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Ingebrigt Håker Flaten

“Com os improvisadores com quem trabalhamos somos parte de um todo. Todos têm uma voz importante”

O contrabaixista e compositor Ingebrigt Håker Flaten esteve à conversa com a Rua de Baixo. Natural de Oppdal, na Noruega, reside actualmente em Austin, no Texas. É habitual companheiro de Ken Vandermark, Mats Gustafsson e Paal Nilssen-Love nas formações Atomic e The Thing. Lançou recentemente o disco “Brooklyn DNA”, com Joe McPhee, da editora portuguesa Clean Feed para quem já gravou anteriormente vários trabalhos. É líder do Ingebrigt Håker Flaten Chicago Sextet (IHF Chicago Sextet), que encerrou a 29ª edição do Jazz em Agosto.

Como descreves a música do “man with the bass”?

Uau, isso é uma pergunta que tem muito que se lhe diga! Estou envolvido em grupos muito, muito, distintos e… é difícil explicar, mas muitos dos grupos tendem a aproximar-se de diferentes correntes do free jazz e dos seus sons, também eles diferentes, mas… oiço frequentemente vários estilos de música e espero que, de alguma forma, a minha música reflicta isso.

Quem são as tuas grandes influências?

Quando andava a estudar ouvi músicos como Jimmy Garrison do Coltrane Quartet, Scott La Faro, Bill Evans Trio, Charles Mingus, claro… Gary Peackock com Keith Jarrett, e também todas as cenas do Albert Ayler, que adorei. E depois existem também as abordagens europeias modernas como Barry Guy que, como é óbvio, ouvi muito… A lista é extensa e é difícil lembrar-me de todos, sinto sempre que estou a ser sucinto.

Mas focando… Quando comecei, ouvi bastante esses músicos e acho que isso me formou um pouco. A partir daí, desenvolves e ouves muitas cenas diferentes.

E quais são as influências do IHF Chicago Sextet?

Bem, este grupo é o único para o qual realmente componho e, por isso, para mim muito interessante enquanto compositor. A música tem talvez mais referências provenientes das minhas origens escandinavas… Possivelmente mais do que as pessoas conhecem, digamos, nos The Thing e nos Atomic.

Por exemplo, algumas músicas descrevem um pouco um filme, são músicas que de certa forma estão relacionadas com o Cinema (risos)… algumas… Mas outras têm claras referências ao jazz e ao rock.

Saíste da Noruega, foste uns tempos para Chicago e estabeleceste-te em Austin, Texas. Porquê?

A minha mulher é do Texas. Na verdade, começámos por viver na Noruega mas não conseguimos suportar o custo de vida. A Noruega é muita cara. Fomos então viver para Austin. Ela é do Texas, os dois gostamos de Austin e fazia sentido para nós. E eu gosto realmente de Austin!

Geralmente integras formações com músicos cuja música e presença em palco são muito expressivas e explosivas: Mats Gustafsson, Ken Vandermark, Paul Nilssen-Love ou Joe McPhee. Em palco, por estas características e pelos instrumentos que tocam, a primeira impressão é a de que eles são mais visíveis, e de que estás mais na retaguarda com um instrumento com um som mais opaco. No entanto, não é bem assim. É impossível ficar indiferente ao som e à energia do teu contrabaixo. Como explicas isto?

Bom, é tudo uma questão de ser um contrabaixista, tocar o contrabaixo acústico e chegar à conclusão de que tenho uma estética em que gosto do som do contrabaixo o mais acústico possível. Os músicos mencionados, com quem gosto realmente de tocar pela sua forte expressão e presença em palco, são um grupo fantástico de improvisadores.

