“Inside Llewyn Davis”

“Inside Llewyn Davis”

Um elogio ao folk.

Lembram-se de Dave Van Ronk? O “Mayor of MacDougal Street”?

Um ícone da cultura folk que, em 1960, começou a borbulhar em Greenwich Village. Dave Van Ronk viria a marcar profundamente esta onda cultural juntamente com nomes como Bob Dylan, Joan Baez, Phil Ochs ou Doc Watson. Na verdade, ele foi um dos primeiros cantores urbanos a encontrar o seu lugar dentro deste género musical, e as suas primeiras gravações remontam inclusivamente à década anterior. Nos anos 50, altura em que se mudou para Greenwich Village, já a sua linguagem se começava a pautar pelo idioma folk e teve início um movimento de tal forma poderoso que o American Folk Revival deu origem a um estilo que nunca mais se dissociou do tecido da música americana, e além-fronteiras.

Um ícone que vem agora servir de inspiração para os irmãos Coen que, através destas pautas musicais, criaram uma espécie de homenagem aos artistas desta época, ao folk, e a um dos bairros que foi berço de muitas e importantes revoluções culturais, e que acolheu muitos outros mestres como é exemplo John Lennon ou Jack Kerouac. E, se o regresso de Joel e Ethan Coen ao grande ecrã já é, só por si, motivo de grande excitação, este “Inside Llewyn Davis” no arranque de mais uma edição do LEFFEST em Lisboa suscitou um bocadinho mais do que isso. Elevaram-se as expectativas dos cinéfilos, dos Coenianos, dos folkianos, dos Bob Dylanos e até dos fãs do pop de Justin Timberlake.

Poderá até parecer algo arrojada a proposta de um casamento entre a sétima arte dos Coen com os acordes de uma música que traduz as inquietações provenientes de uma sabedoria popular, mas o resultado é realmente surpreendente. Não só somos brindados com uma excelente produção cinematográfica como também vemos nascer uma banda sonora esmagadora. O excelente trabalho musical tem a assinatura de T-Bone Burnett que, antes de ser produtor, foi guitarrista do próprio Bob Dylan. Destacamos uma das pérolas que foi resgatada através deste trabalho, a “Farewell” de Bob Dylan, que é também a que melhor se coaduna com o que estamos prestes a ver no grande ecrã. Uma música que nasce com uma história semelhante à da vida do protagonista do filme, já que foi gravada originalmente durante as sessões do “The Times They Are A-Changin”, em 1964, mas foi excluída do LP. Propositado ou não, esta é uma excelente metáfora para começarmos a conhecer Llewyn Davis, cujos detalhes do seu dia-a-dia são, também, pintados em traços de rejeições constantes.

Llewyn Davis não é, no entanto, uma biografia real de Dave Van Ronk. O protagonista é um cantor folk que tenta ganhar a vida como músico mas que, em todas as suas tentativas, vê o fracasso morar mesmo ao lado. Embora o talento lhe seja reconhecido imediatamente nos momentos iniciais do filme, Davis não é recebido de braços abertos pelas plateias dos bares nocturnos de Greenwich Village e não consegue fazer-se ouvir numa época em que o folk ainda não significa muito mais do que a herança dos seus contornos históricos. O folk é ainda um estilo musical que remonta a um saber popular e, claro, Dylan ainda não existe, e o folk ainda não passa nas rádios.

Na cena inicial do filme somos brindados com Oscar Isaac a interpretar a lindíssima “Hang Me, Oh Hang Me”, e parece-nos justo dizer que, quem assiste a esta primeira parte, já não vai conseguir voltar atrás. São acordes de um folk intemporal, envolvente, quase poético. Uma estranha e poderosa sedução por um género musical do qual não nos lembrávamos de que gostávamos tanto.

Mas onde antes reinava uma espécie de uma atmosfera fascinante, ao começarmos a mergulhar no enredo do filme, esta é tomada de assalto por uma abordagem mais crua sobre o protagonista, onde impera uma permanente inquietação. A viagem pelo seu dia-a-dia é detalhada e pormenorizada, e aos fracassos sucedem-se novas tentativas falhadas. Llewyn vive numa busca incessante pelo sucesso, e todas as restantes personagens que se articulam em seu redor não são mais do que a representação de todas as arestas do seu próprio fracasso. A ex-namorada (Carey Mulligan) é a personificação da rejeição e, em conjunto com o seu novo namorado (Justin Timberlake), personificam a vida que devia (ou podia?) ter sido a de Llewyn. Por sua vez, a prova definitiva do insucesso de Llewyn é veiculada através do seu empresário que parece não ter muito mais para lhe dar do que um casaco de Inverno (usado). Mas os simbolismos não se encerram aqui. À melancolia das personagens é ainda adicionada a atmosfera de uma Nova Iorque sombria, quase sepulcral, conseguida através da utilização de cores dessaturadas, frias, tristes. Ao director de fotografia Bruno Delbonnel, já reconhecido pelo trabalho em filmes como “Le Fabuleux Destin d’Amélie Poulain ou Harry Potter and the Half-Blood Prince gaba-se-lhe o excelente trabalho na produção e captação destes elementos visuais que adicionam à narrativa o eco de um Inverno implacável que não só cai sobre Nova Iorque, como também (e principalmente) na vida de Llewyn.

“Inside Llewyn Davis”

Esta é uma história que, apesar de ser uma falsa biografia de Dave Van Ronk, é montada num contexto cuidadosamente elaborado que vem resgatar algumas memórias dos ícones do folk dos anos 60: Llewys sobrevive a saltar de casa em casa, mais propriamente de sofá em sofá, o que vai beber inspiração aos primeiros anos de convivência entre Dave e Bob Dylan, nos quais Dylan passava grande parte do seu tempo a dormir no sofá de Dave. Outro traço nítido de Dave em Llewys é o facto de este não se imaginar a viver noutro lugar que não em Greenwich Village, um amor que se afigura como uma espécie de inevitabilidade da sua vida. Este e o amor pela música são, de resto, as únicas ligações emocionais que lhe sentimos, já que em todo o filme nunca lhe conseguimos ler uma capacidade de estabelecer vínculos afectivos duradouros. Nem mesmo com um gato.

Uma odisseia pela vida Llewyn que, apesar de todos os altos e baixos, mantém a perseverança ao longo de todo o filme e nunca desiste do objectivo de singrar enquanto cantor e guitarrista. O filme acaba por funcionar como que uma espécie de definição do que é ser músico e um reflexo do que é necessário fracassar para, eventualmente, se alcançar o sucesso. É como se Llewyn carregasse em si o lado mais duro do caminho que percorrem os que ambicionam uma carreira na música, onde as noções de sucesso e fracasso nos são apresentadas como sendo bem mais subjectivas do que aparentam.

Por outro lado, os irmãos Coen encontram neste descompromisso com a reprodução fiel da vida de Dave uma excelente oportunidade para elogiar a pulsão do folk dos anos 60. No final do filme ficamos com a sensação de que deixámos de ser nós a escolher o que queremos ouvir. “Inside Llewyn Davis” tem a capacidade de desvendar o que ainda não sabíamos que era o que nos andava a apetecer ouvir.



Também poderás gostar


There are no comments

Add yours

Pin It on Pinterest

Share This