Jacques Tati

Um dos mestres do cinema europeu.

A Atalanta Filmes lança este mês um pack de 4 dvds com filmes de Jacques Tati ou Jacques Tatischeff (o seu verdadeiro nome). “Jour de fête” (1949), “Les vacances de Monsieur Hulot” (1953), “Mon oncle” (1958), “Playtime” (1967) são os temas escolhidos e o mote para aqui deixarmos um pouco mais deste realizador francês.

Jacques Tati nasceu em 9 de Outubro de 1908, em Le Pecq (França), onde teve uma educação privilegiada. Descendente da aristocracia russa, o seu primeiro trabalho foi ajudar o pai no negócio de emoldurar fotografias.

Em adolescente foi um entusiasta do desporto e praticou rugby, ténis e boxe em vários clubes desportivos. Nos vestiários, gostava de entreter os colegas fazendo mímica e comédia. Nos anos 30 participou em peças de teatro e musicais nos teatros parisienses, alcançando grande sucesso. Foi nesta década que realizou duas curtas-metragens: “Oscar champion de tennis” (1932) e  “Soigne ton gauche” (1936).

Depois da II Guerra Mundial prosseguiu com a sua carreira de actor e representou pequenos papéis em dois filmes de Claude Autant-Lara, “Sylvie et le fantôme” (1945) e “Le Diable au corps” (1946).

Em 1947 escreveu, realizou e protagonizou a curta-metragem “L’École des facteurs”, uma homenagem prestada aos filmes mudos dos anos 20 que contém referências a Buster Keaton e Charlie Chaplin. Encorajado pelo sucesso deste filme, Tati restaurou-o e relançou-o mais tarde em “Jour de fête”, a sua primeira longa-metragem. “Jour de fête” foi um sucesso estrondoso e recebeu críticas muito favoráveis, tendo sido responsável pela atribuição a Tati do Prémio de Melhor Realizador no Festival de Veneza em 1949. Este poderia ter sido o primeiro filme francês a cores mas, por razões técnicas, a versão filmada a cor não pôde ser usada na altura e só viria a público em 1995. Um facto curioso consiste na recusa de Jacques em contratar actores profissionais, tendo preferido treinar actores amadores.

Com a sua primeira obra iniciou-se num tipo de filme do qual nunca se conseguiria distanciar: comédias físicas sem enredo que se assemelham, por vezes, a comédias mudas dos anos 20. São comédias que contam com crianças e adultos, furtos à burguesia e com a implacável marcha da tecnologia, onde Tati aborda importantes aspectos, mas fá-lo de um modo brincalhão e não político. A abordagem não ofensiva faz com que os seus filmes sejam apreciados por diferentes públicos e que ninguém se sinta insultado pela sua obra.

Outra característica do seu trabalho é o modo como usa o som para dar ênfase ou contrariar as imagens que passam no ecrã, acrescentando mais um detalhe determinante para o charme do filme e para a sua complexidade estrutural. O diálogo não é usado para dar informações ao público, mas antes como se fosse mais uma forma de ruído de fundo. É a curiosa interacção entre este ruído de fundo, música e imagem que faz dos seus filmes únicos.

Em 1952 lançou a sua segunda longa-metragem, “Les vacances de Monsieur Hulot, que foi igualmente um enorme sucesso, particularmente nos EUA, e foi o filme responsável pela sua fama internacional. Foi aqui que surgiu o Monsieur Hulot (interpretado pelo próprio Tati), o seu “alter-ego” que iria entrar em quatro das suas seis longas-metragens. Neste filme, aborda um dos seus temas favoritos: a dependência do homem em relação à máquina.

Monsieur Hulot é um homem inofensivo de meia-idade que, sem querer, provoca desastres por onde passa, sem se dar conta da confusão que gera. Hulot é um solitário que não provoca nem grandes ódios nem grandes paixões, tal como Tati. No entanto, o traço que os distingue é o perfeccionismo do realizador que choca com o desleixo da personagem. Monsieur Hulot foi a estrela de “Mon oncle” (1958), uma sátira sobre a influência da tecnologia na sociedade e na vida familiar. A família central vive numa casa ultra moderna em que tudo funciona através de botões automáticos. As personagens parecem e agem como se fossem máquinas. O filme foi considerado uma obra-prima pelos críticos e marcou o ponto alto da sua carreira, tendo-lhe sido atribuído o Prémio do júri em Cannes e um Óscar nos EUA.

Em 1967 foi lançado “Playtime”, o seu projecto mais ambicioso. Tati investiu todo o seu dinheiro na produção deste filme, tendo chegado ao ponto de criar um cenário da dimensão de uma pequena cidade (mais tarde apelidada de Tativille). Os críticos não viram com bons olhos as suas tendências megalómanas e, além disso, ao banir os jornalistas de chegar perto do seu cenário, o realizador obteve muita publicidade negativa. Uma tempestade danificou Tativille, obrigando Jacques a prolongar as filmagens por vários meses. “Playtime” acabou por ser um fracasso tanto a nível de críticas como a nível de público.

As dívidas contraídas na produção de “Playtime” obrigaram o realizador a parar por uns tempos. Só realizou mais dois filmes e com um orçamento muito mais reduzido: “Trafic” (1971), uma sátira sobre a relação do homem com o automóvel em que Hulot aparece pela última vez; e “Parade” (1974), um filme sobre o circo produzido para a televisão sueca e que nunca foi lançado nos cinemas.

Como reconhecimento da sua contribuição para o cinema, Jacques Tati recebeu o “César d’honneur” em 1977. O seu último projecto, “Confusion”, não chegou a ser terminado porque o realizador morreu, entretanto, vítima de uma embolia pulmonar a 5 de Novembro de 1982 em Paris.

Jacques Tati é um marco na História do cinema francês. Apesar de, no seu tempo, não ter sido aclamado nem pelo público nem pela crítica, depois da sua morte veio o sucesso e a sua consagração como actor, escritor e realizador.



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