Não deixa de ser também um desafio ser contrabaixista nestas formações, pelo facto destas serem estridentes e o contrabaixo ser acústico. Algumas vezes, o contrabaixo dispersa-se, mas essa é a sua natureza. É algo que não posso impedir, mas trabalho constantemente para o transpor, sem que percas a tua identidade… a da música… OK, podia decidir por mim mesmo entrar e fazer com que soasse mais alto, mas aí perdia-se o som do contrabaixo, pareceria mais eléctrico e isso é algo que tento evitar… É quase sempre uma experiência!… (risos)

Achas que esta tua presença em palco poderá também estar relacionada com um papel de liderança que o contrabaixo e a bateria têm actualmente? Durante muitos anos, tradicionalmente, estes dois instrumentos tinham uma função essencialmente de timekeepers…

Acho que esses papéis já estão estabelecidos há algum tempo. Mas penso que somos nós quem escolhe… Por exemplo, como eu e o Paal [Nilssen-Love], que somos secção rítmica em vários grupos. És tu sempre que escolhes se queres ter um papel na secção rítmica, ou um papel como solista ou de improvisação colectiva. Penso que hoje em dia os músicos estão conscientes disto. Com os improvisadores com quem trabalhamos somos parte de um todo. Todos têm uma voz importante. Portanto, não se trata de ser uma só voz com uma banda por detrás, são vozes individuais.

Mas às vezes… Eu sou contrabaixista e tu, por exemplo, um baterista, ou o que seja, e tocas o instrumento porque também gostas desse papel. Então, às vezes escolhes o papel de secção rítmica, e eu adoro isso!

Depende dos grupos, do tipo de música e de tudo. É tudo uma questão de opções e de ouvir o que acontece. Mas penso que já há algum tempo que ficou definido que a bateria e o contrabaixo não eram apenas timekeepers.

E que podem também ter um papel de líder…

Sim, sim. Como contrabaixista fui super inspirado por algumas gravações do Scott La Faro com Bill Evans, do princípio dos anos 60. Ele era obviamente um contrabaixista tradicional e, de repente, lançou-se e fez coisas que nunca ninguém tinha feito antes. Desde então ficou definido um novo papel do contrabaixo.

A tua experiência enquanto músico tem-se desenvolvido em várias áreas como o jazz, a improvisação, a música electrónica ou de fusão. O projecto de The Young Mothers é a continuidade dessa busca por linguagens diferentes?

De certa forma… Mas também em Austin, por ser onde vivo, queria formar um grupo com os músicos jovens do Texas. Acho-os muito interessantes na sua abordagem à improvisação. E são vozes que se destacam realmente em áreas muito diferentes. Um [Jawwaad Taylor] está ligado ao hip-hop ao mais alto nível, vive actualmente em Nova Iorque, é super criativo, e essa é a sua verdadeira voz. Mas ainda assim improvisa no trompete e tem óptimo ouvido. Depois, há o baterista [Stefan Gonzalez] que toca mais grandcore, verdadeiro heavymetal, super hardcore. Mas nasceu numa família com jazz, e ouve jazz desde pequeno. Gosta da diversidade e isso é óptimo. E toca vibrafone também! E depois há o Frank [Rosaly], que está neste grupo [IHF Chicago Sextet]. Ele é extraordinário, adoro tocar com ele e os dois curtimos muito. Algum do material que tocamos no Sextet também tocamos no The Young Mothers… é como uma troca de material mas com abordagens muito distintas. E há ainda o saxofonista [Jason Jackson] de Houston e o guitarrista [Jonathan Horne] de Austin.

Todos são muito fortes e super entusiastas. É um grupo muito interessante para mim. Vamos para estúdio em Setembro para produzir um disco. Estou muito animado com isso!

Em que projectos te encontras envolvido actualmente?

Bem, diria que o calendário está essencialmente ocupado com The Thing e Atomic. (risos) Muito… O Free Fall (comigo, o Ken Vandermark e o Havard Wiik) é também uma prioridade. Tentamos fazer o máximo que podemos. Estive há pouco numa tour com o Neneh Cherry e The Thing. Essa é uma colaboração que queremos continuar.

