em que me assumo como produtor e DJ, e depois estou também envolvido em bandas como os The Ramblers, em que também escrevo as músicas e toco. Não sou, de longe, o melhor produtor, nem o melhor dj, nem o melhor teclista ou songwriter, mas estar envolvido em tudo isso foi o que provavelmente despertou a atenção da RBMA.

Como imaginavas a Academia?

Imaginava uma coisa mais formal, mais rígida. Mas suponho que isso tem muito a ver com a imagem que eles promovem para o exterior, as fotografias que escolhem e os textos que escrevem.

O que encontraste?

Encontrei uma academia totalmente informal, totalmente sem barreiras entre participantes, lecturers e membros da equipa. Achei incrível estar, lado a lado com pessoas que eu vejo como heróis a fazer música, a dar-me sugestões e até mesmo a pedir-me ajuda. Podíamos fazer o que quiséssemos, não havia regras nenhumas. A única coisa que nos era pedida era que comparecêssemos nas palestras, de resto, era um edifício com vários estúdios, máquinas e com muitos músicos de todo o mundo. Apenas isso.

Como era o teu dia-a-dia?

Custava a levantar de manhã, mas lá  conseguia. Com alguma sorte consegui sempre chegar a horas da primeira lecture. No final tentava fazer sempre a primeira pergunta! Boa ou má. As vezes almoçava, outras vezes ficava no estúdio a fazer coisas até à segunda lecture.

…e a noite?

Jantava apressadamente e tentava apanhar o primeiro shuttle para os gigs. Ás vezes tínhamos que optar, porque podia haver mais do que um evento. Tentava sempre ir ver a actuação de um participante que ainda não tivesse visto (porque alguns participantes tocaram mais do que uma vez).

Na primeira semana ficava sempre lá  até ao fim dos eventos. A partir da segunda semana, assim que o último participante acabava de tocar, voltava para a academia para tentar aproveitar os estúdios! Geralmente ficava lá a noite toda até ao último membro da equipa fosse dormir (que era geralmente o Marco Passarani).

Como correram as actuações? Tiveste alguma extra-academia?

A minha actuação correu na perfeição. Fiz três DJ sets na mesma noite, entre os live-acts no palco mais pequeno do Roundhouse. Um dos sets foi de abertura para o Hudson Mohwake, e por isso a sala estava à pinha! Acho que nem no LUX tinha tocado para tanta gente. Fora isso não tive mais nenhuma actuação enquanto estive em Londres, apesar de na altura se ter falado de eu fazer um set na RinseFM, mas acabou por não haver tempo.

Como se desenrolava da dinâmica criativa entre os membros da Academia?

Inicialmente era uma coisa muito caótica. Nos primeiros dias toda gente queria tocar nos sintetizadores e era uma grande confusão.

A partir da segunda semana as coisas já estavam mais organizadas. Cada pessoa acabava por ter um estúdio que usava mais, e costumavam ser as mesmas pessoas a trabalhar no mesmo estúdio.

Numa sala os beatmakers, noutra o pessoal do four-to-the-floor, noutra o pessoal do funk e do jazz. Eu andava por lá de uma sala para outra sem saber bem o que fazer. Às vezes lá gravava uns teclados, outras vezes começava a fazer uma batida e alguém entrava e tocava alguma coisa.

Durante a noite os beatmakers geralmente eram os primeiros a ir para casa, e ficava lá o pessoal do house e do techno a gravar jams! Só nos últimos dias é que eu consegui começar projectos meus, mas para isso tivemos de improvisar um estúdio na cave onde ninguém ia!

O difícil era transformar as sessões de estúdio em canções com pés e cabeça, mas no final lá se conseguiu.

Tecnicamente, o que aprendeste de novo ou relevante?

Aprendi a usar as máquinas. O meu set-up em casa é bastante simples, é tudo à base de software. Ali estávamos rodeados de sintetizadores e teclados, inicialmente pedíamos muita ajuda para ligar as coisas, mas no final já éramos mais independentes no uso dos estúdios, já sabíamos ligar as máquinas e sincroniza-las com os computadores.

Foi também a primeira vez que trabalhei com uma MPC.

Teoricamente, que palestra te disse mais e porquê?

A palestra que me disse mais foi a dos Aba-Shanti. Primeiro porque foi a última, e se calhar por isso estava mais emocionado. Mas a verdade é que me identifiquei mais com as palestras conduzidas pela Emma Warren, que eram sobretudo com as personalidades da cultura soundsystem e reggae. Antes da palestra dos Aba-Shanti eu teria dito que era a do Don Letts, mas a verdade é que a dos Aba-Shanti foi mais simples, no entanto mais profunda.

Porque aconselharias a candidatura a outros DJs/produtores nacionais?

Eu aconselharia a candidatura porque é basicamente o sonho de qualquer amante de música. Não interessa o que se faz, ou a quantidade de talento ou técnica. Acima de tudo é uma experiência de pessoas.

São apenas duas semanas, mas a ligação com aquelas pessoas faz parecer que passaste anos com elas. Não quero cair no cliché de dizer que é uma experiência que muda a vida de uma pessoa, porque até se calhar, para alguns participantes não muda assim tanto.

Mas é uma experiência que vale a pena, nem que seja pela parte pessoal, de estar rodeado por aquelas pessoas durante duas semanas. E depois, a experiência não termina após as duas semanas. Ficas ligado a uma rede de pessoas e músicos da qual podem sempre sair coisas novas.

Não tem preço!



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