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“Io e Te”

Um regresso de Bertolucci

Mas talvez não O regresso que esperávamos. Conhecemo-lo através daqueles filmes quase excessivamente densos e dramáticos como é exemplo o Last Tango in Paris (Ultimo tango a Parigi, 1972), e já não lhe esperamos menos.

Dez anos volvidos desde o seu último filme, Dreamers (I Sognatori, 2003), o realizador regressa aos grandes ecrãs com este Io e Te, numa revisita às convulsões do Maio de 68 e à noção do nós enquanto entidades solitárias perante a fragmentação do conceito de família clássica.

Com 72 anos de idade Bernardo Bertolucci adapta o último livro de Niccolo Ammaniti e produz um filme sobre Lorenzo (interpretado por Jacopo Olmo Antinori), um adolescente solitário de 14 anos que vive num universo algo paralelo, algo angustiante. Exploram-se os temas da construção e descoberta do eu-sexual, já tão íntimos da carreira do cineasta.

A história começa a envolver-nos assim que conhecemos o protagonista e a inquietação que o acompanha através dos detalhes que os planos e a narrativa fílmica de Bertolucci desenham diante dos nossos olhos. Mestre da criação de simbolismos, o cineasta retracta a auto-anulação social e o isolamento de Lorenzo de uma forma majestosa através de cenas em que ouvimos a banda sonora (que é absolutamente excepcional, diga-se) através dos headphones de Lorenzo, que sentimos como se estivessem nos nossos próprios ouvidos. Esta habilidade técnica e artística funde-se com o próprio conteúdo narrativo, e quase conseguimos perceber porque Lorenzo prefere a companhia dos Muse, Red Hot Chillipeppers, The Cure (etecetera!) da sua vida interior a uma outra qualquer, do mundo exterior.

Neste exterior a única relação que lhe percebemos é a que tem com a mãe, Arianna (Sonia Bergamasco), e compreendemos que estamos perante a exploração do tema da construção da identidade quando o Complexo de Édipo se revela através de um diálogo desconcertante entre o protagonista e a mãe. Lorenzo questiona se, caso fossem as únicas duas pessoas a ficar na terra depois de algum tipo de catástrofe apocalíptica, até onde iriam para repovoar a terra. O desconforto sexual está instalado.

É apenas quando tenta conversar com um empregado de uma loja de animais que percebemos que Lorenzo, que até então parecia viver feliz na sua própria solidão, anseia afinal por estabelecer contacto social. É nessa tentativa de diálogo que sentimos alguns traços de um narcisismo intermitente, que se concretiza quando Lorenzo opta por comprar um formigueiro. Algo que lhe vai permitir assumir um ponto de vista superior, de observação do detalhe, ao detalhe. Assim como que… uma espécie de Deus na terra. Uma cena do filme carregada de simbolismos sobre a sua aparente incurável solidão.

O formigueiro é, de resto, a única companhia que o protagonista escolhe para as suas férias de sonho. A oportunidade surge quando a escola organiza uma semana na neve, mas Lorenzo planeia minuciosa e detalhadamente uma experiência diferente. Sete dias de isolamento total do mundo… na cave do seu prédio. Com os seus produtos preferidos em versão ‘sete pacotes de’ , livros de fantasia e terror, música, e as formigas.

Este paraíso de isolamento é interrompido quando a meia-irmã Olivia (protagonizada pela fotógrafa Tea Falco) surge em cena. Toxicodependente em recuperação (ou tentativa de), e sem elos familiares que lhe possam valer, Olivia vê no resort de luxo de Lorenzo o local perfeito para ultrapassar o seu período abstinência de Heroína.

Duas almas inquietas num mesmo espaço, frente-a-frente, e unidas pelo incómodo sentimento do (auto)desconhecimento. A acção passa a concentrar-se toda neste cenário, algo ao qual já estamos habituados pelo realizador em obras como Last Tango in Paris ou Dreamers. Também aqui se fala apenas nUm regresso da temática, já que em ambos os dois anteriores a elasticidade dos personagens e a densidade psicológica foi sempre superior.

O jogo da aproximação entre eles, a tensão erótica e a expectativa que Bertolucci constrói ao longo do filme atinge o seu apogeu no momento em que ambos dançam ao som de “Regazzo Solo, Regazza Sola” de David Bowie. Esta e as restantes cenas finais são sublimes.

Fruto de um magnífico trabalho de construção de personagens, ao realizador coube a proeza de captar a profundidade de ambas sem nunca perder a sensibilidade inerente a cada uma das individualidades. Não estamos perante personagens estereotipadas. Lorenzo e Olivia são únicos, irredutíveis e intensos. No entanto, a história narrativa é simples, tendo-me feito lembrar a simplicidade do envolvente Moonrise Kingdom, de Wes Anderson, onde também observamos as questões do amadurecimento sexual através do olhar de um adolescente.

É Um muito bom regresso. Mas, para ser O regresso, tinha de ter mais do descontrolo, da ansiedade e do reconhecimento do desespero que conhecemos através do clássico com Marlon Brando, ou dos conflitos e desestruturações psicológicas que pautam o conformismo do papel desempenhado por Jean-Louis Trintignant.

Como satisfação muito pessoal trouxe a constatação de que Bertolucci continua com a mesma capacidade de revelar novos talentos, ao dar-nos a conhecer a fotógrafa Tea Falco. Alguns dos trabalhos da artista aparecem no filme, e inevitável é não ficarmos com vontade de conhecer mais sobre o seu trabalho: www.teafalco.com.



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