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Jardim de Santos

Um Jardim para o Século XXI.

Quem já não atravessou o Jardim de Santos e parou diante das árvores centenárias? Quem já não comentou as raízes enormes, se sentou em cima das mesmas e se viu como que a viajar para um qualquer conto do fantástico? Quantos de nós, entre uma e outra conversa, não deu ideias para que aquele pedaço de verde à beira rio ficasse menos esquecido? Ao lado de uma das artérias mais movimentadas da capital, vizinho do Santos Design District, com o rio no horizonte e numa das zonas nocturnas mais movimentadas da cidade, o Jardim de Santos vai mudar! Isso, vai mudar e adequar-se ao modus vivendi do século XXI, num projecto que juntou sob o mesmo mote uma equipa multidisciplinar, da qual fazem parte a Câmara de Lisboa, a Experimenta Design, o colectivo Pedrita, Fernando Brízio, o arquitecto paisagista João Gomes da Silva, Rui Gato, José Álvaro Correia e António Silveira Gomes. A Rua de Baixo conta-lhe a história.

Era uma vez…

…Um jardim esquecido e subaproveitado à beira-mar plantado, que se tornou num território de estudo e numa zona de intervenção de uma equipa caracterizada pela diversidade. Desafiada pela Câmara Municipal de Lisboa para pensar numa forma de requalificar e revitalizar aquele pedaço de verde urbano, a Experimenta Design criou aquilo a que chamou um “projecto global”, que tinha como fim tornar o Jardim de Santos, num Jardim para o Século XXI. Para isso, reuniu uma equipa de criativos, que utilizaram o design enquanto disciplina operativa e estratégica, para abrir caminho a novas possibilidades de utilização e vivências através da criação de um espaço multifuncional e em sintonia com os actuais contornos da vida urbana. Bem-vindos ao Jardim de Santos 21!

Um estímulo

O novo espaço público será dinâmico e dinamizador, vai promover a mobilidade, a cultura, o comercio e os serviços, será um estímulo. Para isso foi redesenhado, ao nível das zonas verdes, dos caminhos pedonais, do mobiliário urbano, dos elementos lúdicos, dos equipamentos e dos conteúdos culturais, da sinalética, do som e da iluminação. Uma panóplia de disciplinas que têm o design como elo de ligação, juntaram esforços, uniram pensamentos, discutiram em mesa redonda, opinaram, desenharam e pensaram em conjunto, criando uma plataforma criativa que vai deixar uma marca em Lisboa. A Rua de Baixo falou com a Experimenta Design para perceber a contribuição de cada criador neste todo.

A união faz a força!

Que duas cabeças pensam melhor do que uma, é do senso comum; e que a união faz a força, poucos têm dúvidas, mas para os que ainda as têm, esta poderá ser a prova que os vai ajudar a perceber que equipas multidisciplinares são o meio para um final feliz! “O Jardim de Santos acumulou ao longo de décadas a matéria da memoria colonial, dando origem a um espaço e atmosfera que nos remetem para lugares longínquos”, explica João Gomes da Silva, o arquitecto paisagista da equipa. Neste espaço reduzido, foram-se acumulando vegetações, caminhos e fins, que o tornaram confuso e intenso. O desafio foi o de analisar e pensar como se poderia hoje viver um jardim. A contribuição de João Gomes da Silva foi a de rasgar novas passagens, editar vegetação e arbustos e privilegiar as árvores nobres e de grande porte, “redesenhando-se caminhos e pavimentos, percursos e sons”.

