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Jaguar

"Then Nothing Turned to Gold".

Em 2008 os Jaguar chegavam ao fim. Hoje, em pleno 2010, temos acesso a uma obra póstuma – “Then Nothing Turned to Gold” é, nas palavras de Eduardo Vinhas, o ex-guitarrista da banda, um álbum pouco aperfeiçoado. É melhor que muita coisa aprumada que por aí anda. Para além de Eduardo Vinhas falámos também com Rodolfo Matos, baterista dos Norton e um dos responsáveis pela editora Skud & Smarty.

Não procurem pelos Jaguar na Internet. No máximo vão encontrar uma banda metal britânica. As referências são diminutas, mas lembramo-nos dos Jaguar, eles que foram Filipa Leão (voz), João Valente (teclas e tambourine), Nuno (baixo), João Osório (guitarra), Eduardo Vinhas (guitarra) e Rodrigo Costa (bateria). Lembramo-nos que a banda de Castelo Branco se formou em 1998 e chegou ao fim dez anos depois. Lembramo-nos ainda que editaram dois álbuns – a estreia homónima de 1999 e “Pop-Yen”, álbum de 2002. Lembramo-los agora ou – melhor ainda – celebramo-los agora que lançam um terceiro álbum via Internet e que – cereja no topo do bolo – é à borla. É um belo álbum póstumo em que pop e a electrónica dão as mãos tendo em vista a criação de um ambiente onde encontramos ecos de Air e Portishead. Estabelecemos contacto com a banda (Eduardo Vinhas) e com a editora Skud & Smarty, por intermédio de Rodolfo Matos, um dos responsáveis pela editora e baterista dos Norton.

“Then Nothing Turned to Gold” é o nome do álbum. Está pronto desde 2008. Porquê só agora? “Falamos nesta edição desde que o disco está pronto. Este ano, em conversa com o Eduardo Vinhas e o João Osório, tentei mostrar-lhes que o disco continua muito actual e que era bom demais para ficar fechado na gaveta”. Estas são palavras de Rodolfo Matos. Antes, logo no início, já nos tinha avisado: “esta pergunta devia ser feita a eles, [aos Jaguar]”. Foi o que fizemos. Passámos a palavra a Eduardo Vinhas: “Este disco foi feito em 2007. Algumas músicas são mais antigas ainda. Na altura achávamos que tínhamos que refazer algumas letras e misturar melhor as músicas antes de editarmos [o álbum]. Não estava nem está pronto.” E lança algumas farpas ao antigo agenciamento. “Acho que estávamos a ressacar de tanto concerto sem nexo que tínhamos dado nos últimos anos. O nosso agenciamento e manager eram muito bons nisso, [em] porem-nos a tocar em qualquer lugar a toda a hora. «Gestão de carreiras artísticas» é o lema deles… deveriam mudar para «destruição de carreiras». Se calhar éramos nós que não estávamos talhados para os seus planos”, conclui. “Seja como for, estávamos saturados e a dada altura pensávamos mais na nossas vidas pessoais. Foi um momento de transição. Entretanto o disco foi ficando na gaveta até que chegámos à conclusão que não tinha grande nexo editar um álbum de uma banda que não estava a tocar. Nem sabíamos se iríamos voltar a tocar juntos. Passados uns bons anos, chatearam-nos tanto para mostrarmos o que estava no fundo da gaveta que aceitámos pôr o trabalho online e com acesso gratuito. [É] melhor do que ficar no escuro para sempre”.

Lo-fi e edição física

Pela resposta à primeira pergunta fica a sensação de que o disco está longe de estar concluído. Ouvimos o álbum e parece finalizado. “É um disco que ainda consideramos inacabado ou pouco aperfeiçoado”, responde Eduardo Vinhas. Dito assim soa melhor. É um álbum “pouco aperfeiçoado”. O guitarrista acrescenta: “Muitos dos «takes» são «take 1». Têm erros e desafinações. Por outro lado, isso permite que a música seja ouvida mais próxima da sua essência, da ideia, daquilo que saiu à primeira, o que tem em si muito mais emoção”. 2009 revelou-nos várias bandas com um grande apreço pelo lo-fi, ou seja, música que o destaque vai precisamente para uma qualidade de som mais baixa. Eduardo Vinhas: “Nos dias que correm, onde parecem ter desaparecido muitos dos verdadeiros músicos indie, as gravações de quatro pistas, os discos feitos com poucos recursos e [com] todas as mariquices possíveis, é até bem refrescante e pacificador.” Perguntamos ainda se estão satisfeitos com o resultado final. “A resposta mais curta é sim. As músicas são boas, gostamos delas e isso é o principal”. E mudavam alguma coisa? “Não. Se fosse para mudar alguma coisa fazia-se um álbum novo”.

O disco, como já foi referido, foi apenas editado na Internet. Questionámos tanto os Jaguar como a editora se há hipóteses de vir a acontecer uma edição em formato físico. A Skud & Smarty responde que “não faz muito sentido neste momento editar o disco em formato físico. A banda já não existe e como tal estariam fora de plano acções de promoção e concertos, logo seria um projecto complicado”. Já a banda coloca essa hipótese: “Já pensámos nisso. Estamos a considerar uma pequena edição de autor. Mais para ficarmos com o disco para nós e para quem o queira”. E conclui em tom de brincadeira: “Para quando formos velhinhos podermos esfregá-los à frente de alguém. Ou só de nós mesmo, ao espelho. Bem, se calhar já nem há leitores de CD nessa altura…”

No fim, perguntámos a Eduardo Vinhas o que andam a fazer agora os membros dos Jaguar. O guitarrista não mencionou nomes, à excepção do de Filipa Leão. “Três deles trabalham essencialmente para a Televisão. [Fazem] realização, montagem, edição, etc. Outro tem um estúdio de gravação onde tem a sorte de trabalhar com o que há de melhor neste país. Temos também o homem casa: vende, compra, aluga, constrói e arranja. Outro ficou-se pela psicologia, outro é agricultor. E a Filipa dedicou-se com muita força ao teatro, embora ainda cante no duche e às vezes noutros projectos”. Segue-se a parte que verdadeiramente interessa: “Para além dos nosso trabalhos temos ainda os Musgo, coisa que inventámos há uns anos, enquanto tocávamos como Jaguar. A ideia era ter uma folha em branco onde fosse possível fazer o que nos apetecesse. Sem ter que obedecer a isto ou aquilo, a conceitos, ao manager. Já editámos mais com os Musgo do que com os Jaguar. É muito mais fácil com menos pessoas e menos regras. Só temos uma: gostar do que ouvimos, gostar do que tocamos. Se ninguém quer saber? Igual ao litro. E é com essa atitude, emprestada dos Musgo, que pomos o disco de Jaguar cá para fora. Só porque sim, porque gostamos”. E nós cá aprovamos. Está online, é de borla e, mesmo que pouco aperfeiçoado, tem muita qualidade.



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