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Ivo M. Ferreira & João Salaviza

A nova cinematografia nacional deixou a sua marca no IndieLisboa 2009. Estivemos à conversa com dois realizadores independentes que tiveram os seus filmes na secção competitiva internacional do festival.

No âmbito da edição de 2009 do Festival de Cinema independente – IndieLisboa, falámos com Ivo M. Ferreira e João Salaviza, dois realizadores que representam o novo cinema independente português, e tiveram em competição (nacional e internacional), “Águas Mil” e “Arena” uma longa e uma curta-metragem, respectivamente. A ideia de juntar os dois para a entrevista partiu da temática da liberdade. No caso de “Águas Mil” o tema não está apenas representado através do 25 de Abril, mas também na procura da “liberdade pessoal” da personagem principal. Em “Arena” o tema surge de uma forma mais explícita pois tem como mote alguém que se encontra em prisão domiciliária e que vive num bairro problemático.

Antes da entrevista, duas pequenas notas. Para além de “Águas Mil”, Ivo M. Ferreira apresentou também no Indie a curta “Vai com o Vento”, igualmente abordada na conversa seguinte. O filme de João Salaviza, “Arena”, para além de ter vencido o “Prémio para Melhor Curta-metragem Portuguesa” no Indie, vai estar em Cannes na selecção oficial do Festival.

DA CHINA AO 25 DE ABRIL, DAS CURTAS ÀS LONGAS-METRAGENS

RDB – A acção do filme começa nas comemorações do 25 de Abril. Sentiste necessidade de explicar os factos do 25 de Abril através do filme?

Ivo M. Ferreira (IF) – O filme começa uns dias antes do 25 de Abril e queria-se pôr a acção no presente mas “contaminada” com o passado. Ou seja, aquilo é um presente, mas poderia ser um flashback. A acção começa de facto no 25 de Abril, mas a primeira sequência é uma ponte entre o passado e o presente. Porque o filme fala do desaparecimento do pai do Pedro no período pós-revolucionário, e quis situar aí a acção por ser uma altura política que me interessa muito. Espero que o filme faça as pessoas reflectirem sobre qualquer coisa, não tanto a nível pedagógico, mas sim através de uma perspectiva mais pessoal.

Em Portugal todos estão familiarizados com a revolução, mas não faltará alguma contextualização do filme para os espectadores estrangeiros?

IF- Isso é uma pergunta interessante, mas curiosamente eu fiquei muito triste quando apresentei o filme em Roterdão, porque a meu ver havia coisas para mim que eram muito importantes, das quais eu achava que as pessoas iriam falar muito, como por exemplo das polaroids. E de repente vejo-me em Roterdão e toda a gente fala de política, e fazem perguntas sobre o 25 de Abril. Nas entrevistas perguntavam-me sempre o que é que tinha acontecido em Portugal nessa altura.

Não achaste necessidade de contextualizar mais, ou seja, podias ter feito de outra forma e se calhar no início do filme aparecerem alguns flashbacks atrás para uma melhor contextualização?

IF – A minha questão é que o filme relata o caso de um indivíduo e isso para mim era muito claro. Depois existe aqui outro pormenor, que é a política, que tem a ver com a nossa memória, com a história recente de Portugal contemporâneo. Mas é essencialmente a história de um indivíduo, embora eu ache interessante quando, na cena da manifestação, as pessoas poderão questionar se é ou não científico. Mas eu acho que o cinema é a interpretação da vida, da realidade, da história, é a minha interpretação e não tem que ser fiel a coisa nenhuma senão a mim próprio.

E por falar em “fidelidade”, quando têm uma ideia, preocupam-se apenas em realizá-la ou também procuram saber se existe um público para o qual querem passar uma mensagem?

João Salaviza (JS) – Na minha opinião, penso em fazer um filme que eu gostasse de ver, e vou acreditar que existe mais alguém que gostasse de o ver, porque nunca vamos agradar ao público em geral, já que este é uma entidade abstracta, que não existe. O público são as 300 pessoas que estão sentadas numa sala, e cada uma delas é um público. Ou seja, não acredito que os filmes devam ser uma tese, em que tentas através deles provar algo. Acho que os filmes devem ter alguma ambiguidade, serem abertos às interpretações pessoais de cada pessoa.