O eterno sonho infantil de ter uma “casa na árvore” inspirou o imaginário do designer Fernando Brízio.
Com a tarefa de criar um equipamento que conjugasse a vertente de restauração com a de interface de suporte à criação criativa, Brízio desenhou um objecto único, em ferro, ancorado em três escadas e  em redor de uma das principais árvores do jardim. A “casa na árvore” funciona em dois níveis, uma junto ao chão e outra ao nível da copa, e promete “encantar adultos e crianças”, revela o designer. Dotado de um terraço, o mesmo “oferece uma perspectiva inesperada do jardim e o vislumbre do rio Tejo. Afastados do ruído da cidade, os utilizadores podem usufruir da tranquilidade repousando nas zonas onde as inclinações da plataforma formam pequenos encostos para sentar ou mesmo deitar, revestidos a cortiça. O desenho da plataforma acompanha o recorte dos ramos da árvore, sublinhando-o de modo subtil e procurando fundir-se – não impor-se – no elemento natural”, sublinha o designer. É sob este terraço que nasce uma cafetaria, numa zona de confluência dos percursos do jardim, e no que diz respeito ao pavimento, Brízio optou pelo próprio chão do jardim, criando um efeito de continuidade que une espaço verde e espaço construído. Espaço verde redesenhado e equipamento criado, faltam os artefactos necessários a um jardim público.

Bancos, mesas, caixotes de lixo e bebedouros ficaram a cargo do colectivo Pedrita, que desenhou um sistema modular, que possibilita vários modos de conjugação de forma a resultar em diferentes composições que por sua vez, respondem a diferentes zonas do jardim. Segundo os mesmos, “a relação com os elementos vegetais, pré-existentes ou projectados foi determinante para a criação de um equipamento versátil que permite utilizações e fruições diversas.

A linguagem formal adoptada articula os mesmos materiais utilizados noutras vertentes do projecto, nomeadamente a cortiça e o betão numa conjugação invulgar. A cortiça surge como elemento base, estrutural e trabalhado em bloco; e o betão como superfície de contacto, trabalhado como uma lâmina que se dobra em costas de assentos ou mesas”. O mobiliário urbano foi ainda pensado para pontuar o jardim criando ambientes distintos, em que uns apelam à fruição colectiva e outros a uma utilização mais intimista.

Som, luz, acção!

A criação de um ecossistema sónico, evolutivo e mutante como um ecossistema natural foi o ponto de partida para o sound design do futuro Jardim de Santos. O objectivo do designer de som, Rui Gato, foi o de criar diferentes experiências sonoras que podem ser vividas de forma individual ou colectiva, sendo que as mesmas podem ainda “ser passivas – o visitante experimenta a intervenção sonora já desenhada – ou activas, em que o visitante, real ou digital, interage com a banda sonora, modificando-a”, explica Rui Gato, destacando ainda que “a experiência do jardim é assim pontuada por um ambiente sonoro diversificado, atmosférico e não repetitivo”.

Ao redesenhar a iluminação do jardim, o designer de luz, José Álvaro Correia, tinha como objectivo tornar o lugar “mais seguro e sedutor para estar e circular”, uma vez que, segundo o mesmo, “ao criar uma atmosfera envolvente e descontraída, a luz potencia a utilização do espaço para além do período diurno”. Por isso, o designer interviu no interior do jardim mas também no seu perímetro e fronteiras com os elementos urbanos circundantes, criando 4 vertentes projectuais: a luz geral – que acentua a escala das árvores; a iluminação pontual – que responde às necessidades das zonas de permanência, lazer e circulação; a luz lúdica, “que pretende conferir ao jardim um carácter único”; e a luz circundante, que pretende tornar a iluminação menos fria. Ideias discutidas, desenhadas e prontas a implementar, para o todo ficar completo era necessário pensar a sinalética de forma a criar uma identidade gráfica adequada à nova personalidade do Jardim de Santos. António Silveira Gomes, designer de comunicação ,abraçou o desafio e explorou a ideia de “provocar um re-encantamento pelos espaços urbanos verdes reforçando a relação entre homem, natureza e cidade”.

A esta altura o desafio já foi há muito lançado, a tarefa cumprida, faltando apenas que as ideias dos criadores passem do papel para a realidade, para que Lisboa veja nascer um Jardim para o século XXI. Até lá, resta-nos aguardar…



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