Estes são os principais projectos, para além dos meus solos e ensembles, mas que por agora ocupam a agenda toda.

E o que é que, na música, ainda não fizeste e gostarias de fazer?

Humm… só desejo melhorar, trabalhar no que tenho e adquirir profundidade no que faço. Quero muito dedicar mais tempo à composição… é uma coisa que realmente desejo. Mas é tudo uma questão de logística e de ter tempo em casa. É algo que tento tornar possível… Mas há sempre os gigs a dominar o calendário. (risos)

Em 2011 foste convidado pela Clean Feed para tocar no The Stone em Nova Iorque com alguns dos teus improvisadores preferidos. Queres comentar-nos um pouco essa experiência?

Primeiro, quero mencionar o quanto o Pedro [Costa] é uma pessoa importante na cena portuguesa. Ele é como uma força que faz com que as coisas aconteçam, e estou-lhe muito agradecido por existir e convidar-me. Desta forma, pude gravar o meu segundo disco com o Joe McPhee que, embora fosse uma prioridade para mim, só foi possível graças ao Pedro. E o mesmo relativamente ao convite no The Stone com o quarteto com Nate Wooley, Joe Morris e Joe [McPhee], que vai ser lançado em Setembro e que adorei fazer, e que consistiu num gig e numa gravação. Estou agora a trabalhar no material para o lançamento.

Mas não posso deixar de dizer o quanto aprecio o trabalho do Pedro e esta mentalidade de como o pessoal selecciona e olha para o trabalho deles. Portugal é um lugar generoso, aberto e importante. Acho Portugal fantástico. Adoro Portugal! (risos)

A Clean Feed, e um pouco na sequência do que acabas de referir, conduz-nos à cena do jazz em Portugal, País que visitaste já algumas vezes. Qual a tua opinião sobre o jazz, ou mais geralmente, sobre a música criativa em Portugal?

Parece muito viva. Há uma força e um entusiasmo que conduz as pessoas a fazer cenas em Portugal. Penso que é única e não acontece em todos os lugares. Não apenas por causa do Pedro, mas penso que por causa da mentalidade. As pessoas querem trabalhar e querem que as coisas aconteçam. Quero conhecer mais músicos, mas gostei muito dos que conheci e do que tocam.

O que podemos esperar do Ingebrigt Haker Flaten Chicago Sextet no próximo domingo, no Jazz em Agosto?

Não sei… Hoje foi o primeiro ensaio. É engraçado porque este é um grupo que tinha feito uma tour pela última vez em 2008. E de repente fui convidado o verão passado pelo Saalfelden Jazzfest. Foi completamente inesperado! Queria tocar outra vez, mas não sabia como, nem o que fazer. Mas quando fui convidado pensei “merda, vou fazer isto?”. Não tinha a certeza porque tinha sido há tanto tempo. Então convidei o Jason [Adaslewicz] e isso foi como uma lufada de ar fresco. Escrevi novo material que resultou bem e adorámos o gig. E depois o Rui [Neves] convidou-nos logo a seguir.

Ou seja, isto tudo acontece porque alguém nos convidou para uns gigs de novo. Foi algo que não pude controlar, o que é fantástico porque não tínhamos planeado tours com este grupo durante algum tempo.

Mas voltando à tua questão… estou a compor novo repertório para o grupo. Neste concerto haverá algum material antigo e algum novo em que ainda estamos a trabalhar. (risos) Será algo em aberto… haverá músicas com algumas influências rock, mais barulhentas, mas outras serão mais melódicas. Penso que a minha intenção é “esticar” e apresentar diferentes estéticas. Ou seja, algumas soarão mais harmoniosas, outras mais “out”, mais extremas. Vamos ver o que acontece. Estou super entusiasmado e ansioso! (risos) É tudo o que posso dizer.

Fotografia por Rui de Freitas



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