IF- Concordo inteiramente com tudo o que o João disse e para não me estar a repetir, faço sempre um filme para mim, porque acho que não há outra forma de o fazer.

Existe uma noção de viagem muito forte. O Pedro faz diversas viagens, não só geográficas mas também através do tempo, sendo acompanhado pelos personagens secundários. Achaste que esta foi a melhor forma de relacionar uma história pessoal com os eventos do dia 25 de Abril?

IF – Foi sempre a viajar que me senti melhor, pois é ao afastarmo-nos do nosso objecto de observação que conseguimos ver melhor. Porque se não se fazem rupturas, ficamos como que embriagados pela vida e parece que ela nos passa ao lado. Acho, por exemplo, que o Pedro podia passar a vida inteira em casa da sua avó mas é precisamente o facto de ter que sair dali que o vai permitir voltar diferente.

No filme nunca se chega a saber ao certo se o Eduardo, o pai do Pedro, desapareceu ou morreu, ficando o espectador na dúvida. Quiseste deixar esse mistério no ar para adensar ainda mais a carga emocional que percorre toda a acção?

IF – Eu sei o que aconteceu com o pai do Pedro e isso está presente no texto do Heiner Muller, no qual um agricultor não percebe a revolução, e por ele não a perceber, atrasa-a. Como consequência, vai ter que ser executado. E o revolucionário aponta uma arma à cabeça do agricultor, mas não chega a executá-lo, atrasando também a revolução, tendo ele que ser posteriormente executado por um colega. E para mim o pai do Pedro falhou com a revolução quando não matou o industrial, e como mais tarde ou mais cedo vai ter que ser confrontado pelo seu camarada, por não o ter feito, a sua única solução é o suicídio.

Onde te inspiraste para a escolha dos locais em que filmaram, nomeadamente em Espanha, em Isleta del Moro?

IF – Sobretudo por ter que falar no passado e queria que a acção fosse vivida no presente. Eu sabia como a história começava e como acabava. Na altura tinha meia dúzia de trocos e comprei uma roulotte exactamente igual à do Pedro, peguei no carro e fui fazendo a viagem ao longo da mesma estrada, escrevendo ao mesmo tempo. A minha ideia era dissecar a paisagem, apesar de o início do filme ser mais fresco, pois começa com chuva, mas o que eu queria mesmo era mostrar a aridez da paisagem.

O filme é também uma homenagem ao Clint Eastwood, porque há lá uma cena típica de western spaghetti

IF – Sim, nesse local foram feitos todos os filmes do Sergio Leone. Este cenário remete para um imaginário infantil de cowboys. O que se passa na cena do western é uma outra versão do que se passou com o pai do Pedro, e acho que há aqui uma redenção através deste personagem que morre três vezes por dia.

Existem “poucos” diálogos nos filmes. Uma imagem vale sempre mais do que mil palavras?

IF – Essa foi a minha grande trabalheira no argumento e na montagem. Para colocar uma acção no passado, precisava realmente de dar informação e a ideia foi tentar introduzir o menor número de diálogos possível.

E como é ter um filme num festival como este, logo em simultâneo em duas categorias em competição internacional e nacional de longas-metragens? Ficaram surpreendidos?

IF – Surpresa não, porque eu fui sabendo. Para mim a grande questão era que tinha acabado dois filmes e ia ter uma grande exposição dos mesmos, porque os filmes são muito frágeis quando saem para o público, e escolhi o Indie porque defende os filmes e para mim o mais importante é entregá-los a quem mais gosto.

Em relação às curtas, não sentem necessidade de as mostrarem fora do circuito dos festivais?

JS – Existe uma grande dificuldade porque acho que ainda existem muitos preconceitos com as curtas-metragens. O Manoel de Oliveira continua a fazer curtas, por convites, ou seja, se achasse que as curtas-metragens não interessavam não as fazia. A exibição de cinema está toda muito formatada, ou seja, uma sala não tem a liberdade comercial para dizer que lhe apetece mostrar três curtas porque são muito giras, ou um filme de cinco horas pois cada vez mais as coisas estão formatadas, tanto na televisão como na exibição. Eu acho que a minha curta vai circular por festivais, mas podemos ambicionar um dia metê-la numa sala.

