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Inúteis? Não agora

São dez os artistas que compõem o catálogo da Amor Fúria, número redondo que o futuro tratará, com toda a certeza, de "desaredondar". Alguns factos e curiosidades a reter.

A Amor Fúria, como os próprios homens do leme fazem questão de assumir, é uma editora local/regional que pensa de forma global – e quando referimos global estamos a falar de um Portugal que hoje é capaz de se olhar ao espelho sem o desprezo de outrora, esses malditos anos 90 e os primeiros anos do século XXI que quase mataram a língua portuguesa, musicalmente falada. O que sobra desse Portugal? David Fonseca. Os Gift. Paulo Furtado. Mais? Quem se lembra dos Loto, por exemplo? Qual é a relevância, nos dias que correm, de uma banda como os Blind Zero?

É doloroso reconhecê-lo, mas, nesses negros anos, a música cantada em português era maioritariamente constituída por aquilo que se convencionou chamar de pimba. O ponto de viragem? Aos poucos, os trilhos iam sendo novamente abertos, mas, ou muito nos enganamos ou “IV”, o primeiro álbum a sério de Tiago Guillul vai, daqui a uns anos, ser considerado um dos mais fundamentais discos da história da música portuguesa e, principalmente, da música cantada em português. O que se seguiu, a partir daí, foi uma verdadeira montra de talento que desabrochou e resultou naquilo que aplaudimos agora, de pé. A FlorCaveira, a Enchufada, o MAR e, claro, a Amor Fúria. Dentro deste grupo, destacam-se, nos últimos anos, a Amor Fúria e a FlorCaveira que, lado a lado, construíram uma identidade muito própria que por vezes se confunde. Há vários pontos em comum: a ligação entre vários artistas/bandas das duas editoras, uma relação por vezes afectiva; A tradição como ponto de partida para uma música que não esquece o passado, mas que também tem o futuro como meta definida; A consciência daquilo que valem/representam neste preciso momento e a confiança que têm nos vários talentos que são potencializados; Mas separemos as águas.

Tentamos encontrar um fio condutor para as dez bandas que compõem a Amor Fúria, mas não é um exercício simples. Agarramo-nos às referências. Os Salto agarram-se aos sintetizadores, mas não largam a atitude indie, parecem uns Hot Chip com menos azeite, mas também menos entusiasmantes. Os Capitães de Areia espalham guitarras africanas enquanto deitam a toalha na areia de óculos de sol cool e calções da moda. Manuel Fúria, enquanto artista a solo, é capaz de mostrar alguns paralelismos com o trovador e talento absoluto da FlorCaveira, B Fachada, e com homem que até a citar os Talking Heads o faz com classe, João Coração. Apesar dos paralelismos, a música de Manuel Fúria, o fundador da Amor Fúria, tem tudo para continuar lado a lado com o trabalho n’Os Golpes.

Depois temos Os Quais, a banda que é um duo e que mais se afasta do objecto conceptual – se é que tal existe – da editora. Brincam com a gastronomia – os já famosos bifes no Chiado, tortellinis, entre outras preciosidades -, piscam claramente o olho a Caetano Veloso – aliás, a imagem do Myspace do duo é uma fotografia de Pelé e Eusébio – e, acima de tudo, têm grandes, grandes canções. Todas as quatro que estão no Myspace são muito boas e resumindo muito bem a coisa, há um solo de John Coltrane, sons que saem de um Omnicord, instrumento electrónico pouco comum de formato curioso, algumas assobiadelas e o pé no alcatrão. Altamente recomendável. Chegamos aos Golpes, a banda de Manuel Fúria, Luís Afonso, Nuno Moura e Pedro da Rosa, que parece apostada em dar a credibilidade necessária à música de baile. «Arraial» e «Vá lá Senhora» – clássico instantâneo, material para ser lembrado daqui a 50 ou 100 anos, sem exagero – não nos deixam mentir. As guitarras apontam para a anca em duas canções que merecem ser ouvidas por esse Portugal profundo fora. A verdade é que os Golpes têm tudo para dar certo – a guitarra, enquanto objecto físico, de Manuel Fúria, o próprio Manuel Fúria, enquanto, como já alguém disse, grande candidato a ícone ou o facto de brincarem com as influências – não as negam, entregam-nas de mão beijada. Exemplos: a participação de Rui Pregal da Cunha em «Vá lá Senhora» e o título do primeiro disco: “Cruz Vermelha sobre fundo Branco”. Ah! e aquela transição de «Marcha dos Golpes» para «Arraial» é das melhores coisas que ouvimos nos últimos anos na música nacional.

De Braga surgem os Smix Smox Smux. Humor incontido, algum punk, o falsete aqui e ali e sempre com uma piada na ponta da língua. Se de McGuyver se diz que criava uma bomba a partir de um palito, os Smix Smox Smux criam uma piada a partir de uma aventura do quotidiano, o aquecimento global ou as misturas que se fazem com o Whisky. E não serão a primeira banda em todo o mundo a mencionar Nestum e Chocapic numa canção? Voltamos a descer no mapa e encontramos Os Velhos, os autores do potencial êxito que não chegou a sê-lo, «O céu é um lugar na terra». Vão com grande facilidade dos Joy Division aos Veils, Bloc Party e uma outra infinidade de bandas independentes, o que pode levar a uma ideia de indefinição que só o futuro nos poderá esclarecer. Já Martinho Lucas Pires e o Deserto Branco é o songwriter que tanto se senta ao piano como se agarra à guitarra acústica para criar canções que nos lembram os Yo La Tengo, mas também nos trazem os Strokes à cabeça, ainda que caminhem longe, longe do rock. Por seu lado, dos Verão Azul há que referir que vão do shoegaze mais acústico – se é que tal existe – ao extraordinário «69 Love Songs» dos Magnetic Fields. E, por fim, os Feromona. Quando não são donos de um pós-grunge cru soam aos norte-americanos Wavves com coros amadores incluídos. No final de “Desóliude”, o disco de estreia deste power-trio, uma única certeza: Isto não é Hollywood e na Amor Fúria eles surgem como cogumelos e prometem continuar a dar notícias. Fiquemos atentos.



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