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Jamie Lidell

Compass

Jamie Lidell corre o sério risco de se tornar um dos músicos, senão o músico, mais autoral – em toda a sua expressão sonora – dos últimos tempos. Quando assim é, muito dificilmente não se criam expectativas elevadas que estejam sempre, ou quase sempre, bem longe da inobservância que só aos músicos menos geniais se nos asseverará inócuo.

Lidell atravessou fases distintas – do electro funk do projecto Super Collider ao genial “Multiply”, em que abraçou e uniu a soul, mais ou menos formatada – como reflexo pop de verdadeira atracção – ao funk, gerando um som agridoce capaz de aprofundar as dicotomias urbanas, sem esquecer logicamente “Jim” -disco em que focalizou e enalteceu, de um modo muito particular, o fervor de uma época que aconchegaria na soul vultos como Otis Redding ou Albert King.

Agora, Jamie Lidell aparece-nos com “Compass”, disco menos focalizado ou objectivo, para uns, denso e simplesmente confuso para outros. Quando as expectativas debelam a vontade de crescer ou variar nas direcções, normal será que saiam defraudadas.

“Compass”, é certo, não será um disco tão orgânico como o foi “Multiply”, mas revela o Homem / Músico na maior amplitude da sua séria capacidade enquanto criador de ritmos. Em “Compass” o Homem sobrepõe-se ao músico e o músico dita a complexidade do Homem.

Com colaborações de Beck, Feist, Grizzly Bear ou Pat Sansone (Wilco), o músico congrega no seu mais recente disco a rítmica experimental mergulhada no R&B – «She Needs Me» – as harmonias mais complexas repeltas de cacofonias deliberadas – «I Wanna be your Telephone» – a pop mais criativa – «Compass» – com  o sentido estético duns 70´s – «Enough is Enough» – o rock, mais ou menos, dançável – «You Are Waking» – com uma espécie de introspecção arrastada que pulula algum do imaginário pop urbano perturbador – «Big Drift», «Coma Chameleon».

Neste disco somos arrebatados não por um, mas por diversos estilos, cheios de paralelismos e vontades próprias em si. É como se, de facto, o músico tivesse a capacidade de agitar a criação, mas não tivesse rédeas sobre o Homem que a cria. Há uma profusão de momentos e estados de espírito que deambulam em imaginários diversos e descansam em terrenos alheios. Há soul a irromper psicadelismos electrónicos, passagens pelo funk e ritmos mecanizados com folk e blues lá dentro.

A linguagem criada por Jamie Lidell não deixa de ser estimulante e, apesar da emergência e pouca homogeneidade de “Compass”, poderá resultar – tal o esticar de corda – numa maior e melhor consistência ao vivo. E quem assistiu à sua prestação no SBSR deste ano poderá constatá-lo com maior clareza.

Fotografia por Nicole Lodland



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