João, ainda não realizaste uma longa. Ambicionas fazê-lo um dia?

JS – Enquanto não tiver uma ideia que justifique fazer uma longa… porque nem penso em longas e curtas. A curta do Ivo tem um formato que não é considerado muito propício para edição, ou seja não é bem uma curta nem é bem uma longa, mas tem o tempo que precisava de ter.

Retomando o tema da curta, o “Vai com o Vento”, que é um documentário sobre a imigração chinesa para a Europa, conta a história de um rapaz que abandona a sua cidade e vem para Lisboa. Pensas que o documentário enquanto género cinematográfico pode atrair mais público?

IF – Não faço ideia. Mas enquanto documentário, o que pode acontecer eventualmente é funcionar melhor ou pior em termos de vendas internacionais. É um tema que me é muito querido, e sendo uma história de imigração, a ideia era eu mostrar a China e as suas realidades, as suas gentes.

O filme do Ivo é em formato digital, mas o do João é em 35 mm. Acham que o futuro passa apenas pelo digital?

JS – Eu acho que isso é o mesmo que perguntares a um pintor o que será melhor: o óleo ou a aguarela. Acho que a estética de um filme tem que ser pensada também em função do seu formato, agora aquela conversa do que é que é melhor ou pior, penso que é uma falsa questão.

Era um formato que até há uns anos não existia. De certa forma vocês têm que se adaptar a ele?

JS – O digital permite coisas incríveis, uma liberdade tremenda.

IF – O primeiro filme que fiz foi em Macau e comprei uma câmara com 16 mm. É evidente que é uma opção estética mas também é cara. Se filmares em película, podes filmar numa semana, mas se filmares em DV pode ser em 6 semanas, é claro que eu tenho que ver qual das duas opções me interessa mais financeiramente. No próximo filme será uma questão que eu tenho que pensar muito bem. De certa forma o budget limita um pouco a rodagem e tudo o que a envolve.

A ARENA DE JOÃO SALAVIZA

Em “Arena”, Mauro o protagonista, está em prisão domiciliária, perdendo totalmente a noção espacio-temporal, deixando que outros alterem por completo a sua rotina diária. De que forma te inspiraste para a construção do argumento da curta?

JS – A minha ideia era explorar a liberdade, se bem que a liberdade é uma coisa um bocadinho efémera, e até no filme do Ivo se percebe que a liberdade é um estado que nunca é atingido de uma forma plena, e também a ideia do lugar de onde vimos, como o teu bairro condiciona sempre a nossa vida e a nossa rotina, tal como os sítios para onde vamos. E a questão de ele estar em prisão domiciliária era o ponto que me interessava mais, pois se formos a ver todas as personagens estão “presas” de alguma maneira. Ou seja, mesmo que ele não tivesse uma pulseira electrónica no pé, estava preso à realidade do bairro onde vive. Eu não gosto muito de explicar o título, mas a questão da arena não é muito difícil de perceber. Não há nada conceptual, é mais abstracto.

“Arena” é um filme muito violento… quiseste demonstrar a realidade nua e crua dos bairros problemáticos?

JS – Não, eu não tento passar mensagem nenhuma, porque quando tu vês o filme acho que se sente que há um distanciamento da câmara, porque acho que a violência é dificílima de filmar. O que acontece em muitos filmes é que os personagens saem de campo, levam pancada e voltam com a cara cheia de sangue, isso não também não me interessava fazer. Tentei ser fiel à minha interpretação e ao que vi, às histórias que eu próprio ouvi dos actores. Penso que o filme é ambíguo o suficiente para cada pessoa achar aquilo que quiser.

Tanto na tua 1ª curta-metragem, “Duas Pessoas”, como nesta última, a temática da solidão está muito presente nas personagens. Sentiste necessidade de demonstrar este sentimento através dos olhos das personagens?

