“Insurgente” | Veronica Roth

“Insurgente” | Veronica Roth

Qual é a tua facção?

«A palavra é prata, o silêncio é ouro», já diziam os chineses num dos seus sábios provérbios. Em relação a “Insurgente” (Porto Editora, 2013), o segundo livro da trilogia Divergente saída da pena – ou do teclado – de Veronica Roth, apesar de não nos querermos sair daqui com uma crítica silenciosa, há que tentar escrever com um pouco de contenção, ao estilo de um jogador da bola comprometido, de modo a não ferir sensibilidades; e, sobretudo, de modo a não retirar o prazer da leitura e da descoberta que, no caso desta saga, é semelhante ao de comer sozinho um balde de Haagen-Dazs.

Nesta distopia somos transportados até à americana Chicago, uma cidade recolhida e fechada ao exterior por portões vigiados por guardas armados, conhecendo uma sociedade que assenta numa rígida divisão de classes: os Abnegados têm uma mentalidade de colmeia, rejeitam o culto da imagem (não se olham ao espelho) e fazem do altruísmo a sua essência; os Cândidos encaram a verdade como se fosse algo tão simples como entre decidir entre o preto e o branco, escolhendo a sinceridade como o mais alto valor humano; os Intrépidos defendem a vedação que cerca a cidade, saltam de comboios em andamento e fazem da coragem a sua força motriz; os Cordiais não têm um líder oficial, dedicam-se à agricultura e procuram a paz, o seu desígnio maior; os Eruditos têm uma profunda sede de conhecimento, fazem-se cercar de livros e de computadores e procuram estimular a inteligência; e há também os Sem-Facção, que têm de viver nas ruas afastados da sociedade.

Todos os anos tem lugar uma cerimónia anual, dirigida aos jovens de 16 anos, que têm de decidir qual a facção a que irão pertencer para o resto das suas vidas. Caso escolham uma facção diferente daquela onde vivem com os pais e família, isso implicará um afastamento permanente em relação à sua vida anterior, um corte de relações que, normalmente, é para a vida inteira. «A facção antes do sangue», gritam todos em uníssono. Para Beatrice Prior, o exame de aptidão irá revelar-se uma tremenda surpresa.

“Insurgente” | Veronica Roth

Em “Divergente”, acompanhámos o processo de iniciação de Beatrice, com níveis de competição a roçar a violência e a crueldade. Beatrice defende com unhas e dentes um segredo que pode colocar a sua vida em perigo, percebendo mais tarde que essa informação poderá ser a chave para salvar aqueles que ama. Como livro iniciático introduziu-nos à personagem de Beatrice, e a um mundo onde a linha entre a amizade e a inimizade pode ser bastante ténue. É um livro que retrata o final da infância e a perda da inocência, iluminando as primeiras e estranhamente aceleradas batidas de coração.

Agora, no segundo livro da saga, o papel de cenário tem outra espessura, instalando-se um certo negrume. As amizades são testadas, o romance cede lugar ao desencantamento, a política e a estratégia tomam conta de todas as facções, algumas indecisas entre lutar ou enfiar a cabeça na areia, à espera que tudo se resolva por artes mágicas. E é também o tempo de conhecer um segredo que irá mudar, para sempre, a vida de todos os habitantes de Chicago.

Distopia para jovens ou adultos já feitos que não fechem os olhos à ficção, “Insurgente” oferece uma curiosa reflexão sobre a política e a natureza humanas, numa cidade que se fechou em si mesma com medo de saber o que está para lá dos portões. Virada a última página, fica no ar a pergunta: quem se atreve agora a passar para o outro lado? A espera pelo terceiro livro, com a edição americana prevista para 22 de Outubro deste ano, promete ser bastante dolorosa.



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