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“Isto não é um filme”

É a prisão domiciliária (ou um domicílio de um prisioneiro).

Micky é o cão da vizinha do segundo andar, do prédio de Pahani, cuja presença se revela insuportável. De tal forma, que ninguém quer tomar conta dele, nem que seja por apenas dois minutos. Conhecemos Micky no documentário de Pahani que nos revela alguns momentos da vida do realizador, enquanto aguarda a resposta ao recurso da sentença que o condenou a seis anos de prisão e a vinte anos de proibição de filmar ou escrever argumentos.

Nesse documentário, Pahani conta-nos a história de uma pequena actriz, Mina, que a meio de um momento de representação grita: “eu já não estou a representar”. Mina está a ser filmada num autocarro e exige que este pare e que a porta seja aberta para sair. “Isto não é um filme” é o momento em que Pahani, tal como Mina, faz parar a cena, ao tornar a sua prisão domiciliária num momento de criação daquilo que não pode existir: um filme realizado por si. O governo iraniano esquece-se que nem sempre aquilo que pode existir coincide com aquilo que existe. Pahani cria uma brecha de existência entre o que pode ser e aquilo que é, dando vida à contradição de liberdade que se respira entre quatro paredes.

Voltemos a Micky. O cão que representa aquilo que é não devia ser. É o regime que amarra os seus cidadãos e os impede de criar, criticar e ser. Micky é um cão irritante que ninguém suporta, mas que todos conhecem. É um cão a que alguns fazem frente. Como Pahani e Mirtahmasb.

Pahani é, também, aquela rapariga que fica fechada em casa, porque a sua família não a pretende deixar seguir um percurso académico – é precisamente a estória desta rapariga que o realizador iraniano nos relata no seu último filme (por realizar, entenda-se). Pahani é (e não é), as personagens dos seus filmes, que buscam a essência do ser livre e criativo.

O que Pahani propõe a Mojtaba Mirtahmasb é “criar uma imagem para que o espectador veja o filme que não foi feito”. O que restava a um realizador que estava proibido de realizar filmes? Que foi acusado de crime por realizar filmes? “Resta-lhe” representar e ler argumentos (as únicas coisas que não foram consideradas crime pela “justiça” iraniana).

“Isto não é um filme” ficou famoso por ter ultrapassado as fronteiras, em direcção a Cannes, numa pen escondida dentro de um bolo. A mensagem dos cineastas, ao Festival de Cannes, foi: “A essência reveladora da arte ajuda o artista a vencer os problemas, mas também a transformar qualquer limitação em tema de trabalho artístico através do processo de criação”.

Este filme, que não o é, foi apresentado no DocLisboa, no Cinema São Jorge, no dia 23 de Outubro de 2011. A sua exibição, a nível nacional, está agendada para o dia 3 de Novembro.



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