JS – Penso que tens razão. Por acaso nunca tinha estabelecido uma associação, mas acho que existe uma solidão nas personagens. Acho que as personagens que construí acabam por estar sempre muito isoladas em elas mesmas, e isso acaba logicamente por interferir na relação das personagens com o mundo. E neste caso há uma razão muito concreta, o tipo está preso em casa, confinado àquele lugar, e no outro filme acontecia um bocado a mesma coisa, porque a relação com o tempo é importante. Geralmente constróis uma narrativa e há uma progressão no tempo em que as coisas se vão alterando, e teoricamente se quiseres fazer um filme, com as regras narrativas convencionais, há uma progressão tremenda na personagem, nos espaços… tudo muda. E neste filme, acho que filmei mais aquilo que acontece quando as coisas não mudam, porque no fundo aquela personagem sai de casa, para viver um momento de liberdade absolutamente efémera, num sítio que não corresponde propriamente à ideia romântica que temos de liberdade, porque é uma fábrica, suburbana, com os prédios lá ao fundo, mas acho que este caminho que a personagem faz vai acabar exactamente no mesmo sítio onde começou.

Na minha opinião acho que essa cena está perfeita, a cena do final, a da espiral.

JS – A ideia era uma pouco essa. As coisas para algumas pessoas mudam em determinados momentos da vida ou, lá está, pelo sítio de onde vimos às vezes podem não mudar e a mim interessa-me filmar porque é que as coisas não mudam para algumas pessoas. E acho que este miúdo, o alemão, vai voltar para o bairro e se calhar vai ter uma vida parecida com o tipo que acabou de espancar duas horas antes, portanto nesse sentido acho que é uma narrativa que tenta filmar o que são as coisas que não mudam, tanto do ponto de vista social, como do ponto de vista pessoal.

A minha próxima pergunta é a mesma que fiz ao Ivo. O que é que sentes ao participar no Indie?

JS – Subscrevo tudo o que o Ivo disse em relação ao festival, que sigo desde o início como espectador, e este ano continuo a fazê-lo, embora tenha lá um filme. Acho que o Indie faz uma escolha muito responsável, mas isto é sempre muito subjectivo, porque os festivais têm o poder de legitimar o filme e há muitos bons filmes que se mantêm obscuros, porque alguém não gostou deles. Mas penso que os programadores do Indie têm uma escolha muito responsável e ousada dos filmes que mostram, ou seja, não têm problema em pôr filmes que se calhar o público pode não gostar, mesmo que a proposta seja interessante e que faça parte de um projecto em desenvolvimento de algum realizador. Por exemplo, eles mostram a retrospectiva toda do Werner Herzog, mas não quer dizer que os 15 filmes do Herzog sejam todos obras-primas. Se calhar há filmes frágeis no universo desses quinze, mas o cinema de autor é valorizado na medida em que se entende o autor como um artista e a cinematografia de um realizador é um processo constante e os erros também têm coisas interessantes porque apontam caminhos para outros filmes. E nesse aspecto sinto-me honrado por terem gostado do meu filme, por quererem mostrar o meu filme. E obviamente é óptimo poder mostrar o meu filme na minha cidade.

E a partir daqui como vai ser o percurso dos vossos filmes?

JS – O meu filme foi seleccionado para o Festival de Cannes, concorrer à Palma de Ouro, na categoria das curtas, e depois daí penso que pode acontecer qualquer coisa… Vejo esta participação com os pés bem assentes na terra mas como é óbvio estou muito feliz.

IF – Agora tenho este (“Águas Mil”) com estreia mundial aqui, e tenho vários festivais a seguir com a longa. Tenho alguns apontados mas não quero falar muito, porque antes de ser oficial pode falhar. Em Setembro deverá chegar às salas.

Já estão a trabalhar nos próximos filmes?

IF – Eu já estou a escrever a próxima longa-metragem e curiosamente estou muito adiantado, nunca me passou pela cabeça escrever 20 páginas em quatro dias. É um filme passado no futuro, muito divertido e completamente diferente de tudo o que fiz até agora. É um filme de ficção científica e começa numa grande crise em 2011/13 e a acção parte daí, obrigando a uma reinvenção de toda a sociedade.



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